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O papel da escola na formação de alunos globais16 min de leitura

Promover uma educação que prepare os estudantes para os complexos desafios de um mundo cada vez mais globalizado tem feito parte do radar de instituições de ensino que buscam ser bem sucedidas na atualidade. Em comum, elas já notaram que existe uma grande demanda por formar cidadãos com habilidades em networking global e, assim, passaram a investir em iniciativas que promovam ampliação cultural, mas que não se restrinjam apenas ao ensino de idiomas da grade regular ou que se resumam às viagens de intercâmbio convencionais.

No Colégio Rio Branco, de São Paulo, por exemplo, os alunos têm a possibilidade de viajar para o exterior para aprofundarem seus conhecimentos em conteúdos científicos. Há dois anos, a escola oferece aos estudantes do Ensino Médio uma vivência internacional através do programa Opwall (Operation Wallacea) – projeto de Educação Científica feito através do Instituto VerdeCoral Pró-Ciência. O Opwall é uma organização inglesa que realiza expedições científicas em diversas partes do mundo com o objetivo de mapear biomas em risco. O conhecimento gerado por esses estudos é publicado anualmente em revistas científicas renomadas, como a britânica Nature, por exemplo, e já resultaram na descoberta de 30 espécies de vertebrados novas para a ciência, além da “redescoberta” de quatro espécies previamente consideradas extintas.

O inglês é o idioma oficial de todo o programa e os alunos têm a oportunidade de auxiliar voluntariamente pesquisadores de um projeto que influencia populações do mundo todo. “Vejo aí uma conexão muito grande com a educação para o cidadão global, construído na ideia do ‘cidadão do mundo’. Aquele que enxerga o que acontece lá na China como fazendo parte da nossa vida. Que enxerga que não tem fronteiras e que, o que acontece aqui, vai refletir no outro em outro lugar. Fizemos essa parceria com a Operação Wallacea por acreditar nesses valores e para oferecer aos nossos alunos uma oportunidade de estudo internacional, fazendo parte de um grande projeto de internacionalização do colégio, não só para a formação linguística, mas para outras habilidades também”, afirma Henrique Bovo, coordenador do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio do Colégio Rio Branco.

Expedição dos alunos do Colégio Rio Branco à África do Sul, pelo Operation Wallacea.

 

Aprendizado para a vida

Em 2016, o Rio Branco participou de uma expedição em Honduras e, no ano passado, os alunos foram estudar na África do Sul. Na ocasião, Bovo acompanhou um grupo de dez estudantes que, por 17 dias, ficou imerso em uma pesquisa de campo terrestre e marinha. No período, os alunos ficaram em alojamentos, alimentando-se de comida típica dos moradores das cidades pesquisadas e dividindo experiências com alunos da Nova Zelândia.

Além do estudo em campo, na viagem à África do Sul, os alunos também tiveram a oportunidade de vivenciar o funcionamento cotidiano da capital do país, Joanesburgo, e, assim, traçar um paralelo do quanto a cultura africana tem relação com os desafios do Brasil.

“A gente sai dessa experiência com uma outra cabeça. Tudo o que se aprende em uma operação como essa são habilidades que os alunos irão levar para o resto da vida, para aplicarem em qualquer atividade profissional que ele venha a desenvolver durante sua carreira”, defende Bovo.

Embora o foco maior esteja na ampliação de vivências que possibilitem um crescimento dos estudantes enquanto cidadãos, o trabalho de pesquisa feito nesse projeto conta pontos para os alunos que queriam cursar uma universidade no exterior. “No ano passado, um aluno aplicou os pontos em cinco universidades dos EUA e entrou em Columbia. Mas a grande oportunidade mesmo desta experiência é a de crescimento humano. Esse tipo de atividade desenvolve muita resiliência nos alunos: suportarem condições de frio, desconforto para dormir, usarem banheiro coletivo, comida de acampamento, além do fato de terem empatia, se colocarem no lugar do outro, entenderem mais que problema de uma pessoa que está tão longe também interfere diretamente na nossa vida e se solidarizar pelo mundo”, constata.

 

Formando cidadãos ‘multitask’

O Instituto VerdeCoral Pró-Ciência é uma startup da Supera – incubadora de empresas da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto – e tem como foco a educação científica e o desenvolvimento de pesquisa em biodiversidade marinha e terrestre. Através de parcerias com outras instituições, promove a pré-iniciação científica de jovens de Ensino Médio e realiza trabalhos na  formação de professores das áreas das ciências, além de enviar turmas de estudantes e professores para auxiliarem na coleta de dados científicos no exterior, em parceria com a Opwall. A partir de janeiro de 2019, o Instituto também vai organizar expedições científicas no Brasil, começando pela Bahia.

“Basicamente o que a gente faz é oferecer oportunidades para que os jovens desenvolvam sua natureza curiosa e investigativa através de experiências científicas, trazendo a ciência de amanhã para a aula de hoje, ou transcendendo o ambiente escolar através da prática da Ciência Cidadã em expedições científicas”, afirma Nayara Fernanda Hachich, fundadora do Instituto VerdeCoral e diretora do escritório da Opwall no Brasil.

Assim como o coordenador do Colégio Rio Branco, Nayara também reforça os benefícios do desenvolvimento de competências múltiplas, reiterando que essas experiências não se limitam apenas a “brincar de ser cientista” e sim, possibilitam uma formação global e holística aos estudantes. “O jovem hoje em dia está muito preso à realidade local, mesmo estando conectado virtualmente com outras realidades. Ele conhece, mas a vivência dele é muito limitada. A ideia é justamente formar um cidadão multitask (multidisciplinar). Então, tanto vivenciando a pesquisa científica, como convivendo com pesquisadores, muito embora eles estejam trabalhando na área de ciências da natureza como estatística, geografia, geologia, biologia, ecologia, o que ele vai levar de mais importante mesmo é ter experiências de vida. Desde coisas simples, que a gente não pensaria no conceito de cidadão global, como aprender a se organizar na barraca, dividir  a rotina com outros amigos, organizar a mochila, organizar os horários, acordar sozinho, entre outras coisas, que farão ele sair da zona de conforto e lidar com habilidades intrapessoais e interpessoais”, pontua.

 

Novos formatos para os Intercâmbios culturais

Um dos caminhos mais traçados para uma vivência extra-fronteira que possibilite formação global são os intercâmbios culturais. Escolha cada vez mais comum às famílias que podem e que desejam oferecer esse tipo de experiência aos jovens, os programas de intercâmbio estão se tornando cada vez mais personalizados, com objetivo de atender de forma mais assertiva ao perfil e à necessidade de cada público, seja aluno, escola ou empresa.

Afinal, como as oportunidades de viagens ao exterior e o estudo de línguas estão mais acessíveis a crianças e jovens da atualidade, o setor precisou se atualizar e hoje já conta com empresas que vão além dos roteiros clássicos e customizam os programas de vivência no exterior.

A Teraví – Educação Internacional, por exemplo, faz uma curadoria de instituições e cursos ao redor do mundo para poder elaborar projetos de educação no exterior sob medida para cada cliente, sugerindo programas e destinos que proporcionem experiências de aprendizado pessoal e profissional, com foco na autonomia, inovação e humanidade.​

“A gente entende que a educação não tem um fim em si mesma, ela é um meio para você atingir seus objetivos e buscar uma versão cada vez melhor de si mesmo. Por isso, fazemos um trabalho em conjunto, uma co-criação mesmo, para entender qual a necessidade que eles têm, tanto a escola como instituição, quanto o estudante e a família como pessoa física. Os programas são elaborados individualmente e voltados para aquela experiência ou tipo de objetivo que eles buscam. Assim, tentamos levar em conta quais as expectativas e quais os resultados almejados  para que possamos achar o ‘melhor match‘ possível”, explica Pamela Piazentin, fundadora da empresa Teraví.

Tendo em vista que “experimentar o mundo” é uma habilidade cada vez mais requisitada para os jovens globalizados, além dos tradicionais programas de acampamentos de férias, College e High School, a empresa monta pacotes como o Gap Year, por exemplo, onde os estudantes passam um ano tendo experiências em diversas áreas em diferentes países, ou dentro de um mesmo país, em cidades diversificadas. “É importante que eles consigam transitar entre diferentes culturas, que sejam cada vez mais empáticos com os problemas globais s e que tenham resiliência. Tentamos trabalhar essas habilidades do futuro na montagem dos projetos porque a gente acredita muito na força dos jovens e no poder que eles têm já hoje e que terão cada vez mais, à medida que vão crescendo, de transformar o mundo. Eles serão nossa próxima geração de líderes, de pessoas que vão ter a possibilidade de fazer mudanças e gerar impactos positivos no mundo”, afirma Pamela, que coloca os projetos para este público como um dos focos da Teraví.

 

Na prática

Com a experiência de ter vivido um período em Londres quando terminou o Ensino Médio, a psicóloga Flávia Cunha decidiu que o filho Thomás, de 17 anos, também deveria passar pelo mesmo tipo de experiência antes de ingressar na universidade e planejou uma experiência de Gap Year com a Teraví. “Era o tempo dele experimentar e viver coisas diferentes”, afirma Flávia. Tomar decisões, gerenciar os recursos, conviver com outras culturas e com pessoas de diferentes nacionalidades, para Flávia e o marido, vão representar na vida do filho maturidade e formação global. “Ele está ganhando muito mais neste período do que ele ganharia em qualquer universidade aqui de São Paulo”, assegura.

Com inglês fluente, Thomás formou-se no Ensino Médio no colégio Vera Cruz, em São Paulo, mas estudou dos quatro aos 14 anos no Colégio Sidarta, que tem Mandarim, Inglês e Espanhol em sua grade curricular e, como filosofia, a ideia de que “teorias não substituem experiência de vida”. Embora já tenha viajado por mais de oito países diferentes através da Cisv (Children’s International Summer Villages), em seu “Gap Year”, feito com a Teraví, o jovem que hoje está em São Francisco (EUA), desembarca esse ano ainda no Quênia e encerra sua viagem em Paris.

Thomás na Ponte Golden Gate, em São Francisco (EUA).

Na Califórnia, já fez curso de sushi, surf e quer fazer um de DJ. “Estou tendo um crescimento absurdo. A viagem está servindo muito para abrir meu leque, conhecer pessoas de vários ramos, de várias nacionalidades, culturas diferentes, e é bem legal trocar essa experiência com eles. Antes eu só pensava em Publicidade e Propaganda agora já comecei a considerar a algo ligado a ecologia, engenharia ambiental”, conta o estudante, que mora na casa de um filipino, dividindo espaço com um suíço, um japonês e um francês.

 

Muito além do idioma

Sem ter a mesma bagagem em viagens internacionais como a de Thomás, Théo Coimbra Ferreira, 18, embarcou em fevereiro para o Canadá, para uma experiência internacional de nove meses. Em Vancouver, está terminando um curso de inglês de três meses, vai iniciar em junho um curso de Design de Games em um College canadense e, ao final, vai participar de um Farmstay – um trabalho voluntário em uma fazenda orgânica na região de British Columbia – experiência que também foi desenhada pela Teraví.

“Antes de vir para Vancouver, estava prestes a prestar os vestibulares, porém sem nenhuma ideia de que carreira seguir. Não completei nem metade da viagem e já percebi que foi a escolha certa ter feito a viagem e que não poderia ter sido em um lugar melhor, parece que a cidade foi feita pra mim. Aqui eu aprendi coisas que eu nunca imaginei que aprenderia. Conversei com pessoas de todos os continentes, com realidades completamente diferentes da minha. Já completei quase metade da viagem e sinto que amadureci muito, aprimorei meu inglês e me sinto motivado para completar os estudos aqui e voltar quando possível”, conta Théo.

A mãe, Renata Kalman, diretora e produtora de casting, diz que a vivência e o ganho de maturidade do filho pesaram na decisão de mandá-lo para uma experiência fora do país. “O inglês era importante, mas muito para ter uma vivência fora, pra se virar um pouco sozinho, cuidar das suas coisas, preocupações com a roupa, com a comida com a compra, com lavar a roupa. Já sabíamos que queríamos uma experiência lá fora, não sabíamos onde nem que tipo de curso, mas conseguimos definir conjuntamente. Hoje a gente vê muito nele a decisão acertada que foi”, comentou.

 

Ensino Bilíngue

Com a fluência no inglês obrigatória no contexto de globalização, muitas escolas que tinham esse idioma como segunda língua estão fazendo a progressão para o “bilinguismo”. É o caso do Ilimit Educacional, de Americana (SP), que este ano tornou o ensino de inglês interdisciplinar da Educação Infantil ao Ensino Fundamental 2. Uma das metas da instituição é que o estudante, ao se formar no 9º ano, esteja preparado para prestar o FCE (First Certificate in English) – exame de proficiência da Cambridge English.

“Além de uma aprendizagem mais natural para o aluno, a gente percebe que ele rejeita cada vez mais aquela forma estrutural, que era a forma tradicional de se ensinar inglês. Hoje ensinamos em inglês. Além dessa facilidade que o aluno tem, principalmente na infância, essa aquisição da língua fica um processo muito mais natural e que faz sentido para o aluno”, comenta Bárbara Particelli Fregonesi, coordenadora do Projeto Bilíngue do Ilimit.

Para a educadora, a educação bilíngue também atua a favor da formação de alunos globais, não apenas por proporcionar um aprendizado mais fluído do segundo idioma mais falado no mundo ( hoje, o inglês perde apenas para o Mandarim), mas também, por quebrar barreiras culturais e de comunicação.

“Hoje, o inglês é a representação maior do mundo globalizado. E, além da ideia do mercado de trabalho, o conhecimento de línguas desenvolve outras competências, como a colaboração, a tomada de decisão, a aceitação do novo e do diferente, trabalha a habilidade de lógica e interpretação”, complementa a coordenadora que cita os estudos da neurocientista canadense Ellen Bialystok, como argumentos positivos para adoção do ensino bilíngue.

Segundo a pesquisadora e professora da Universidade York que estuda bilinguismo há aproximadamente 40 anos, as crianças bilíngues processam a linguagem de forma diferente, pois conseguem focar atenção no que é importante, ignorando outros estímulos. Essa habilidade, de acordo com Ellen, treina o sistema executivo do cérebro que é responsável, por exemplo, pela execução de tarefas simultâneas e pelo processamento de atividades cotidianas como escovar os dentes e dirigir. Ainda segundo a pesquisadora, os estudos mostram que os indivíduos bilíngues têm vantagens positivas no envelhecimento, como a melhora da proteção do cérebro no caso de danos e no retardo dos efeitos do Mal de Alzheimer.

No Colégio Ilimit, mesmo os alunos que não têm a oportunidade de vivenciar o inglês fora do país, podem fazer uma imersão na língua durante a feira “English in Action“. Realizada anualmente, a atividade propicia uma vivência intensa do idioma durante uma semana – período em que os alunos não têm nenhuma aula na língua materna e participam de oficinas multidisciplinares que remetem à vivência na cidade tema escolhida para aquela edição. Este ano, por exemplo, o tema da feira será Nova York.

 

Modelo tipo importação

Com a tendência de “escola globais” em alta no Brasil, a “Avenues: The Word School” desembarca em São Paulo em agosto de 2018. A escola, fundada há seis anos em Nova York, tem como filosofia formar cidadãos globais, que não conhecem fronteiras e estão preparados para se tornaram lideranças mundiais. No Brasil, a Avenue vai oferecer ensino bilíngue já a partir da educação infantil, além de ensinamentos multidisciplinares, montagem e consecução de projetos e desenvolvimento socioemocional.

Oferece, ainda, a possibilidade de interagir com alunos de outras partes do mundo, permitindo que seus estudantes tenham entrada livre para cursar um semestre em outros campi ou se transferir automaticamente, caso a família se mude para um país onde a Avenues estiver, como no Catar, China, Inglaterra, além da matriz dos EUA. A segmentação do seu público pode ser observada a partir do valor da mensalidade que, seguindo a lógica de outras escolas internacionais em São Paulo, como St. Francis, Graded, Humboldt, deve girar em torno de R$ 8 mil.

 

Veja o que essas escolas super premium podem nos ensinar

 

Compartilhar para melhor educar

Fora do Brasil, a formação global abre os olhos para o desenvolvimento do aluno empreendedor, conectado à Nova Economia, que tem na lógica do compartilhamento um dos seus pilares centrais.

Essa é a proposta da WeGrow, a escola infantil da WeWork – rede global de coworking. Na instituição, que abre as portas em setembro deste ano dentro do WeWork de Nova York, os alunos terão aulas regulares de disciplinas tradicionais como literatura, ciências, matemática, artes, mas também terão parte de sua grade voltada ao aprendizado de ioga, meditação e filantropia, passando por alimentação consciente, dança e artes marciais. Já a partir do ensino infantil, eles poderão trabalhar como aprendizes dos funcionários e profissionais que façam parte do WeWork.

WeGrow, a escola infantil da WeWork.

“Com o WeWork, aprendemos que quando as pessoas se conectam, tornam-se mais fortes. Queremos facilitar o crescimento delas, e acreditamos que o caminho para isso é cercá-las de uma comunidade”, disse Miguel McKelvey, cofundador do grupo, em entrevista à revista Época Negócios.

 

Expectativas dos pais em relação à escola

Além da formação de seus filhos, os pais também esperam um bom atendimento e cuidado próximo em relação à escola, não é mesmo? Compreenda melhor o que esses pais esperam da escola para atender pais e alunos cada vez mais exigentes e conectados. 

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