A importância da família na escola para a formação de valores

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A importância da parceria escola-família na formação de valores (parte 1)

A escola transmite conteúdos enquanto a família ensina valores. Por muito tempo assim eram definidos os papéis de duas das mais importantes instituições da sociedade. Porém, com tamanhas mudanças nas relações sociais sofridas nos últimos anos e com as novas dinâmicas de composição e de funcionamento das famílias, fica cada vez mais difícil estabelecer os limites que permeiam esta relação, principalmente quando a ética e os valores morais estão no cerne do debate e da preocupação dos brasileiros.

Embora seja um tema polêmico, pais e educadores concordam em um ponto: a escola e a família devem ser parceiras na missão de formar cidadãos de maneira integral, alinhando expectativas e unindo esforços para o aluno seja o maior beneficiado. Mas, como trabalhar essa corresponsabilidade dentro da escola de forma que ela atue como agente ativo no processo, mas sem se sobrecarregar de incumbências que não estão no seu escopo?

 

Formação integral

“Essa divisão de papéis não cabe mais no mundo de hoje. O aluno precisa ser visto como um ser humano integral e todos os que estão envolvidos com ele contribuem com sua formação”, defende Káthia Kobal, coordenadora pedagógica da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I do Colégio Vital Brazil, de São Paulo.

Para ela, a responsabilidade na formação de caráter e de valores é da família em primeiro lugar, porém, posteriormente, a escola vem para consolidar o que foi ensinado em casa.

Camila Faria Zanetti, coordenadora pedagógica do Colégio Tarsila do Amaral, de Limeira (SP), entende a questão de forma semelhante.

“Toda e qualquer escola de educação básica tem como um de seus principais objetivos o dever de preparar seus alunos para vida, como cidadãos de bem. Mas a escola não faz o papel da família e nem esta faz o papel da escola. É necessário que haja participação mútua entre as partes”, afirma Camila.

 

Socialização

A família é o primeiro grupo onde a criança obtém contato e relação social. Uma das mais importantes funções dos pais e/ou responsáveis quando a criança ainda é um bebê é, justamente, dar início a este processo de socialização, repassando aos pequenos padrões de conduta e de moral de acordo com os valores que acreditam e com a cultura na qual estão inseridos.

Porém, quando começa a frequentar o colégio, tem início uma nova fase nesse processo de socialização. Se antes a criança vivia em um mundo mais ensimesmado, fechado e protegido, ao entrar na escola, ela passa a ter contato e a estar exposta a diferentes realidades, modelos de criação e valores. E é nessa convivência que as competências sociais e emocionais da criança começam a ser desenvolvidas, com objetivo de capacitá-la a enfrentar os desafios da vida. “A partir do momento que ela entra na escola, a escola se torna responsável por inserir a criança no coletivo. A noção de respeito e valores se constrói tanto em casa quanto na escola, apesar de serem relações e instituições diferentes. Uma complementa a outra. Não há como viver em sociedade se não trabalhar a questão dos valores”, afirma a psicóloga, psicopedagoga e terapeuta de casal, família e comunidade, Sandra Cristina Trambaiolli De Nadai.

Entretanto, é importante entender que, muito embora a escola tenha o papel de exercitar os valores construídos pelas famílias, isso não significa que ela determine o que é certo ou errado, mas sim, que trabalhe questões que desenvolvam os valores ético e moral nos alunos. “Trabalhar valores no colégio significa abrir espaço para debater sobre sentimentos e buscar um comportamento empático não só entre alunos, mas também entre todos os que circulam pela escola, contribuindo fortemente para a formação social dos estudantes e também para o aperfeiçoamento de sua identidade e autoestima”, diz Vania Bueno Frau, diretora pedagógica da Escola Ser, de Campinas (SP).

 

Identidade comunicada com clareza

Tendo em vista essa corresponsabilidade na formação integral dos estudantes, comunicar com clareza aos pais quais são seus princípios e quais as regras de convivência da sua instituição é uma forma de evitar conflitos no que se refere aos valores trabalhados pela escola. Para isso, além de um posicionamento de marca que dê conta de transmitir como sua instituição atua neste quesito, é preciso informar aos pais, desde o momento que eles demonstram interesse pela escola, quais são os princípios que a regem e de que forma ela os trabalha no cotidiano.

“Quando a gente procura uma escola para os filhos, normalmente a gente procura uma escola que dialogue um tanto considerável com nossos próprios valores, crenças e nosso jeito de encarar o mundo. Então, cabe essa reflexão primeira da família: o que eu quero de fato?”, opina Juan Otarola, coordenador pedagógico da Teia Multicultural, de São Paulo.

É neste caminho de esclarecer quais são seus pilares e o que espera de seus alunos que atua o colégio Albert Sabin, de São Paulo, já ao recepcionar as novas famílias. “No primeiro encontro com os pais, na integração de alunos novos, a gente expõe nossos valores, nossos princípios, nossa missão, nossos pilares e que são inegociáveis. Então eles já vêm muito cientes. A gente nem sempre vai concordar em tudo porque temos de pensar no coletivo, mas uma vez que estão aqui conosco, eu não os vejo desalinhados com nossos princípios”, afirma Dioneia Menin da Silva Oliveira, coordenadora pedagógica de Educação Infantil e Ensino Fundamental I do Colégio.

Para a educadora, o conceito da convivência voltada para o coletivo é justamente um dos pontos positivos da atuação da escola neste quesito, tendo em vista que a instituição de ensino harmoniza e traz para a prática o exercício dos valores de forma mais desafiadora, se comparado ao núcleo familiar.

“Nas famílias, há diferentes graus de princípios e valores, sendo alguns mais importantes que outros e, como a escola não vai mudar seus princípios e prioridades para atender questões pessoais, ela traz um equilíbrio para essa equação”, afirma.

Porém, é fundamental ressaltar que o aprendizado moral e ético dos alunos no âmbito escolar não se dá apenas por aulas ou disciplinas que contemplem discussões nesse campo mas, especialmente, quando está incorporado ao projeto político pedagógico da escola e, principalmente, quando faz parte da prática cotidiana de toda instituição. Em outras palavras, não adianta a escola “ensinar” uma postura ética e os estudantes observarem professores usando o horário de planejamento de aula para cuidar de assuntos pessoais, por exemplo.

 

Novas configurações sociais

Atenta ao novo perfil de sua clientela, o Colégio São José, de Santos (SP), sentiu necessidade de fazer um reajuste no seu papel frente à formação holística dos alunos. Considerando a variação na dinâmica das famílias que, não apenas contam com a mulher atuante no mercado de trabalho, mas por vezes têm pais e mães conciliando jornadas de dois ou mais empregos, a instituição escolheu se posicionar de forma empática para atender as demandas desse tipo de público. “Quais são nossos pais hoje? Tem muitas mães que têm seus filhos sozinhas. Tem pai e mãe que trabalha fora o dia inteiro. A gente tem que ter esse olhar que o mundo é outro. Eu tenho período integral e tem criança que fica aqui das 7h da manhã às 7h da noite e a gente tem que aceitar como uma realidade. Não é só fazer um julgamento, uma crítica para a família: ‘a família não cuida’. Tem muitas famílias que não cuidam, mas tem famílias que cuidam dentro da possibilidade de sua rotina. Então a gente tem de se colocar um pouco no lugar dessas famílias e ajudar naquilo que for possível”, pondera a diretora Maria Cleonice Machado.

Para a diretora, as famílias têm a preocupação de não darem conta sozinhas de formar um cidadão com valores éticos e clamam que as escolas possam ajudá-las nesse processo. “A gente vive hoje uma movimentação social que angustia muito as famílias e a escola precisa olhar pra isso, acolher o que for possível e orientar como for necessário. Não tem como deixar isso de lado. Eu brinco que a gente hoje estuda mais questões sociais que Matemática e Português porque a gente tem que lidar com esse conteúdo no dia a dia na escola”, reforça Dioneia.

Mas, é preciso deixar claro que a proposta da escola ser uma parceira não significa que os pais têm o direito de terceirizar suas responsabilidades, se eximindo do papel central que tem na construção do caráter dos filhos. Para evitar conflitos e maus entendidos neste sentido, uma comunicação direta e franca é o melhor caminho. “Falar em parceria significa que tanto escola quanto família tem interesse em comum, que é o aluno. Que ele se desenvolva como ser integral, tanto nas questões acadêmicas, quanto nos valores de convivência. Quando percebemos um desajuste nesse ponto, buscamos o diálogo para levar ao entendimento e à conscientização sobre qual é a responsabilidade de cada um dos agentes nesse processo de educação global, pois quando um desses pilares enfraquece, há reflexos diretos no resultado do estudante”, considera a psicóloga Sandra De Nadai.

Mas, e na prática, como criar espaços para a discussão de temas que ajudem na formação ética e moral dos estudantes envolvendo toda família? Acompanhe no próximo post a segunda parte da reportagem!

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