a importância da família na escola parte 2

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A importância da parceria escola-família na formação de valores (parte 2)8 min de leitura

Todas as relações humanas são permeadas por valores universais. O aprendizado e o exercício desses valores passam obrigatoriamente pela escola, tendo em vista que ela é uma instituição social de frequência obrigatória, onde as crianças são inseridas no coletivo. Desde 2014, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), por exemplo, chama a atenção para a importância do aprendizado de valores, visando uma formação mais holística e plena dos estudantes. A entidade afirma que as escolas devem estar aptas a transferir ensinamentos que colaborem com a construção de cidadãos responsáveis, dizendo ainda que esse tipo de educação é tão prioritária quanto a tradicional, já que os alunos de hoje serão os responsáveis pelas decisões do amanhã.

Desta forma, as instituições de ensino estão cada vez mais atentas para trabalhar as questões morais no seu currículo, agindo em parceria com as famílias na promoção de alunos mais preparados para agir e transformar o mundo.

Neste caminho, grande parte das instituições de ensino têm optado por atuar no desenvolvimento de virtudes de maneira transversal, ou seja, aproveitando cada tema ou situação vivenciada na rotina dos alunos como oportunidade de ajudá-los na formação de valores. Uma das estratégias mais usadas, neste sentido, é propor dilemas em sala de aula e abrir o debate, provocando a reflexão e estimulando o pensamento crítico dos estudantes. “Todo conteúdo ensinado na escola foram vivências, foram contextos sociais. Eles não deixaram de estar permeados pelas relações humanas o tempo todo. Então não tem como você contar um fato histórico sem dizer como eram as relações humanas naquela época e contextualizar com a realidade de vivemos hoje. Você já está trabalhando aí os valores e princípios”, observa Dioneia Menin da Silva Oliveira, coordenadora pedagógica de Educação Infantil e Ensino Fundamental I do Colégio Albert Sabin (SP).

Como exemplo, ela cita a abordagem que a escola faz quando introduz para os alunos o clássico livro “Moby Dick”, de Herman Melville. Trabalhado na aula de Português do 5º ano do Ensino Fundamental, os estudantes discutem, por exemplo, a mudança na forma como o animal era visto no século passado – quando a obra foi escrita – comparando com os tempos atuais. “É um exemplo muito pontual, de como as pessoas lidavam com a baleia na época que era vista como um monstro do mar que as ameaçavam, que precisava ser caçada. Já hoje, lidamos com a baleia que precisa ser preservada, que corre risco de extinção. Esse é um contexto onde estamos trabalhando valores”, narra.

 

Trabalhando na prática

No Colégio Nahim Ahmad, de Guarulhos (SP), os valores também são trabalhados de maneira interdisciplinar, com uma ênfase especial na postura dos educadores, que são aconselhados a serem parâmetros para os alunos das virtudes ensinadas.

“Orientamos aos professores que incluam as discussões dos valores nos planejamento das aulas e dos projetos, e que se sejam eles, também, referência de tais condutas em suas atitudes”, conta a mantenedora, Aline Ahmad.  

Patrícia Serra de Zoppi, orientadora pedagógica do Ensino Fundamental II, diz que no Colégio, a preocupação em trabalhar o convívio saudável e o respeito entre os estudantes vai além, e começa já no minuto de silêncio que inicia cada dia de aula em todas as turmas. “É o momento da reflexão, de diminuir o pensamento acelerado, de trazer as atenções para aquele momento”, explica.

Para praticar o aprendizado de virtudes, o Ahmad também incentiva também o voluntariado e a solidariedade, através de campanhas sociais de arrecadação e de visitas às entidades filantrópicas. Recentemente, ao trabalhar poesia na disciplina de Português, por exemplo, os alunos do Ensino Médio tiveram a iniciativa de escrever suas próprias poesias e distribuí-las nas ruas, como forma de espalhar o amor. “Muitos deles se emocionaram. E dentro de tantos casos, uma menina me disse que nunca mais ia negar receber um panfleto na rua, porque o dela havia sido rejeitado três vezes e ela se sentiu muito mal com aquilo. A gente procura desenvolver esses projetos para plantar aquela sementinha do bem, do amor, do respeito. Pequenos projetos assim se tornam grandes”, conta.

 

Institucionalizando o tema

Além do trabalho indireto de valores dentro da grade curricular, algumas escolas optam por criar espaços específicos para a discussão de temas que trabalhem o desenvolvimento moral. O próprio Nahim Ahmad, por exemplo, implantou no Ensino Fundamental uma disciplina chamada “Habilidades Socioemocionais”, onde as questões de convivência e os temas sociais são discutidas pelos alunos em uma sala que foi batizada de “Sala de Inteligência Emocional”.

Nesse espaço, a ideia foi criar um ambiente que não se parecesse com uma sala de aula tradicional. As carteiras foram substituídas por almofadas para que os alunos, sentados no chão, pudessem ficar mais à vontade para falarem de si, de suas emoções e contarem experiências pessoais sobre cada assunto abordado.

“O retorno é muito positivo. Eles conseguem lá mais liberdade para se expressar melhor”, afirma Patrícia.

 

Formando pais e professores

Para ajudar os educadores a trabalharem temas ligados à educação de virtudes, o Gepem (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral) – composto por pesquisadores de diferentes universidades como USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) -, desenvolvem programas de implantação de procedimentos em “Educação Moral” por meio de assessorias e cursos nas redes públicas e particulares de ensino. O “Somos Contra o Bullying”, por exemplo, é um dos projetos implantados nas escolas para resolução dos problemas de convivência.

O Gepem também atua na capacitação das famílias para o ensino de valores, através do programa “Formando pais: a educação daqueles que educam” – um curso de 20h, que discute sobre as diferentes formas de educação no núcleo familiar (autoritária, elucidativa, afetiva, entre outras) e suas consequências na formação da personalidade da criança. “O objetivo é não ensinar, mas refletir na educação que oferecem para construção de valores, acompanhar de perto os filhos, estabelecer limites. Se a escola abre o espaço para que os pais busquem essa formação, eles agradecem. Muitas vezes quando eles vão para um trabalho que não julga, não culpa, mas que acolhe e oferece outras possibilidades, eles querem voltar e isso faz toda a diferença”, comenta psicopedagoga Sandra Cristina Trambaiolli De Nadai, que participa desse projeto.

 

Inteligência Emocional

O Colégio Pilares, de Santa Bárbara d’Oeste (SP), trabalha os valores da Educação Infantil ao Ensino Médio, dentro do programa “Escola da Inteligência”. Idealizado pelo médico psiquiatra, professor e escritor Augusto Cury, o objetivo do método é implementar uma cultura para o desenvolvimento da inteligência emocional e da saúde psicossocial, colaborando para construir relações saudáveis dentro e fora da escola. “Antes de implantarmos o programa, há dois anos já tínhamos muito forte um trabalho com valores. Mas ele veio a somar muito no trabalho com alunos, família e equipe escolar no sentido da formação sociemocional”, conta Heliana Battaglia Beltrame, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental II e Médio.

Os alunos têm uma aula do programa por semana, onde são trabalhados virtudes universais tais como respeito, honestidade, sinceridade, gratidão, cidadania, entre outras, voltadas para criar uma atmosfera de harmonia na convivência coletiva.

“A gente acredita que trabalhando esses valores, criamos na escola um bom ambiente para aprendizagem”, observa Heliana.

Já no Sistema Anglo de Ensino, o trabalho de virtudes é feito através do programa Olem (O Líder em Mim). Desenvolvido com os alunos do Ensino Fundamental, o programa trabalha diferentes hábitos de boa convivência buscando o desenvolvimento das competências socioemocionais. A mudança comportamental acaba tendo impacto em toda comunidade escolar (equipe, professores, alunos e famílias), levando, inclusive, ao aumento do rendimento acadêmico, na medida que diminui os conflitos escola-família e os problemas de comportamento dos estudantes.

“A nossa grande preocupação é fazê-los entender, desde pequenos, que existe um grupo ao qual eles passam a pertencer, onde tem pessoas diferentes, que é o grupo escolar. Esse cuidado de tratar as diferenças é aplicado diariamente em sala de aula. Com o Olem, temos os nossos combinados com os alunos, que são as regras de convivência. E como fazem parte da rotina, eles acabam incorporando. E o tempo todo os valores estão inseridos. A ambientação e os projetos  são todos em cima de valores”, explica a coordenadora pedagógica do Anglo Itu (SP), Rosane Fruet de Moraes. “É como uma pirâmide: nosso papel é mais importante na formação de valores na educação infantil. No Ensino Médio, quando esses valores já estão incorporados, nossas preocupações podem diminuir”, observa.

A cada começo de ano, os pais são chamados para um evento na escola onde são demonstradas as diretrizes do programa. Já o acompanhamento do envolvimento das famílias é feito semanalmente, através de um caderno de atividades que as crianças levam para casa.

 

E na sua instituição de ensino? Como vocês trabalham a formação de valores e virtudes em parceria com as famílias? Compartilhe conosco sua experiência.

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