Rodas de conversa na escola: como incorporar essa estratégia na rotina da escola?
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Rodas de conversa na escola: como incorporar essa estratégia na rotina da escola?

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Permitir que os alunos opinem e aprendam com os colegas ao invés de apenas escutar o que os professores ensinam. Essa é uma das propostas das rodas de conversa na escola, uma metodologia que possibilita envolver os estudantes, desenvolvendo maior autonomia e coletividade.

Mas, afinal, o que são rodas de conversa na escola?

De acordo com professora de língua portuguesa na educação básica Mônica de Queiroz Valente da Silva, que também é assessora pedagógica e administra o perfil @percursus_educa no Instagram, trata-se de eventos comunicativos que se caracterizam pelo dialogismo entre os participantes, os quais têm a liberdade de se expressarem em um ambiente de acolhida respeitosa.

“Nas rodas de conversa, temos a oportunidade de tratar de temas complexos, manifestando nossas subjetividades. Essas diferentes falas produzidas durante esse tipo de interação são mediadas por um participante sensível e atento, a fim de que se garanta a vocalização de todos os envolvidos e haja maior compreensão sobre o assunto tratado”, explica.

Ao planejar implantar o projeto roda de conversa na escola, é importante ter em mente que os alunos precisam estar confortáveis e sintam-se pertencentes ao grupo, pois é um momento de inclusão, motivação e encorajamento dos alunos.

“A roda de conversa é um espaço de diálogo, onde a disposição do grupo em forma de círculo, faz com que todos possam se ver. Isso possibilita o aprendizado em conjunto e faz com que todos estejam em pé de igualdade, podendo contribuir com sua opinião”, completa o psicólogo Lucas Reis, que é coordenador do integral do Certus Colégio Regular e Integral, localizado na capital paulista.

 

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A importância da roda de conversa no desenvolvimento dos alunos

Dentro do cotidiano do espaço escolar, a professora Mônica de Queiroz Valente da Silva afirma que a roda de conversa é uma técnica que prestigia a abordagem dialógica, ampliando a comunicação entre os sujeitos do processo de ensino-aprendizagem e promovendo, de maneira dialética, o conhecimento sobre um determinado tema. 

“Equivale dizer que, sendo dialogal, a roda de conversa confere aos envolvidos a oportunidade de reconstruírem suas concepções e/ou percepções sobre o tema discutido, o que é essencial na elaboração do conhecimento. Essa dinâmica pode garantir maior participação dos alunos, pois eles se tornam protagonistas de narrativas singulares e contextualizadas”, pontua.

A educadora acredita que o próprio espaço escolar tende a se revitalizar por meio desse movimento dinâmico, tornando-o menos excludente, uma vez que as vozes antes silenciadas por práticas mais hegemônicas na sala de aula – como a aula meramente expositiva – podem ser ouvidas. 

“Quando os alunos são provocados a se expressar, também se veem na condição necessária de serem ouvintes. Considerando a ideia de que esperamos alcançar uma sociedade mais democrática por meio da educação, as rodas de conversa nos oferecem essa oportunidade, pelo diálogo, de nos humanizarmos frente às necessidades uns dos outros, aprendendo a nos relacionar e a conviver”, explica. 

Vale lembrar que a própria BNCC (Base Nacional Comum Curricular)  destaca as competências gerais, enfatizando a questão do desenvolvimento das habilidades socioemocionais na aprendizagem. 

“É muito comum falarmos sobre sentimentos como felicidade, raiva e medo. As rodas de conversas possibilitam os estudantes a elaborarem questões que muitas vezes são novas para eles. Isso viabiliza uma reflexão sobre uma determinada situação, sobre si e sobre o outro. Desenvolve a autonomia, a coletividade e faz com que os estudantes sejam mais críticos e tenham a segurança de se colocar”, acrescenta Lucas Reis, que é coordenador do ensino integral do Certus Colégio Regular e Integral.

Por que é importante a escola abrir espaço para o diálogo?

O projeto de roda de conversa deve ser pensado como uma prática que vai além da aprendizagem de conteúdo. É uma oportunidade para os alunos desenvolverem autonomia, serem protagonistas e entenderem que todos são importantes e têm a sua vez de participar. A partir desse cenário, a troca de experiências revela-se com um dos maiores benefícios dessa metodologia, já que possibilita discussões, conversas e momentos de apoio.

“Talvez o maior desafio que enfrentamos na sociedade atual seja o de convivermos uns com os outros. Quando revisitamos o pensamento do filósofo francês Edgar Morin sobre o papel da escola neste contexto, por exemplo, vemos que é urgente que o paradigma educacional vigente seja superado. Para isso, precisamos nos pautar por uma ‘ética para a convivência’.  Morin defende que a escola necessita abraçar uma abordagem progressista. Isto significa dizer que professores e alunos precisam ser envolvidos em posturas transformadoras, comprometidas com as diferentes etapas de uma metodologia que se mostre colaborativa, reflexiva, crítica e dialógica”, enfatiza a professora de língua portuguesa na educação básica Mônica de Queiroz Valente da Silva.

Como trazer essa estratégia no ensino infantil e fundamental?

Antes de planejar implantar essa estratégia na sua escola, a educadora Mônica de Queiroz Valente da Silva ressalta que é imprescindível ter a consciência de que o ato educativo precisa ter intencionalidade pedagógica. “Isso aponta para a reflexão permanente sobre o emprego de técnicas, de métodos, de modos de avaliar e tudo o mais que diga respeito ao processo de ensino-aprendizagem”, afirma.

Segundo a professora, a roda de conversa pode funcionar como uma opção metodológica em qualquer etapa de formação acadêmica. Mônica pontua que, no caso da Educação Básica, as Referências Curriculares Nacionais para a Educação Infantil já destacavam a importância dessa técnica para o desenvolvimento da criança. Isso se dá pelo fato de o trabalho pedagógico mobilizar categorias como autonomia e imaginação, levando em consideração que, especialmente nessa etapa de formação, as atividades priorizam o trabalho coletivo. 

“Da mesma maneira, quando observamos a  Base Nacional Comum Curricular, verificamos o quanto a roda de conversa dialoga com as proposições desse documento, as quais fundamentam o trabalho docente a partir dos eixos da brincadeira e da ludicidade”, acrescenta.

Assim as crianças vivenciam os direitos de aprendizagem e desenvolvimento e o campo de experiência, envolvendo as questões como o eu, o outro e o nós. “De igual modo, na etapa do Ensino Fundamental – tanto nos anos iniciais, como nos anos finais -, a roda de conversa mobiliza a continuidade do desenvolvimento integral do aluno, o que é preconizado pela BNCC, que orienta que a prática pedagógica se organize em torno da interdisciplinaridade e da contextualização nesta etapa formativa”, pondera.

Como a roda de conversa é uma abordagem essencialmente dialógica, é possível que as diferentes áreas de conhecimento a utilizem, desenvolvendo suas competências específicas, segundo seus componentes curriculares.

“A área de Linguagens, a de Ciências da Natureza e de Ensino Religioso, por exemplo, podem se articular promovendo uma roda de conversa em torno de um tema complexo, como o da Evolução. Assim, os alunos podem se manifestar a respeito disso e essas manifestações subjetivas revelarão os saberes que eles trazem em termos de crenças pessoais”, explica. 

Ao professor, cabe a atuação como um mediador, que é capaz de ouvir, acolher, compreender e reencaminhar as questões em favor dos objetivos da aprendizagem.

“É importante o professor fazer um planejamento do conteúdo que será discutido em roda e estabelecer as regras com o grupo, levando em consideração a faixa etária dos estudantes”, orienta Lucas Reis, que é coordenador do ensino integral do Certus Colégio Regular e Integral.

Roda de conversa como estratégia para incorporar na própria equipe

Para a professora de língua portuguesa na educação básica Mônica de Queiroz Valente da Silva, trabalhar com metodologias ativas, como é o caso da roda de conversa, implica mudança de posturas do profissional de educação, tanto para o docente quanto para a gestão. 

“No cenário de transição paradigmática educacional que vivenciamos, é fundamental que reavaliemos nossa postura como professores e gestores, porque se, como afirma Paulo Freire, somos seres permanentemente inacabados, precisamos estar abertos às mudanças”, afirma.

De acordo com a educadora, quando a escola pretende adotar a roda de conversa como estratégia didático-pedagógica, é preciso saber que esse processo envolve princípios fundamentais de escuta e de diálogo.

“E não se trata de oportunizar ‘conversas fiadas’, mas de compreender que a manifestação subjetiva, se por um lado auxilia na expressão das emoções e sentimentos, também promove o desenvolvimento cognitivo crítico”, ressalta.

Mônica acredita que, antes de ser aplicada com os alunos, é interessante que a roda de conversa seja uma prática recorrente junto ao cotidiano do próprio corpo docente, da gestão escolar e dos demais funcionários.

“Ouvir as experiências anteriores dos envolvidos e dar-lhes autonomia na construção desse novo percurso metodológico pode ser muito gratificante. Ao lembrarmos que a roda de conversa se caracteriza por ser uma opção metodológica dialética, certamente as contribuições dos diferentes sujeitos servirão para identificar as principais dificuldades encontradas pelo grupo e redefinir a missão da escola, mobilizando as ações necessárias para consolidar práticas de ensino-aprendizagem mais significativas”, completa.

Segundo o coordenador Lucas Reis, que atua no Certus Colégio Regular e Integral, uma das filosofias seguidas pela escola é a de que o diálogo é capaz de conectar as pessoas. Sendo assim, o colégio acredita na importância de abrir espaços de diálogo dentro de qualquer empresa, com o objetivo de aproximar a equipe.

“Não só as rodas de conversa, mas outras estratégias podem ajudar, como feedbacks pontuais, reuniões mensais, ou até tirar alguns minutos para tomar um café com os colaboradores. Com essas práticas, se estreitam as relações, criando assim, um ambiente com menos tensão, mais humor, onde as pessoas saibam exatamente o que a empresa espera delas”, ressalta.

Professoras estruturam rodas de conversas virtuais durante a pandemia

Adeptas dos benefícios da metodologia da roda de conversa, duas professoras do interior de São Paulo estruturaram um projeto para que fosse possível aplicar essa ferramenta, mesmo durante a pandemia e com as aulas remotas.

A ideia partiu da professora Nayra Vido, que leciona em Limeira, e convidou a também educadora Carol Gallani, que dá aulas em Artur Nogueira. No segundo semestre de 2020, a cada 15 dias, as professoras e os estudantes das duas escolas participaram de rodas de conversa. Os próprios alunos escolhiam as temática, que eram variadas.

Mesmo virtualmente, o objetivo das profissionais era criar um espaço para que os estudantes pudessem interagir e fortalecer o senso crítico diante dos temas propostos. Nesses momentos, o grupo debateu sobre bullying, transmissão e prevenção do coronavírus e fake news, além de indicação de livros.

“A ideia é fazer esse momento descontraído para aliviar o peso do confinamento e o bombardeio de informações a todo instante. Falar de assuntos que eles gostam, deixar o assunto dentro do universo deles é uma estratégia para aumentar o engajamento nas rodas”, destaca a professora Carol. 

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