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Como atrair e motivar talentos na área educacional?

No estado do Mato Grosso, o caso de um pai que preferiu balizar a escolha do colégio para matricular a filha conforme a remuneração paga aos professores, tornou-se emblemático e ganhou repercussão nacional pelas redes sociais ao fomentar o debate sobre as condições de trabalho dos docentes nas escolas particulares. Segundo seu relato, em uma das unidades visitadas, o questionamento sobre o valor pago pela hora/aula aos professores teria causado desconforto à diretora, que fazia uma apresentação detalhada de toda a estrutura da escola, quando percebeu que o ponto de maior interesse daquele pai não estava ligado às aulas extracurriculares, nem aos recursos tecnológicos, tampouco ao sofisticado material didático.

Com mais de 530 compartilhamentos no Twitter, o caso está longe de ser pontual. Uma pesquisa inédita realizada pela ClassApp envolvendo 27 mil pais de alunos do ensino médio, fundamental e básico de escolas particulares de todo o país mostra que, para a maioria dos entrevistados, o alto investimento na capacitação da equipe pedagógica tem maior relevância se comparado à estrutura e tecnologia da escola. Em complemento, o mesmo estudo mostra que a falta de capacitação dos professores é o maior motivo de desgaste na relação dos pais com a escola, citado por 56% dos entrevistados.

 

Quer saber quais diferenciais os pais mais valorizam em uma escola? Confira a pesquisa completa e aproveite para saber quais são os pontos que geram mais desgaste na relação escola-família nesse outro post.

 

Tendo em vista que são os professores que estão em contato direto e diário com os estudantes, é natural que os pais se sintam inseguros quando sabem que a remuneração deles é baixa ou quando falta capacitação à equipe de docentes. Como consequência, esse se torna um dos maiores desafios das escolas, afinal, com professores desmotivados, os obstáculos para manter a competitividade são maiores e podem levar à alta rotatividade desses profissionais – o que compromete o projeto pedagógico, afeta a aprendizagem dos alunos e pode minar a confiança dos pais. Mas quais seriam, então, as melhores estratégias para atrair, manter e motivar a equipe pedagógica?

 

Remuneração e reconhecimento constante

Durante painel no congresso “ClassUP – Escolas Exponenciais”, Miguel Thompson, diretor executivo do Instituto Singularidades – especialista na formação continuada de docentes -, destacou que para atrair e reter talentos na área educacional, algumas premissas devem ser respeitadas. Entre elas, oferecer boas condições de trabalho, ter um projeto de ordem pedagógica claro, reconhecer constantemente os esforços e ter uma remuneração atrativa.

Ele ressalta que, a exemplo do caso citado acima, os pais pagam pelo serviço educacional esperando por qualidade e o bom professor é quem realmente pode oferecer esse atributo.

“O principal agente de formação da escola é o professor. Muitas escolas preferem investir em estruturas físicas ou tecnológicas entendendo que esse é um grande valor agregado, que pode ser notado pelos pais. No entanto, depois de um tempo, as famílias mais atentas sabem identificar se o serviço prometido está sendo ofertado”, apontou.

 

Clareza no plano pedagógico

Oferecer uma proposta pedagógica consistente é outro passo importante para que os professores se sintam motivados a permanecer na escola. Ter clareza e saber informar e avaliar os docentes por meio de diretrizes pré-estabelecidas como, por exemplo, pelo foco na preparação para o vestibular ou pela elaboração de projetos, torna o plano pedagógico mais palpável, evita conflitos por questões não esclarecidas e direciona a escola para a rota do desenvolvimento.

“Se a escola não tem clareza sobre o que quer, não tem crescimento”, defende Thompson.

Encontrar formas de reconhecer os melhores profissionais, investir em formá-los como líderes e estimular o desenvolvimento de competências de alta performance em toda a comunidade docente são outras medidas de capacitação que contribuem para a motivação dos talentos e que podem ser comunicadas aos pais que anseiam pela qualificação das equipes.

 

O que os pais entendem por capacitação

De acordo com Thompson, quando apontam a relevância da capacitação dos professores, os pais esperam por uma formação que misture teoria e prática e que gere uma constante reflexão sobre o fazer docente, de forma que os professores se sintam inseridos em um projeto participativo e de longo prazo. A escola, por outro lado, espera que os professores venham formados e com experiência do mercado. Porém, conforme afirma o especialista, há uma quebra de expectativas nesse quesito, já que grande parte das faculdades de licenciatura dá pouca atenção para uma formação prática. “O profissional se forma quando já está dando aula, longe de uma orientação acadêmica adequada”, pontuou.

Para ele, as escolas que buscam combater a lacuna gerada com a falta de capacitação de professores devem manter-se vigilantes à formação não apenas no aspecto técnico, mas sobretudo observando o cenário sociocultural da atualidade.

“É preciso formar professores com metodologias ativas, com bom repertório, cultura e atentos a inovações. Por outro lado, é preciso também estudar constantemente as tendências socioculturais, analisando comportamentos e cenários para que os professores tenham competências e habilidades necessárias para lidar com situações da contemporaneidade e do futuro”, detalhou.

 

Caminhos para combater o turnover

O reconhecimento continuado do trabalho e das ações promovidas pelos professores pode ser também a solução para o problema da rotatividade, que compromete a manutenção da cultura e de uma estratégia de longo prazo para a escola, ressalta Thompson.

“Toda e qualquer ação de formação do profissional ou de estabelecimento de um projeto maduro se perde quando o profissional deixa a instituição. Saber contratar, formar e manter um profissional que entenda a estratégia da escola é fundamental”, destacou.

Adotar uma política de boas-vindas aos professores recém-chegados, ouvir atentamente suas experiências e oferecer um padrinho que possa orientá-lo com mais detalhes sobre a política da escola são iniciativas que contribuem para que o profissional se sinta rapidamente inserido no contexto do colégio.

Registrar atividades realizadas em sala de aula e compartilhá-las com os pais, por meio dos canais de comunicação da escola, são outras ações de valorização que, segundo Thompson, além de facilitarem a conexão e promoverem um clima saudável, aproximam a escola dos pais e auxiliam na construção da identidade da instituição.

Para combater o “turnover”, o Colégio Magno, de São Paulo, trabalha há 6 anos com foco especial na capacitação de professores. Com treinamentos constantes em diferentes segmentos, os reflexos na queda da rotatividade já são sentidos pela escola, segundo o diretor administrativo, Maurício Tricate.

“O nível de nossos profissionais subiu muito, a rotatividade caiu bastante e o envolvimento de todos com a escola melhorou significativamente. Esse é o segundo ano que não utilizo todo o orçamento previsto para homologações. Em 2016 sobrou 21% do orçado, e 2017 (com números calculados sobre os valores de 2016) 6%”, comentou.

De acordo com Tricate, hoje a verba voltada à capacitação de professores ocupa o terceiro lugar na lista de investimentos da escola. Ele conta que antes os recursos eram distribuídos confiando-se no feeling das chefias, sem critérios definidos. Nos últimos anos, porém, as lideranças são orientadas a eleger habilidades necessárias frente às novas exigências do mercado, a classificar seu pessoal com relação a essas habilidades e assim, escolher os cursos e treinamentos mais eficientes.

 

Escolha do profissional e comunicação com os pais

Para o diretor, os cuidados para manter a equipe motivada e para reter talentos se tornam mais fáceis se, quem recruta esses profissionais, já esteja atento ao perfil do docente desejado, desde o momento da seleção. No colégio onde trabalha, Tricate conta que a busca é sempre por professores que tenham o DNA da escola, de forma que sejam mais facilmente incorporados aos valores da instituição.

Uma vez contratado, o professor é treinado para utilizar as ferramentas de interação com as famílias disponíveis no colégio, iniciando assim, aquele importante processo de diálogo com os pais, defendido por Miguel Thompson.

 

Formação para todos os colaboradores

Para manter elevada a avaliação que pais e alunos fazem do colégio, outra estratégia é estender a formação continuada para toda sua equipe de colaboradores, não apenas ao corpo docente.

No Magno, Tricate cita como exemplo que, atualmente, cerca de 200 funcionários (quase 50% do total de colaboradores) frequentam as aulas do curso de inglês oferecidas gratuitamente. A capacitação para utilização de novas tecnologias é também outro destaque de exemplo de sucesso, no qual grande parte dos funcionários está matriculada.

“Poucas coisas dão mais prazer a um administrador escolar do que lançar um curso para utilização de linguagem de programação em sala de aula com 20 vagas e ter 82 professores inscritos. Poucas atitudes trazem mais esperança na possibilidade de um futuro mais justo do que ver seu jardineiro sendo aprovado para o nível 3 do inglês. Poucas ações demonstram tanto envolvimento de seus colaboradores do que ter 76 inscritos para 22 vagas em uma pós-graduação em psicopedagogia. Tanto prazer, tanta esperança em um futuro melhor e tanto envolvimento merecem nossa contrapartida e é por isso que temos a obrigação de seguir nesse caminho”, avaliou.

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