6 min de leitura

Não há quem duvide, 2020 será lembrado como um ano de grandes transformações! O advento da pandemia causou impactos sociais, econômicos e emocionais em todo o mundo, mas, ao mesmo tempo, acelerou a transformação digital em diversos setores e reconfigurou o modo de ensinar e aprender nas escolas.

Na verdade, essa transformação digital já estava em curso. Isso porque, a passagem do século XX para o XXI foi marcada, principalmente, pelos impactos da tecnologia e toda sua mutabilidade. Eliana El Badouy, publicitária, professora e especialista de inteligência de mídia e insights do consumidor, explica como essa transição aconteceu:

“Eu saio da linearidade para a exponencialidade, eu saio daquela estabilidade conclusiva para uma instabilidade incerta, eu venho daquilo que é totalmente previsível para o imprevisível, que eu não consigo dimensionar impacto”.

Ainda de acordo com a especialista, essa exponencialidade foi atribuída em grande parte aos avanços da tecnologia, contudo, seus efeitos não foram uniformes. Se repararmos, modelos de negócios fundamentados na tecnologia, como Waze, Spotify, Netflix, são relativamente novos, com menos de 14 anos.

Por outro lado, a tecnologia ainda é uma barreira em muitas escolas, e o celular, por exemplo, ainda é visto como uma ameaça, não como uma ferramenta pedagógica e capaz de potencializar o ensino. Então, todo esse atraso, tanto em termos acesso à tecnologia quanto de mentalidade, fez que muitas oportunidades fossem desperdiçadas.

“As empresas conseguem se adaptar mais rapidamente por essas demandas oferecidas pela tecnologia, que mudaram o comportamento das pessoas, e a educação vem lá atrás, bem atrás, uma dificuldade muito grande de acompanhar todo esse processo evolutivo […] a gente tem uma sequência de atividades e profissões que vão caindo do limbo, e outras que vão demandando mentes e talentos que não tem preparo para isso”, comenta Eliana.

 

Leia também:
Tecnologia e inovação na educação: estratégias para o desenvolvimento de competências do século XXI

 

Phygital, empowerment, nanodegrees e outras tendências.

Novamente, quando se fala em transformação digital nas escolas, em muitos casos, essa foi uma mudança compulsória. Isso porque, a migração do presencial para o remoto, literalmente, foi de um dia para o outro.

Isso deixa claro que são nos períodos de crise, principalmente, que acontecem grandes mudanças, e no caso da pandemia, não foi apenas uma mudança no espaço físico, mas também de processos, comportamentos e valores.

Pensando já no futuro, mesmo que incerto, prevê-se o ensino híbrido como uma tendência nos próximos anos. Esta também é uma oportunidade de se apropriar das inovações lançadas por outros setores e transformar a educação para sempre, a começar pelo entendimento do phygital – a união de experiências de átomos e bits. 

“Ele (o phygital) compreende a mistura, a convergência do mundo físico com o mundo virtual. Então, não vai existir mais motivo para ter barreira que separe esses dois mundos, então, o phygital é esse momento em que o físico e o digital se encontram, e isso gera uma possibilidade enorme de gerar boas experiências e engajamentos juntos aos nossos alunos”, afirma Eliana.

Para o phygital não torna-se apenas mais um estrangeirismo, sem aplicabilidade na rotina escolar, é necessário trazer eficiência para o processo de aprendizagem e tornar essa aprendizagem mais significativa para a vida dos estudantes. Mas como fazer isso? As possibilidades são várias, veja abaixo alguns insights trazidos pela especialista. 

 

Working and learning anywhere

“Trabalhar e aprender em qualquer lugar. Hoje a gente tem feito isso meio entediado por conta da intermediação de uma tela, mas existem tecnologias hápticas que vão ganhar uma atração significativa a partir do final desse ano, capacitando as empresas e as escolas a oferecerem, acredite se quiser, experiências táteis dentro de ambientes virtuais”.

“O que eu estou falando é de mixed reality, ou seja, realidade mexida, onde eu tenho realidade aumentada e realidade virtual, simulando a interação física dentro de um cenário audiovisual”.

 

Empowerment

“A questão do Empowerment, do empoderamento, deixa o aluno na liderança, o aluno é o protagonista. Mas esse protagonismo tem uma perspectiva de aprendizado, em que ele, de alguma forma, tem uma perspectiva de colaboração com o colega”.

 

Nanodegrees

“Nanodegrees são pílulas de conhecimento […] uma perspectiva da inclusão de conteúdos que não são, necessariamente, os conteúdos padrão da base nacional curricular. São matérias não sequenciais, de construção de trilhas de formação e de conhecimento que sejam personalizadas, em alguns casos, as trilhas podem ser discutidas junto aos alunos e as famílias”.

 

É hora de formar os profissionais do futuro

Outra questão que reforça a necessidade da educação acompanhar as inovações tecnológicas é a nova dinâmica de mercado. Com o passar dos anos, algumas profissões deixarão de existir, por outro lado, estima-se que 85% das ocupações de 2030 ainda não foram criadas. 

Logo, novas habilidades e competências passarão a ser exigidas para esses profissionais do futuro. As chamadas soft skills (competências comportamentais) a cada dia que passa têm ganhado mais relevância do que as tradicionais hard skills (competências técnicas). 

“O mercado de trabalho vai selecionar e contratar profissionais por competências, independentemente de onde e como elas foram desenvolvidas” alerta Eliana, que também lista as principais soft skills já exigidas pelo mercado de trabalho, de acordo com o Fórum Econômico Mundial:

  • Pensamento analítico e inovador; 
  • Flexibilidade cognitiva e aprendizagem ativa;
  • Criatividade, originalidade e iniciativa; 
  • Pensamento crítico e analítico; 
  • Resolução de problemas complexos; 
  • Liderança e influencia social;
  • Inteligência emocional.

Mas para que qualquer mudança proposta seja efetiva, os estudantes precisam ser estimulados a pensarem por conta própria. Isso se alcança, por exemplo, através do estímulo à criatividade e incentivo à cultura do erro como forma de aprendizado. 

“Quando a gente tem o erro como processo de punição, a gente fica com medo de errar, e se a gente tem medo de errar, não criamos nada de novo, então, a gente precisa experimentar mais do que mostrar […] eles (os jovens) estão com medo de correr risco, porque tem medo de fracassar, e a gente precisa estimular a coragem de correr risco, de experimentar, porque é daí que nasce o potencial criativo deles”, pontua Eliana.

 

Leia também:
Aprendizagem colaborativa e ensino a distância – tendências da educação

Comentários