5 min de leitura

Tudo indicava que 2020 seria o melhor ano da educação infantil em décadas. O país estava passando por um processo de recuperação da economia após sair de uma crise duradoura e número de matrículas na primeira etapa da educação básica só crescia; o aumento foi de 28% entre 2010 e 2015 e 19,8% nos últimos cinco anos. Mas então veio a pandemia.

Esse segmento foi bastante afetado em função das suas especificidades. “A educação infantil, obviamente, requer a interação do aluno com outro aluno, do aluno com o educador; a convivência no dia a dia; a questão do afeto e do cuidar”, explica Frederico Venturini, pedagogo e vice-presidente da Associação Brasileira de Educação Infantil (Asbrei).

Se reinventar foi preciso. Mas de acordo com a análise de Frederico, apesar das dificuldades, a maioria das escolas infantis conseguiram implementar estratégias para dar continuidade às atividades pedagógicas. As redes sociais e os sites institucionais, por exemplo, foram e ainda são as principais ferramentas utilizadas.

Paralelamente, os gestores e mantenedores foram forçados a tomar decisões emergenciais, muitas delas inéditas: investimento em plataformas, adoção de protocolos sanitários, captação de recursos financeiros e capacitação dos professores em tecnologias.

Agora, passado um ano da adoção do ensino emergencial remoto, o que esperar da educação infantil 2021? Quais as tendências? Como se preparar para a retomada das aulas? 

Antes de responder a essas perguntas, é necessário analisar os reflexos da pandemia ano passado e que vão se estender para este ano. Apesar do esforço hercúleo das escolas, o inevitável aconteceu e muitos pais optaram por retirar as crianças da creche e pré-escola.

De acordo com o vice-presidente da Asbrei, cerca de 2/3 das matrículas da educação infantil foram perdidas. Houveram também muitas demissões, com o aumento da inadimplência, descontos na mensalidade e perdas delas, infelizmente, muitas escolas não conseguiram manter seus funcionários.

Confira também:

O que dizem os médicos sobre a volta às aulas presenciais?

Não podemos negligenciar as perdas cognitivas

Considerando o ambiente estressor da COVID-19, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reconhece como fatores de riscos para crianças e adolescentes o confinamento social e a experiência coletiva da pandemia. O órgão ainda afirma que esse público é impactado de forma similar aos adultos, desenvolvendo problemas de sono, preocupação e irritabilidade. 

“O outro reflexo foram as crianças que desenvolveram uma série de síndromes, como síndrome de ansiedade e perdas cognitivas A gente vai ver o reflexo disso lá na frente, infelizmente, a sociedade vai pagar caro por este ano que as escolas ficaram fechadas”, alerta Frederico.

O estresse tóxico ao qual essas crianças e adolescentes estão sendo expostos faz com que hormônios estressores, como o cortisol, sejam liberados em excesso. Como consequência, a arquitetura cerebral pode ser afetada; caso a alteração seja na área da memória, por exemplo, a criança pode desenvolver um déficit de aprendizagem. 

Diante de todo esse cenário, o perfil do estudante de 2021 é completamente diferente daquele de 2020. Muitos deles retornaram para sala de aula assustados e ansiosos em função da longa permanência em casa. Para minimizar esses efeitos, o vice-presidente da Asbrei aconselha que as escolas desenvolvam um trabalho muito forte de acolhimento.

Existem ainda os alunos que durante o ensino remoto foram pouco estimulados e, por isso, futuramente terão mais dificuldades em acompanhar a turma. A dica de Frederico é que o educador desenvolva um olhar mais apurado para identificar esses alunos, sem promover nenhum tipo de segregação, claro, mas dando-lhes mais atenção.

As principais tendências educacionais para 2021

Dos 27 estados brasileiros, 16 voltaram às aulas em fevereiro e 10 em março, somente a Bahia não desenvolveu seu modelo de retorno; isso se tratando da rede pública de ensino. Contudo, a rede privada já havia se antecipado e em muitos estados o retorno aconteceu ainda em dezembro.

Mas o que as duas redes têm em comum é a adoção do ensino híbrido, identificado por Frederico como a principal tendência pedagógica. Contudo, para educação infantil a dinâmica tende a ser diferente, já que as atividades presenciais têm um peso maior.

Então, as escola desse segmento precisar ficar atentas a duas práticas: o desemparedamento da sala de aula, que consiste em dar uma aula no quintal da escola, no pátio da sua escola e realizar atividades físicas em espaços abertos, e o uso da tecnologia como ferramenta de apoio, a exemplo do Google Classroom.

A segunda tendência para 2021 está relacionada a fatores mercadológicos “Há 10-15 anos os grandes grupos vêm entrando no mercado de educação, começa a haver uma consolidação desse mercado, uma compra e fusão de algumas escolas. Então, na minha opinião, vai haver agora uma nova onda de investidores”, explica Frederico.

Ele ainda completa: “O investidor trata a escola como se fosse um ativo, trata os alunos como se fosse um ativo, os ativos agora estão com valores baixos por conta da crise. Então, com certeza a gente vai passar por uma onda de consolidação das escolas”. 

A terceira tendência, que pode ser encarada como oportunidade, são os diferenciais da educação infantil. Frederico destaca o ensino customizado com foco no aluno, o  “olho no olho do aluno e olho no olho das famílias” e a comunicação amigável e transparente com as famílias.

Por último, o vice-presidente da Asbrei dá uma dica para que os gestores possam reforçar a relação família- escola no ensino híbrido. “Você pode fazer, entre aspas, uma pedagogia invertida com as famílias. Passar atividades pelas ferramentas tecnológicas para que as famílias façam com seus filhos  […] isso está causando um fenômeno até interessante, que é uma participação maior dos pais no dia a dia escolar dos filhos com a utilização dessas ferramentas tecnológicas”.


Assista à palestra completa:

Perspectivas e Tendências para a Educação Infantil

Comentários