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Frente às mudanças na educação impostas pelas medidas em combate à disseminação do Coronavírus, muitos gestores se perguntam o que cada escola está fazendo para manter seus alunos engajados no estudo mesmo estando longe das salas de aula.  De fato, manter uma rotina produtiva de ensino em tempos de isolamento social é um dos maiores desafios na lista das urgências que passaram a fazer parte da educação brasileira e mundial hoje.

Por isso, o Escolas Exponenciais conversou com algumas instituições de ensino que estão tomando medidas criativas e proativas para driblar a suspensão das aulas presenciais. E, embora seja cedo para fazer um balanço profundo, ao que tudo indica, as ações têm alcançado resultados muito positivos. 

Você vai ver conhecer nessa série dicas de diretores de colégios de diversas partes do Brasil sobre plataformas, websites e aplicativos, além de conhecer opções ferramentas que existem no mercado, muitas delas gratuitas. 

É hora de compartilharmos informação, conhecimento e histórias inspiradoras para que o ensino das nossas crianças e jovens sofram o menor impacto possível.

 

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A experiência do Colégio Guaiaúna

“A nossa educação é voltada para desenvolver habilidades e competências nos alunos. Nós não nos preocupamos somente com a questão acadêmica. Nós ensinamos as disciplinas tradicionais, claro, mas queremos que os nossos alunos aprendam a ser autônomos, críticos, criativos, buscadores de soluções, corresponsáveis pelo processo de aprendizagem.”

A frase de Cristine Soares, mantenedora e diretora do Colégio Guaiaúna, em Vila Carrão, zona leste de São Paulo, resume porque a escola está tendo uma resposta tão positiva em tão pouco tempo de migração do ensino presencial para o ensino a distância, provocada pela pandemia de coronavírus. 

A escola, com 350 alunos da Educação Infantil ao Ensino Médio (ticket médio de 800 a 1.200 reais), faz parte do mapa de inovação e criatividade do Ministério da Educação e Cultura. O mapa foi lançado em 2015 pelo MEC, com o objetivo de destacar instituições com propostas arrojadas na Educação Básica.

“O feedback está sendo muito positivo. Os pais dos nossos alunos estão muito surpresos com a rapidez e com a forma com que a escola lidou com a situação. Nós montamos em dois dias o que chamamos de kit de sobrevivência pedagógica, com todo o material que os alunos precisariam para estudar em casa, pois os pais não teriam condições de sair para comprar material com tudo fechado,” diz Cristine. 

 

A importância da autonomia dos alunos

A escola espera que os alunos estejam em contato com as questões pedagógicas em torno de 3 horas por dia, entre assistir um vídeo, participar de uma videoconferência com professores, fazer atividades e aulas extras, como música e expressão corporal. Os alunos têm liberdade para escolher em que momento do dia vão estudar.

“Eu tenho o meu próprio exemplo em casa, com minhas duas filhas, uma de 9 anos e a outra de 12, que estudam na Guaiaúna. Elas ficam cada uma em seu quarto fazendo as aulas e não me pedem ajuda para nada. E isso com responsabilidade e qualidade. A metodologia da escola visa tornar os alunos muito autodidatas, a pesquisa na escola é muito incentivada e eles têm muito domínio disso.”

Cristine conta que decidiu fazer pedagogia porque já não concordava com o modelo de ensino tradicional, com a educação que, segundo ela, vem de cima, na qual a criança não tem participação.

“O Guaiaúna já foi pensado para ser um colégio inovador e democrático, no qual as crianças tem uma participação muito forte em todos os projetos que as envolvem, inclusive na organização da rotina, no tema dos projetos. A gente trabalha muito a autonomia e tem uma escuta ativa grande, para entender as expectativas dos alunos, dos pequenos aos maiores.”

 

A nova rotina criada pelo Colégio Guaiaúna

Para a educação infantil e Fundamental I, a escola trabalha prioritariamente com a plataforma de gestão de conteúdo educacional Google For Education/ Google Classroom e com o material Viva Metodologia, da Viva Tecnologia, que é uma startup que ajuda escolas a inovarem suas metodologias de ensino e processos pedagógicos. 

Na segunda-feira, a escola disponibiliza um semanário com tudo o que os alunos da Educação Infantil ao terceiro ano vão produzir na semana.

“Na segunda-feira é realizada uma vídeo conferência ao vivo com os alunos e normalmente nessa idade um responsável acompanha. É a chamada reunião de orientação. Na quarta-feira, existe outra reunião de acompanhamento e na sexta uma reunião de feedback,” explica Cristine.

Já os alunos a partir do quarto ano têm videoconferências ao vivo com a mesma carga horária que eles tinham na escola, inclusive com os intervalos. As turmas virtuais, assim como as presenciais, têm até 20 alunos. Durante o tempo em que os alunos realizam as atividades, o professor fica online, disponível via chat para tirar dúvidas.

“A gente foca muito mais na produção do conteúdo do que no consumo. Nós não usamos o formato leitura/exercício. Tudo tem que ter propósito e o aluno tem que saber porque está aprendendo aquilo. Isso é metodologia ativa e aumenta muito a motivação e o engajamento,“ explica a diretora da escola.

A comunicação do Colégio Gauiaúna com os pais é feita via agenda digital, e também pela plataforma do Viva Metodologia. 

Uma vez por semana, a escola disponibiliza uma psicóloga para atender pais e colaboradores que precisam de ajuda neste momento, de forma individual, via internet.

“É muito importante cuidar de quem cuida. Os pais estão estressados, por todas as questões que permeiam esta crise. A gente fala muito para eles não se cobrarem tanto neste momento: eles não são professores, não têm a nossa didática.”

 

O papel dos pais

Para Cristine é fundamental que os pais tentem criar um ambiente tranquilo em casa, para evitar desgastes. Para tranquilizá-los, ela diz que o plano da escola é fazer revisão de tudo o que vai ser trabalhado à distância, quando as aulas voltarem a ser presenciais. Segundo a diretora, a maior preocupação no longo prazo é com a parte física dos alunos e não com o ensino em si.

“O que mais me preocupa é a postura dos alunos, a forma como eles ficam sentados em casa, o fato de eles ficarem muito tempo em frente ao computador, a falta de atividade física, de movimento. Por isso a gente tem tentado dar muitas dicas, exercícios para ajudar nessa parte motora, física.”

 

Futuro

Em relação ao futuro, depois de ultrapassada a crise do Covid-19, a diretora do Colégio Guaiaúna acredita que vai haver uma disrupção, uma quebra de paradigmas muito importante. 

“A tecnologia teve que entrar de vez na escola e isso era uma barreira difícil de romper para muitos professores. Eu vejo também o lado positivo desta crise, não só dentro da escola mas na sociedade como um todo. Esta aproximação dos pais com as escolas é muito importante, os professores estão sendo mais valorizados. É um distanciamento que está trazendo mais proximidade. Os pais, que no dia a dia acabavam não participando tanto do processo pedagógico, agora estão muito mais presentes.”

Cristine conta que alguns pais achavam que brincar de massinha era só diversão, sem objetivo pedagógico, e que agora os próprios alunos pequenos explicam para eles que isso desenvolve a musculatura fina e que vai ser bom quando eles começarem a escrever.

“É preciso ter um olhar aberto, fazer uma reflexão sobre tudo isso. Vai ser muito importante. As escolas ainda estão muito imersas nas preocupações, em apagar o incêndio, mas é um bom momento de se aproximar das famílias, mostrar seu diferencial e valor,” conclui.

 

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