Brasileiros no exterior: como está o ensino neste momento na perspectiva das famílias?
Desafios Contemporâneos

Brasileiros no exterior: como está o ensino neste momento na perspectiva das famílias?

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Um ano após o início da pandemia, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) constatou que cerca da metade da população estudantil mundial ainda enfrenta interrupções em sua educação, que vão desde o fechamento de escolas até a redução dos horários acadêmicos. Em seu relatório, a agência ainda identificou que a duração das escolas fechadas varia muito entre as regiões; na América Latina, por exemplo, as escolas permaneceram fechadas por cerca de 5 meses e na Europa 2,5 meses. 

A resposta dos governos mundiais em relação à pandemia também variou bastante. Na cidade de Culemborg, província da Guéldria, na Holanda, o fechamento inicial das escolas durou seis semanas e as crianças continuaram seus estudos em casa, na modalidade homeschooling. Já em Austin, cidade do Texas, nos Estados Unidos, as escolas permaneceram fechadas por um período semelhante, mas os alunos tiveram acesso somente ao ensino remoto com aulas online.

No homeschooling, a educação das crianças é de responsabilidade da família e o ensino é realizado no ambiente doméstico, não em escolas. Apesar dessa modalidade de ensino ser regulada na Holanda e em outros países do mundo, diversas famílias encontraram percalços durante a pandemia, como foi o caso de Marina Incerpi Isola Borro, que é residente de Culemborg, médica e mãe de duas crianças. 

 

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“Eu ainda não falava holandês e minhas crianças frequentam uma escola holandesa pública. Aqui temos a escola internacional e a escola holandesa, a escola internacional tem um currículo internacional e a escola pública holandesa tem um currículo holandês. Então, no ano que elas estão só falam holandês na escola e para mim foi muito difícil porque minha filha mais velha, que tem 7 anos, está no período de alfabetização e foi muito complicado por eu não falar a língua”, relata. 

Já Luciana Savioli, que mora em Austin, não encontrou dificuldades com a língua, mas sim com a metodologia das aulas que a escola disponibilizou para sua filha, a pequena Clara, de 9 anos. Assim como aconteceu no Brasil, o ensino remoto foi adotado em caráter emergencial, da noite para o dia.

“Eles (os alunos) ficaram em casa em um esquema de aula online, que foi muito improvisado e teve muitas críticas. Basicamente  mandavam um PowerPoint com as atividades que a criança teria que fazer até a sexta-feira e boa sorte! As crianças tinham que fazer, mas obviamente não faziam, e os pais tinham que acompanhar bem de perto, aprender a lição para poder ensinar, foi um pouco caótico esse final de ano”, relembra.

Como escolas de diferentes países reagiram à segunda onda de COVID-19

Espaços públicos fechados, distanciamento social em larga escala e uso obrigatório de máscaras. Quando a segunda onda de COVID-19 atingiu a Holanda, entre os meses de outubro e dezembro de 2020, o governo do país adotou medidas mais rigorosas para conter o avanço do vírus, o que incluiu o fechamento das escolas até fevereiro.

Essa segunda retomada das aulas, como relata Marina, aconteceu com bastante restrições. As aulas que exigem contato, como educação física, foram suspensas; as crianças foram separadas em grupos para restringir o contato e aquelas que apresentam sintomas gripais foram testadas e só retornam para sala de aula com um resultado negativo.

No último trimestre de 2020, os Estados Unidos também enfrentavam a sua segunda onda, quando se tornou o epicentro da pandemia com maior número de infectados no mundo.  Mas diferente do que aconteceu em Culemborg, ao menos no Texas, os pais puderem escolher se seus filhos retornariam ou não presencialmente para a sala de aula.

As famílias que optaram pelo retorno presencial, se depararam com um forte esquema de segurança, como uso de máscara obrigatório entre as crianças, distanciamento social e barreiras de acrílico entre as carteiras. Luciana, pensando no bem-estar emocional da sua filha, optou por mantê-la em casa.

“Nós conseguimos trabalhar de casa e achamos que ela vai se beneficiar mais estando em casa, em um ambiente mais relaxado, aprendendo, do que ir para a escola e ficar com essa paranoia de máscara e de todos esses protocolos. E ela está em casa conosco desde setembro, o que é um grande desafio”, comenta.

O efeito do ensino remoto na percepção dos pais

Pontos positivos – na perspectiva de Mariana e Luciana, a autonomia e o protagonismo foram os principais pontos positivos do ensino remoto. Isso porque, a pandemia colocou os estudantes como agentes da construção do próprio conhecimento.

“Aquela coisa protegida de o professor entregar o papel e explicar por onde vai acabou; agora é você e o conteúdo, tem que se virar. Obviamente que os pais entraram muito na dança, mas acredito que o que isso trouxe de positivo para as crianças foi que elas foram jogadas na fogueira e tiveram que se safar. Se isso pode ser chamado de autonomia ou resiliência, não sei bem o nome que podemos dar, mas é essa capacidade de aprender no conflito e na gravidade da situação”, comenta Luciana.

“Eu percebi que as minhas filhas ganharam muito em saber mexer em plataformas e em computadores […] Nós não podemos ficar em cima o dia inteiro, por isso minha filha teve que se virar muito e isso fez fluir leitura, fez fluir interpretação de texto, coisa que talvez fosse um pouco mais devagar na escola”, pontua Marina.

Pontos negativos – a saúde mental dos adultos, jovens e crianças foi afetada de forma igual na pandemia, principalmente em função do distanciamento social. As consequências para os estudantes ainda não podem ser totalmente mensuradas, mas percebe-se desde mudanças de humor até o comprometimento da aprendizagem. É preciso ficar alerta!

“Acho que o que a Clara mais sentiu, de novo, foi a falta de convivência, de interação social, eu vi que a escola não é um lugar apenas de aprendizado, ela corresponde a 80% da vida da criança […] Nós passávamos em frente à escola e até eu sentia saudades, é uma parte muito importante e não podemos limitar a escola apenas a um veículo de conteúdo, é a comunidade, são as amizades, é o aprendizado no recreio”, declara Luciana.

“Não ter o contato com outra criança da mesma idade, fazer as mesmas brincadeiras e ter aquela interação social foi a grande perda, no meu ponto de vista, foi a grande perda que essas crianças estão tendo em relação a não ir para a escola e também o medo que esse vírus causa nas crianças”, destaca Marina.

Aos poucos, a vida vai voltando ao normal

Após o caos que instaurou-se no mundo com a pandemia, a vacina veio como esperança por dias melhores. A Holanda, que iniciou sua campanha de imunização em dezembro de 2020, já tem 61,9% da sua população totalmente vacinada, enquanto os Estados Unidos, que começou a vacinação no mesmo período, já imunizou 53% da sua população.

Hoje, Marina, assim como outras mães holandesas, já se sentem mais seguras e estão retomando a normalidade das suas vidas gradativamente. “As minhas amigas brasileiras e não brasileiras que também moram aqui, que tem os filhos nas escolas, nós não escutamos falar de crianças infectadas, ainda não tive nenhuma amiga ou nenhum conhecido que falou que a criança voltou para a escola e foi infectada”

Ela ainda completa: “Eu acho que algumas medidas podem ser tomadas no Brasil, mas é possível, as crianças aqui se sentem seguras, se sentem felizes, ninguém perdeu um ano de estudo, a maioria das crianças conseguiram passar de ano […] Aqui as crianças têm praticamente a vida normal, não usam máscara para entrar em lugar nenhum, não possuem restrições, diferente dos adultos, é uma experiência positiva que eu acho bacana compartilhar”.

Nos Estados Unidos, também já paira uma sensação de segurança dentro das escolas. “Eu tenho amigas que enviaram os filhos para a escola e que me dizem que está tranquilo, que tem os protocolos que devem ser seguidos, é a nova vida e devemos seguir. Então, penso que a escola pode dar certo, com a volta dos alunos, com as regras, mas acho que o sistema em casa também funciona e vejo isso como algo muito particular de cada família”, afirma Luciana.

Assista a palestra completa:

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