Educação midiática e as fake news na escola
Desafios Contemporâneos

Educação midiática e as fake news na escola

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Logo no início da pandemia, o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde) Tedros Adhanom Ghebreyesus declarou, em abril de 2020, que o mundo não estava lidando apenas com uma epidemia, mas também com uma “infodemia”. Esse termo, segundo a OMS, refere-se a um grande volume de informações associadas a um assunto específico, verdadeiras ou não, que se multiplicam exponencialmente em pouco tempo por conta de um evento específico – como a pandemia atual.

“Nessa situação, surgem rumores e desinformação, além da manipulação de informações com intenção duvidosa. Na era da informação, esse fenômeno é amplificado pelas redes sociais e se alastra mais rapidamente, como um vírus”, alerta a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde).

Nesse contexto entram as fake news, ou notícias falsas. Antes da pandemia, esse assunto já estava em alta no Brasil e no mundo. Mas com a chegada de um novo vírus, que trazia mais perguntas que respostas, ajudou a disseminar a discussão sobre o combate à desinformação e às notícias falsas. A escola, como parte integrante da sociedade, também pode ajudar na luta contra a fake news.

 

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A educação midiática

Na visão da jornalista Marinella de Souza, idealizadora do projeto Mídia na Família e multiplicadora do Educamídia, para além do combate à fake news, as escolas precisam entender o conceito de educação midiática. “As fake news são só a ponta de um iceberg muito maior que envolve a capacidade de acessar, analisar, criar e participar do ambiente informacional de uma maneira mais crítica e mais responsável”, explica. 

As fake news são informações fabricadas e não verdadeiras que imitam a forma do conteúdo da mídia de notícias. São criadas para enganar a população e atacar alguém ou algum assunto. Além das fake news, também é importante falar sobre a desinformação – que não necessariamente são notícias falsas, mas que também são criadas para gerar interpretações equivocadas. 

Segundo a OPAS, a desinformação “é uma informação falsa ou imprecisa cuja intenção deliberada é enganar”, podendo circular e ser absorvida muito rapidamente, “mudando o comportamento das pessoas e possivelmente levando-as a correr riscos maiores”.

Para Marinella, é justamente entendendo como a mídia funciona que podemos passar a compreender como as fake news e a desinformação são criadas. “A desinformação pode ser uma notícia verdadeira tirada de um contexto, uma charge ou um quadrinho pode ter desinformação”, exemplifica. Ela também explica que até mesmo alguns processos do jornalismo podem gerar desinformação, como quando o repórter tenta simplificar um conceito muito complexo para colocar no título ou para deixar mais atrativo.

“O artigo de opinião pode ser uma fonte de informação porque as pessoas veem aquilo no jornal e podem interpretar como informação de verdade, quando trata-se da opinião de alguém”, continua.

Para Marinella, trabalhar a temática da educação midiática dentro de sala pode transformar os alunos em agentes multiplicadores desse aprendizado sobre como funciona a mídia. Com isso, esses jovens levam para dentro de casa esses conhecimentos e o entendimento do que são os trabalhos da mídia, fortalecendo a democracia.

BNCC e as fake news

O gestor precisa se sensibilizar para a importância da educação midiática na escola, principalmente por já estar prevista no BNCC (Base Nacional Comum Curricular). No documento, sugere-se tratar tal assunto já nos anos finais do Ensino Fundamental, levando gêneros que circulam na esfera pública, nos campos jornalístico-midiático e de atuação na vida pública, para análise dos estudantes. 

“Trata-se de promover uma formação que faça frente a fenômenos como o da pós-verdade, o efeito bolha e proliferação de discursos de ódio, que possa promover uma sensibilidade para com os fatos que afetam drasticamente a vida de pessoas e prever um trato ético com o debate de ideias”, sugere o documento. 

A BNCC incentiva a discussão e exercícios envolvendo as dinâmicas das redes sociais e os interesses que movem a esfera jornalística-midiática. “A questão da confiabilidade da informação, da proliferação de fake news, da manipulação de fatos e opiniões tem destaque e muitas das habilidades se relacionam com a comparação e análise de notícias em diferentes fontes e mídias, com análise de sites e serviços checadores de notícias e com o exercício da curadoria, estando previsto o uso de ferramentas digitais de curadoria”, exemplifica.

“O acesso à informação é um direito garantido por lei para todo mundo, até mesmo para criança e adolescente. Mas não tem como a gente entender todo o contexto daquela mensagem sem fazer uma leitura crítica, sem saber questionar os pontos, sem avaliar aquela aquela mensagem de uma forma mais completa”, disse Marinella.

Jornalismo como ferramenta pedagógica

Segundo Marinella, o jornalismo pode ser uma ferramenta pedagógica bastante eficiente para ser trabalhada em sala de aula. Isso porque o repórter desenvolve um trabalho investigativo e tem que ouvir várias vozes para escrever uma matéria, pensando em todos os lados de uma mesma história.

Entender o conceito do jornalismo e como é o trabalho do repórter são essenciais para trabalhar o combate à fake news e à desinformação em sala de aula. O Diretório Acadêmico de Gestão da Informação, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), auxilia nesse trabalha ao apontar sete passos para identificarmos uma fake news:

  1. Avalie a fonte, o site, o autor do conteúdo: muitos sites publicadores de fake News têm nomes parecidos com endereços de sites de notícias. Portanto, avalie o endereço e verifique se o site é confiável, missão. Também veja se outros conteúdos do site também são duvidosos.
  2. Avalie a estrutura do texto: site que divulgam fake News costumam apresentar erros de português, de formatação, letras em caixa alta e uso exagerado de pontuação.
  3. Preste atenção na data da publicação: veja se a notícia ainda é relevante e está atualizada.
  4. Leia mais que só o título e o subtítulo: leia a notícia até o fim. Muitas vezes, o título e o subtítulo não condizem com o texto.
  5. Pesquise em outros sites de conteúdo: duvide se você receber uma notícia bombástica que não esteja em outros sites de notícia.
  6. Veja se não se trata de site de piadas: alguns sites de humor usam da ironia para fazer piada.
  7. Só compartilhe após checar se a informação é correta: não compartilhe conteúdo por impulso. Você é responsável pelo o que você compartilha.

Trabalhando para identificar uma fake news, o professor pode fazer com que os alunos assumam papéis de repórteres, investigando a fundo aquele fato e demonstrando porque aquela notícia é falsa ou então foi tirada do contexto.

Como estamos vivendo momentos de polarização no Brasil, Marinella ainda sugere o jornalismo como ferramenta para o professor conseguir contornar o assunto caso questões políticas sejam levantadas em sala de aula.

“É natural que o estudante leve essa questão da polarização para a discussão, porque eles escutam a conversa em casa, o jornal, eles leem. Usando o jornalismo como ferramenta, o professor tem o papel de ajudar os estudantes a debater o assunto sem fazer juízo de valor. A gente não pode dizer que o lado A ou B está certo, podemos mostrar que existe a multiplicidade de informações e ensinar que temos que respeitar a pluralidade de pontos de vista”, explica.

Confira portais que oferecem capacitação para educação midiática e agências de combate às fake news:

 

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