O aluno como agente no processo de aprendizagem
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O aluno como agente no processo de aprendizagem

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A autonomia do aluno é um elemento essencial para que o aprendizado ocorra de forma efetiva, mantendo e alimentando a motivação, a responsabilidade e o interesse. Afinal, a educação não cumpre de fato seu papel se tem o estudante apenas como observador passivo – para realizar sua missão na vida dos jovens e na sociedade em geral, é preciso considerar o aluno um agente nesse processo e valorizar sua humanidade.

Hoje em dia, a tecnologia nos apresenta novos horizontes no sentido da educação, ajudando educadores e escolas a criar sistemas que integrem a participação prática dos alunos. Carlos Celis – gerente acadêmico do Cel.Lab, uma plataforma de aprendizagem gamificada da escola de idiomas Cel.Lep – conta que ferramentas como essa, por exemplo, trabalham com base no LMS (Learning Management System); esse sistema de gestão de aprendizagem permite que tutores e administradores do curso obtenham informações para então gerir uma trilha para os alunos, diz Carlos. 

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No entanto, é preciso – principalmente depois da chegada da pandemia, que fez com que tecnologia e os ambientes virtuais passassem a ocupar ainda mais espaço – lembrar de uma das partes mais fundamentais e insubstituíveis do ensino: a humanidade. “A tecnologia veio para nos ajudar em um momento, mas ela não supre essa parte humana do ensino, da educação”, diz Carlos. Assim, o distanciamento dos alunos entre si e com as escolas não foi apenas físico. A tendência, com essa falta de interação presencial, é que o processo de ensino perca cada vez mais sua humanidade e, portanto, que transforme o aluno novamente em observador em vez de agente em sua própria educação.

Por esse motivo, explica Carlos, foi preciso começar a pensar em modos de “humanizar” as próprias ferramentas de ensino, tornando a tecnologia mais acessível e mais próxima de uma interação genuína. 

Para avaliar bem as opções que temos com a tecnologia na educação, é preciso considerar os pontos positivos e negativos. Alguns dos negativos, como exemplifica Carlos, incluem a qualidade ou até mesmo falta de conexão da internet; o número limitado de equipamentos disponíveis tanto em escolas quanto nas residências dos alunos; a falta de habilidade de gerenciamento de tempo por parte dos alunos quando permanecem em casa e não estão mais sendo guiados precisamente pelos professores; e o medo de vários professores de lidar com a tecnologia em geral, devido à preocupação pela falta de habilidade.

Já o lado positivo, que Carlos considera maior do que seu oposto, é composto por pontos como a presença de um ensino de melhor qualidade que também é mais interessante aos alunos; a flexibilidade, já que as ferramentas estão sempre disponíveis e permitem uma fácil adequação de tempo de estudo; a presença de um ambiente virtual onde é possível acontecer troca de informações tanto entre alunos e seus colegas quanto entre alunos e professores; as funções gerenciais que dão aos professores as informações necessárias para acompanhar a aprendizagem de cada estudante; e o apoio pedagógico que alunos com maiores dificuldades pode receber pela plataforma, tendo a possibilidade de voltar e refazer uma atividade a qualquer momento.

Tendo conhecimento de nossos desafios e limitações, Carlos acha importante considerar quais questões podemos mediar e como. Nem todos os problemas poderão ser solucionados, mas é importante sempre tentar diminuir seus efeitos negativos o máximo possível – e guardar uma “carta na manga”, planejada justamente para situações de emergência. 

Em relação à questão de gerenciamento de tempo por parte dos alunos, a prática de humanizar e empoderar o estudante se mostra, mais uma vez, muito útil: isso porque, além do conteúdo das aulas, é preciso ensinar os alunos a aprender; e isso envolve a capacidade de gerenciar seu tempo. Isso dá ao indivíduo autonomia com sua própria vida, e desenvolve uma consciência temporal que será essencial não apenas para sua organização acadêmica, mas também para sua vida em geral no futuro.

As plataformas de ensino, ao oferecer em um recurso visual uma trilha que acompanha o desenvolvimento de cada aluno, também ajuda o jovem a se sentir mais autônomo, já que ele pode checar onde está no seu processo de aprendizagem e usar as ferramentas disponíveis para dar o seu melhor. Isso também pode ser útil para as famílias dos alunos, já que os responsáveis também podem checar a trilha de aprendizagem do estudante. 

É claro que, para guiar os alunos, é preciso que os professores estejam bem orientados e a par da tecnologia. Por isso, a capacitação continuada é uma boa solução; “é imprescindível que o professor saiba exatamente como utilizar a plataforma ou como o aluno a está utilizando”, diz Carlos. E, já que grande parte das coisas que um professor faz e diz não pode ser reproduzida por algo artificial, o gerente garante: o medo de que essas ferramentas “substituam” os professores não tem fundamento. “Acho que se você pensa em ter tecnologia como uma aliada, esse medo não deve e não pode existir”, afirma. “A tecnologia é uma ferramenta para que você consiga auxiliar o seu aluno da melhor forma, para que você consiga formar esse cidadão da melhor forma, é um aliado, não um inimigo”.

O que esses profissionais fazem, às vezes com ajuda destas ferramentas, vai muito além do ensino de conteúdo intelectual; é um trabalho no qual seres humanos formam seres humanos. Por isso, com a necessidade do distanciamento social na pandemia, nossos recursos deveriam suprir não apenas conteúdo mas também o exercício da cidadania e solidariedade. “Haveria a necessidade de que essas tecnologias nos auxiliassem com um ambiente mais humanizado, com conteúdos linguísticos e culturais e de interesse humano”, diz Carlos. 

Além disso, Carlos conta que parte da contextualização humanizada das ferramentas de ensino envolve intervalos mentais: ou seja, a plataforma deveria, eventualmente, lembrar o aluno de pausar, descansar ou sair da frente da tela do aparelho após um certo tempo realizando uma atividade. “A plataforma ideal seria aquela que te diz ‘vamos parar um pouco agora? Faça uma outra coisa’ ou ‘vamos fazer uma atividade para relaxar um pouco antes de seguir?’”, opina. “A plataforma seria uma aula real, não necessariamente uma sequência de exercícios”.

A plataforma também tem a tarefa, então, de desenvolver a autonomia do aluno e de ajudar na formação de um ser humano completo, bem resolvido e capaz de contribuir à sua comunidade. “Além de tudo que uma plataforma faz, que é ensinar o conteúdo, consolidar, sistematizar e praticar, ela teria também que considerar o indivíduo como um ser humano, teria que proporcionar exposição intensa a outros conteúdos além daquele conteúdo que eu estou aprendendo”, fala Carlos.

 Portanto, além das disciplinas “comuns”, é importante que os alunos tenham contato com assuntos variados do mundo, incluindo diferentes culturas, notícias, artes, novos lugares e costumes. E é claro que, durante esse caminho longo e cheio de diversidade, o jovem deve ser guiado de forma empática pelo tutor, sempre mantendo uma conexão saudável.

Muitas vezes, são detalhes que fazem a diferença na tentativa de transformar o ambiente virtual o mais parecido possível com uma aula presencial. Por exemplo, a prática de elogiar o desempenho do aluno pode ser replicada em uma plataforma virtual, gerando motivação por meio de mensagens positivas. Deixar a possibilidade de comunicação clara para o aluno – seja ela por Whatsapp, e-mail ou outras redes sociais – também ajuda muito na prática de humanização; isso não apenas permite o esclarecimento de dúvidas sobre a matéria, mas também preserva uma conexão entre aluno e professor.

Por exemplo, se é necessário conversar com um aluno sobre sua frequência de atividades na plataforma, a ferramenta é capaz de calcular e apresentar um número que pode ajudar o educador a entender o progresso do estudante. No entanto, a interação com o aluno é feita pelo professor, de ser humano para ser humano; “não é um relatório que eu envio para o aluno, mas um relatório que eu envio para quem vai falar com o aluno”, explica Carlos.

Desse modo, é possível otimizar o ensino, até mesmo durante a quarentena e separados por uma distância física, e ao mesmo tempo preservar um contexto humanizado na sala de aula – ainda que essa sala de aula agora seja virtual. “Então, existe a grande possibilidade de você ter o melhor dos dois mundos, uma vez que a tecnologia tem um toque humanizado em que eu também esteja em contato com o professor”, diz Carlos. 

Afinal, aponta o especialista, um diálogo entre tecnologia e humanidade é inevitável já que “um não existe sem o outro”. E se tratando de um assunto tão importante quanto a educação, um elemento que realmente reflete e muda nossa realidade, não podemos economizar esforços – como diz Edgar Morin, apenas com uma mudança de paradigma no ensino teremos capacidade, como indivíduos e como sociedade, de enfrentar e entender nossos problemas – e, então, genuinamente evoluir. 

Assista a palestra completa:

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