6 min de leitura

Conceito que tem conquistado espaço no mundo acadêmico porque pressupõe a capacidade de fazer com que as disciplinas tenham mais sentido para os alunos

Tudo está conectado. Muitas vezes ouvimos essa frase, especialmente a partir da transformação digital impulsionada pelo período de pandemia da Covid-19, diante da necessidade de desenvolvimento de soluções para uma população cada vez mais adaptada a recursos baseados na tecnologia. Mas quando essa pauta está colocada no ambiente da educação, é possível dizer que aplicamos bem o conceito da interdisciplinaridade na escola?

A interdisciplinaridade é um conceito que tem conquistado espaço no mundo acadêmico porque pressupõe a capacidade de fazer com que as disciplinas tenham mais sentido para os alunos. Sendo assim, ela é capaz de impedir que um dia os estudantes pensem aquela velha frase: “Quando na minha vida eu vou usar isso, professor”?

Para entender como se aplica a interdisciplinaridade na escola

Interdisciplinaridade é o “intercâmbio mútuo e a integração recíproca de várias ciências”, segundo o filósofo, psicólogo e biólogo Jean Piaget. O pensador suíço dizia que a interdisciplinaridade era um dos caminhos para se alcançar a transdisciplinaridade, um estágio em que não há fronteiras entre as disciplinas.

Na escola, interdisciplinaridade é a integração de várias disciplinas, na medida em que se rompem os limites entre as matérias e, dessa forma, é promovido um conhecimento mais globalizado e mais atrativo para os alunos.

Confira também:

Desafios e oportunidades da educação bilíngue no Brasil

 

Fragmentação: uma experiência do passado

Especialistas afirmam que o ensino fragmentado não é mais capaz de atender o aluno do século 21. Hoje, os alunos precisam ter o pensamento crítico estimulado, a fim de desenvolver soluções criativas para problemas cada vez mais complexos, avaliando questões sob diferentes ângulos e com uma visão ampla do mundo globalizado em que vive, o chamado mundo VUCA (um mundo de Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade). 

“O mundo é interdisciplinar, por isso o universo de lousas e provas precisa estar inserido em um contexto real. Devemos trabalhar de forma interdisciplinar para que o educando perceba que o que acontece na escola tem significado e utilidade na vida dele”, diz Lucas de Briquez, Diretor Administrativo da Teia Multicultural, uma das primeiras escolas paulistas a apostar intensamente na realização de projetos, interligando alunos e professores de diferentes disciplinas.

Os benefícios do cruzamento de disciplinas na prática

O fato é que poucas escolas já adotam uma metodologia totalmente voltada para projetos interdisciplinares e não segmentam mais suas aulas nas disciplinas tradicionais. O mais comum ainda são instituições de ensino que implementam algum tipo de interdisciplinaridade, mas que mantêm o currículo dividido em disciplinas tradicionais. É o caso da escola Teia Multicultural, em Perdizes, zona oeste de São Paulo.

A idealizadora, mantenedora e diretora pedagógica da escola, Georgya Correa, dá alguns exemplos de como a Teia Multicultural faz a conexão entre as disciplinas: “Nós criamos projetos como peças teatrais, em que nossos alunos precisam ter muitos olhares diferentes para realizar, por exemplo, um cenário. É preciso ter o olhar artístico, o olhar da matemática, o geográfico, o histórico… na hora de escrever o texto, existe o olhar mais voltado para o português, na hora de interpretar, para a oratória. Para elaborar um projeto assim, é muito importante a contribuição de cada disciplina, olhando para um mesmo ponto, mas chegando a ele por caminhos diferentes. É essencial a convergência de objetivos comuns em cada disciplina e chegar a um produto final que não é específico de nenhuma delas, mas de todas juntas. Não é algo fragmentado, é algo que soma.”

Georgya conta que a escola aposta muito no estudo de culturas diferentes, para atrair seus alunos. Um dos projetos recentes teve como tema central a Índia. “A partir da ambientação desse país e de sua região, ensinamos a importância da natureza, do rio Ganges, a distribuição da água para as casas, os filtros, a irrigação… tudo isso envolve Ciências, Matemática, História, Geografia, e essas diferentes áreas se apoiam no currículo de acordo com a necessidade de cada faixa etária.”

Diferentemente da Teia Multicultural, outras escolas não chegam a desenvolver um projeto comum entre as disciplinas, mas abordam determinados temas comuns em suas aulas, de forma separada. “Nós trabalhamos o tempo todo fortalecendo essa busca coletiva e individual de conquistas, o fortalecimento do querer e os conhecimentos necessários para alcançar o que almejamos. Trabalhar de forma interdisciplinar é forjar com várias mãos, para conquistar um produto final de forma coletiva. Por isso, o estudo em forma de projeto é tão interessante”, completa Georgya Correa.

Se você se pergunta “como trabalhar com a interdisciplinaridade na escola de maneira correta?” ou “como engajar alunos a serem mais participativos e a entenderem a interdisciplinaridade?”, listamos alguns tópicos que podem colaborar.

1) O primeiro passo é mostrar aos membros da sua equipe o sucesso da interdisciplinaridade em outras escolas, motivando-os a implementar o mesmo com os seus alunos. Não basta impor a ideia, é preciso que sua equipe entenda o modelo e tenha vontade de implementá-lo, gerando um valor agregado para seus alunos e para eles mesmos (uma vez que deixam de se restringir a somente um campo de saber e passam a ter uma visão mais geral de toda a escola). Uma ótima maneira de ampliar o repertório de seus professores é mostrar relatos de outros profissionais, apresentar vídeos e realizar workshops.

2) O segundo passo, uma vez entendido o conceito da interdisciplinaridade, é promover a interação entre os professores, para que eles criem projetos interligando diferentes áreas de conhecimento. Vale lembrar que, para isso, é fundamental que exista flexibilidade na proposta pedagógica da escola e realizar um bom planejamento.

3) Terceiro passo: levar os projetos aos alunos (e isso vale tanto para o ensino fundamental quanto para o ensino médio), pensando sempre que a melhor forma de ensinar é por meio da contextualização, usando exemplos da vida real na sala de aula. O uso de recursos digitais é uma excelente maneira de desenvolver a interdisciplinaridade e aumentar o engajamento e desempenho dos alunos. 

4) Quarto passo: depois de implementada entre diferentes disciplinas, não se esqueça de avaliar os resultados, para poder melhorar a cada projeto realizado, sempre pensando em aumentar a interação das pessoas envolvidas em torno de objetivos comuns, ou seja, estimulando a coletividade sobre o individualismo.

Confira também:

Ensino híbrido: como acompanhar e verificar a aprendizagem?

*Matéria atualizada em 02/02/2022, às 10:42am

Comentários