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Como surge a ansiedade, sintomas da depressão, o que é TDAH, e outros questionamentos sobre as conhecidas “doenças do século XXI” seguem liderando os assuntos mais discutidos e pesquisados da área, trazendo luz a esse tema, de suma importância social e de saúde pública.

Segundo o Google Acadêmico, até 2010, haviam pelo menos 8 mil resultados para o tema e palavra-chave TDAH, sigla de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Hoje, 12 anos depois, o número de resultados salta para 70 mil. Recentemente, no Brasil, após uma reportagem especial veiculada no programa Fantástico sobre TDAH, as pesquisas sobre esse tema no Google subiram 4.000%.

Assim, sendo o assunto TDAH pesquisado e abordado em grande volume, é possível repensar os padrões através de novas e atualizadas perspectivas. Novos questionamento surgem como “qual o papel da escola na saúde mental do aluno” ou “direitos dos alunos com TDAH” e cabe à educação, as instituições de ensino e profissionais se atualizarem sobre os avanços e pesquisas.

Para contribuir com o tema e suas reflexões na escola conversamos com a psicóloga clínica especialista em neuropsicologia pelo Hospital Albert Einstein e Reabilitadora Neuropsicológica, Bianca Cristina Marins Pierani. 

O que é TDAH? 

Em suma, é “o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, um transtorno neurobiológico de causas genéticas, que acomete o cérebro do indivíduo. Surge na infância e acompanha por toda a vida, sendo os principais sintomas a desatenção, inquietude e impulsividade”, define Bianca. 

Existem três tipos, “o primeiro, predominantemente desatento, o segundo, predominantemente hiperativo e impulsivo e o terceiro, tipo culminado, que carrega ambas características”. 

Ainda segundo Bianca, o diagnóstico pode acontecer a partir dos primeiros sintomas, que aparecem normalmente durante ou após o período de alfabetização. É  possível observar que a criança não consegue ficar muito tempo sentada, falta foco, ou fica até mesmo impaciente com frequência, em atividades que outras crianças podem levar menos tempo ou apresentar menor dificuldade para realizar. 

O TDAH não tem cura, mas existe tratamento, tanto por meios psiquiátricos, com terapias e acompanhamento psicológico, como principalmente por um médico/a neurologista, para diagnósticos em adultos, e um neuropediatra, para diagnósticos na infância. 

Se não for tratado desde a infância, o transtorno pode acumular dificuldades no dia a dia da criança, na escola, em casa, quando não – no pior dos caso – a evasão e o abandono escolar, que prejudicam a qualidade de vida como um todo, geram depressão desde cedo e culminam com a dificuldade de acesso ao mundo do trabalho na vida adulta. 

O TDAH Infantil e diagnóstico

Pesquisas recentes sobre o diagnóstico do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), segundo reportagem do Estado de Minas, mostram que cada vez mais ele está sendo entendido como um transtorno dimensional. 

Isso quer dizer que todas as pessoas têm um grau de desatenção, hiperatividade e impulsividade, mas, somente uma parte da população – que apresenta seis ou mais sintomas – acabam por preencher o diagnóstico.

Estimativas da Associação Americana de Psiquiatria apontam que entre 5% e 15% das crianças em idade escolar têm dificuldades de aprendizagem. Já uma reportagem da CNN mostra que o TDAH atinge entre 3% e 5% das crianças no mundo. Ou seja, aqueles que não são diagnosticados, além de seguirem até a idade adulta sem saber do problema, podem acumular traumas na infância e consequências na vida adulta. 

No caso da criança, quando ela começa apresentar os sintomas de transtorno, muitas vezes, torna-se perceptível com as dificuldades na escola. “Aquele aluno/a que tem dificuldade de prestar atenção nas aulas, de lidar com regras e limites, de concluir as atividades e também no relacionamento com as demais crianças”, exemplifica a neuropsicóloga. 

“Muitas vezes são chamadas erroneamente de ‘avoadas’, que ‘vivem no mundo da lua’, ‘estabanadas’, ‘agitadas’, devido a desatenção predominante”. Muitas vezes situações como essas diminuem a autoconfiança e autoestima do aluno, que pode sentir que não se enquadra como os outros”, pontua.

Mas o que fazer ao perceber esses sinais? “A primeira coisa que se deve fazer quando os pais ou a escola perceberem esses sintomas é levar a criança ou jovem em um neuropediatra, um médico que precisa solicitar os exames necessários para fazer essa avaliação. São feitos vários exames, desde o PAC auditivo (Processamento do Sistema Auditivo Central), até avaliação neuropsicológica”, explica a especialista.  

“Assim que o neuropediatra tiver o resultado dos exames em mãos, será possível fechar o diagnóstico. Após isso, a criança precisará de um psicólogo e possivelmente de um psicopedagogo, pela dificuldade de lidar com o dia a dia escolar, até mesmo pela ansiedade causada pela TDAH”, conclui. 

O papel da educação: lei e responsabilidade

No ambiente escolar, a criança se desenvolve e se relaciona com seus pares e com os professores, além da vivência nas aulas e nas atividades. Através dessa interação, as facilidades e dificuldades, dispersões ou foco transparecem ao educador.  

No diagnóstico de TDAH, a escola, assim como o sistema de ensino, tem a responsabilidade sobre a qualidade do processo e bem estar do jovem, que caso não sejam acompanhados da forma correta, podem desenvolver problemas do ponto de vista social, cognitivo e de aprendizagem. 

Além disso, existe uma legislação especifica, lei 14.254, de 30 de novembro de 2021, que determina que as escolas devem assegurar aos alunos com TDAH e Dislexia acesso aos recursos didáticos adequados ao desenvolvimento de sua aprendizagem e os sistemas de ensino devem garantir aos professores formação própria sobre a identificação e abordagem pedagógica. 

O tratamento no texto prevê a responsabilidade da escola em “ garantir o cuidado e a proteção ao educando com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem, com vistas ao seu pleno desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, com auxílio das redes de proteção social existentes no território, de natureza governamental ou não governamental

Segundo a neuropsicóloga Bianca Pierini, “é papel da escola e dos professores usar a avaliação diferencial, chamado currículo funcional. Conforme o tipo predominante da criança, é importante que as atividades sejam adaptadas à ela, que a ajudem efetivamente. Como, por exemplo, no caso do déficit de atenção, atividades mais curtas que exijam menor tempo de foco. Ou também, passar um comando de ação por vez para o aluno realizar. É importante um olhar apurado para a situação dela enquanto diagnóstico”.  

Não só é importante, como agora é lei, e a solução para quem ainda precisa se inteirar do assunto não é complicada: começar pela capacitação. O amparo adequado do professor, funcionários, da direção, coordenação, instruções corretas no horário de trabalho pedagógico, o currículo funcional aplicado, é o essencial no desenvolvimento da criança com o passar dos anos. 

Aplicando: Os movimentos do ensino

Além da capacitação por parte da escola exigida pela nova lei, há uma série de complementos que uma rede ou instituição de ensino pode ter para um ambiente adaptado. Listamos 5 dicas que fazem toda a diferença quando o assunto é TDAH, infância e ensino: 

  1. Segurança: capacitação adequada sobre doenças e transtornos. Os professores, auxiliares e coordenadores têm que se sentir capacitados para lidar com isso. É muito importante a escola investir nessa capacitação.

 

  1. Equipe: é valioso para a escola montar uma equipe multiprofissional, com professores capacitados, psicopedagogo, um coordenador pedagógico, o próprio papel do psicólogo escolar é de suma importância, para ajudar o professor nesse processo e nos desafios. 

 

  1. Atividades: Independentemente da idade e considerando o acompanhamento psicológico e psicopedagógico desse aluno, diversas outras atividades, extracurriculares ou hobbies, podem colaborar para esse desenvolvimento sadio. Entre eles, esportes, bem estar do corpo da mente, jogos, grupos de leitura, academias, artes. 

 

  1. Duas atividades em específico são recomendadas: xadrez e meditação, que colaboram para o foco, organização pessoal, raciocínio lógico e autocontrole. 

 

  1. Além do diagnóstico do TDAH, é importante a escola estar preparada e capacitada para possíveis outros diagnósticos. É papel da escola ter estrutura para observar sintomas e encaminhar corretamente as crianças e adolescentes que podem ter algum transtorno, dificuldade ou disfuncionalidade.

Essa troca de informações agrega experiência para os profissionais, e vai ajudá-los a lidar com os alunos. E na sua rede ou escola, quais são as práticas para acolher esses alunos? 

Para mais conteúdos como esse confira aqui tudo que um Gestor precisa saber sobre TDAH.

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