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No contexto escolar, a avaliação é um processo que prediz se os alunos aprenderam ou não os conteúdos passados em sala pelos professores. Mas, em um contexto amplo, a avaliação está presente no dia a dia, por exemplo, quando avaliamos a nossa aparência física ao olhar no espelho e realizamos check-ups médicos que qualificam a nossa saúde. 

“Constantemente nós estamos avaliando diferentes elementos, no esporte, na saúde, nós estamos vendo como estamos fisicamente, ou seja, há muitas situações cotidianas em que nós nos avaliamos, e às vezes usamos esse processo melhor do que dentro da escola”, comenta Isabel Loncomil, professora e co-fundadora da plataforma educacional Lirmi.

Ou seja, o avaliar faz parte do nosso cotidiano. Porém, no contexto escolar, as avaliações ainda são vistas com temor pelos alunos. Isso porque, houve uma estagnação na concepção do processo avaliativo e convencionou-se à nota como o principal indicador de desempenho intelectual. 

Na contramão das avaliações tradicionais, Isabela, que é educadora há mais de 10 anos, traz para discussão os métodos de avaliação formativa, que têm a proposta de fazer um acompanhamento mais aprofundado e individual do aluno, o colocando no centro do processo de aprendizagem.

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Diferenças e similaridades entre os métodos avaliativos

A avaliação tradicional ou somativa tem um propósito e a avaliação formativa tem outro. Segundo Isabel, a primeira é comumente utilizada para saber o que os alunos aprenderam ao final do processo de ensino-aprendizado, enquanto a segunda visa melhorar o ensino para os alunos, ao mesmo tempo em que auxilia os professores a ajustarem sua metodologia e as escolas a otimizarem o processo de aprendizado.

Veja abaixo como teóricos também definem esses tipos de avaliação:

Avaliação somativa – “… é percebida como avaliação somativa, a qualificação, geralmente por meio de uma prova escrita no final de um processo, os alunos aprenderem para avaliação. É quantitativo.” (Adaptada de Tobón, 2017)

Avaliação formativa – “ocorre quando o desempenho do aluno é visualizado, interpreta e é utilizado por professores, alunos, colegas e responsáveis para tomar decisões sobre os próximos passos da instrução que podem ser melhores do que os existentes.” (Black & Wiliam, 2009)

A aplicação prática dessas avaliações também pode ser visualizada no cotidiano, como exemplifica Isabel:

“Para vermos a diferença entre uma avaliação e a outra, nós temos no assunto da comida. Enquanto estamos lá provando, vendo como está a preparação de uma comida, estamos avaliando de maneira formativa, mas quando chegamos no final e servimos a comida e vemos como ela ficou, aí seria a avaliação tradicional, somativa”.

Apesar de conceituadas como distintas, aparentemente antagônicas, a co-fundadora da Lirmi explica que, na verdade, avaliação formativa e avaliação somativa fazem parte do processo de aprendizado. Algumas boas práticas podem auxiliar na aplicação dessas avaliações nas escolas.

1. Evitar dar feedback e qualificar ao mesmo tempo

Mesmo fundamentais no processo de ensino-aprendizado, Isabel recomenda que os feedbacks não sejam realizados junto às avaliações formativas. “Porque se eu quero que o aluno fique com a nota, a qualificação,  ele vai deixar de lado o feedback que eu, como professora, passei. Quando você entrega o feedback, que não coloque nenhuma qualificação, nenhuma nota junto com ele”, explica. 

2. Feedbacks na hora certa 

Idealmente, os feedbacks devem ocorrer durante as aulas, e não um dia antes da prova. A orientação da educadora é que ao terminar a aula, o professor dê informações daquilo que funcionou ou não, para que no dia seguinte, na próxima aula, os alunos tenham tempo de corrigir o que for necessário.

“O feedback é essencial, mas é importante que o professor, dentro do seu plano, do seu projeto de aula, incorpore toda vez essa parte da avaliação formativa como parte do processo diário”, reforça.

Proposto pela agência de qualidade da educação do Chile, as avaliações formativas para as escolas do país acontecem dentro de um ciclo/aula e incluem algumas dicas para auxiliar os professores a prepararem suas aulas. 

3. Feedback flexível 

Feedbacks em formatos rígidos e desconectados das disciplinas também devem ser evitados. Isso porque, segundo a co-fundadora da Lirmi, estruturas rígidas podem levar as avaliações formativas ao fracasso, por isso, é preciso considerar quais disciplinas se adaptam bem a esse formato e explorar o uso de recursos em sala de aula.

“A avaliação formativa oferece diversidade de instrumentos e de recursos que podem ser usados, e em geral, você pode ter um tipo de teste, perguntas de alternativas, mas podem ser outras coisas, outros formatos, por exemplo, um semáforo, um ticket de saída, um resumo do que o aluno aprendeu em duas frases, um diagrama, ou seja, há muitas estratégias que são importantes e é legal o professor saber como adaptá-las à sua aula”.

  • Dicas para usar em sala:
    • Lousa;
    • Luzes de aprendizagem;
    • Escreva, comente e vá em frente;
    • Pausa reflexiva;
    • Resumo em uma frase;
    • Use exemplos e contra-exemplos;
    • Dados para cima;
    • Questionário KPSI;
    • Tabela CQA;
    • Um minuto escrevendo.

4. Cultura de avaliação pelo aprendizado

A existência de uma cultura de avaliação para o aprendizado beneficia toda a comunidade escolar. De um lado os alunos, que ao aprimorarem sua formação conseguem se adaptar melhor às mudanças globais, e do outro lado os professores, que são estimulados a se manterem em constante crescimento profissional.

Para atingir essa maturidade de avaliação para aprendizado, algumas perguntas básicas precisam ser respondidas: aonde estou? Para aonde vou? Como faço para chegar lá?

Para mostrar como uma avaliação formativa pode ser estruturada, Isabel traz como exemplo o diagrama utilizado pela Lirmi, que contempla uma unidade didática com 18 aulas. A primeira delas pode ser destinada para avaliação diagnóstica, uma somativa ao final e avaliações formativas ao final de cada aula.

5. Avaliação formativa bem implementada = avaliação formativa sem surpresas

Segundo Juliana, quando uma avaliação formativa é bem implementada, centrada no aprendizado, o resultado final é uma avaliação somativa que não traz nenhuma surpresa aos  professores. “Se eu for levantando dados em cada uma das minhas salas e coletando esses dados, eu vou saber como vai ser a avaliação do meu aluno, não vai ser uma surpresa nem para mim e nem para ele”.

Contudo, a educadora reforça que as avaliações formativa e somativa não devem ser vistas como antagônicas, mas complementares para ajudar a melhorar a aprendizagem. Nessa perspectiva, as ferramentas tecnológicas ampliam as possibilidades de aprendizado entre os alunos e intercâmbio de conhecimento entre os professores.

“A minha ideia é que possamos repensar a avaliação como parte do processo de aprendizagem e não como um elemento para ali, no final, simplesmente termos uma nota […] é pensar nessa cultura de avaliação centrada no aprendizado e a avaliação formativa vai entregar ferramentas que nos vão ajudar a melhorar sempre”, conclui.

 

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