7 min de leitura

A saúde das crianças e adolescentes que diariamente ocupam as fileiras do ensino básico de todo o País sempre foi pauta no ambiente escolar, mas a pandemia da Covid-19 elevou essa preocupação a uma nova prateleira. As necessidades mudaram e o elo entre família e escola nunca foi tão urgente a fim de garantir não só o aprendizado e o desenvolvimento dos estudantes, mas também um espaço de bem-estar para que eles cresçam como seres humanos saudáveis, física e mentalmente, e então possam tomar para si, no futuro, as responsabilidades que se apresentam na vida adulta.

Trata-se de tema que não sai da ordem do dia do médico pediatra e sanitarista Daniel Becker. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, ele é pioneiro da Pediatria Integral, prática que amplia o olhar e o cuidado para promover o desenvolvimento pleno e o bem-estar da criança e da sua família. Na pandemia, se mobilizou em torno da reabertura das escolas e da retomada do ensino presencial a partir de um protocolo de cuidados sanitários. “A escola deveria ser o último lugar a ser fechado e o primeiro a ser reaberto”, defende o profissional.

Transformar pela educação

Becker enxerga uma série de “gritos de socorro” da infância e adolescência – como o caso de um surto de crise de ansiedade de alunos de uma escola do Recife (PE), no último dia 8 de abril – e não deixa de relacioná-los a fatores sociais que o Brasil enfrenta, como o crescimento do número de famílias na pobreza e da desigualdade. “A ética da vida está deturpada”, afirma, antes de complementar. “A mudança começa pela educação, ainda que não só por ela. Uma boa escola pode ter um potencial transformador gigantesco”.

Problemas que não chegaram exatamente a nascer durante a pandemia foram potencializados pelo período. Ao argumentar a falta que a escola faz, Becker elenca os seguintes aspectos:

  • Muito mais que a sala de aula, a escola representa territórios de interação, amor, afeto, acolhimento, troca, brincadeiras.
  • Espaço público: relações num grupo de iguais, socialização, habilidades interpessoais.
  • Habilidades fundamentais: comunicação, empatia, colaboração, solução de problemas, negociação.
  • Professores: afeto e orientação não parental.
  • Parte da proteção social e garantia de direitos: segurança alimentar e a detecção e prevenção de violência.

A pandemia do estresse infantil

Essa relação de condições contribuiu para muitos sintomas de estresse, como adoecimento físico, emocional e mental; reações do corpo, com dores diversas; mudanças de comportamento; e perdas de habilidades. “As crianças sofreram um estresse tóxico, que é intenso, prolongado e que não tem reparação. Houve o convívio com pais estressados, perda do convívio social, o excesso de telas, que foi absurdo, além da falta do ar livre, a alimentação prejudicada por excesso de ultraprocessados e, claro, a falta da escola”, enumera o pediatra.

Daniel Becker lembra a importância de legitimar o que a criança está sentindo, além de outros cuidados quando os sintomas são identificados. “Comportamento infantil é comunicação. A criança não atua primariamente de forma negativa porque ela é perversa. Ela está expressando alguma coisa que está dentro dela. A gente jamais pode descartar um sentimento”, reforça:

  • Evitar descartar ou brigar
  • Legitimar, validar, acolher
  • Tocar, abraçar, dar colo
  • Explicar no seu nível de compreensão de forma otimista
  • Fantasia e brincadeiras
  • Contato com família e amigos
  • Rotina sem rigidez
  • Reduzir telas
  • Brincar livre e criativo em casa
  • Brincar ao ar livre

A alimentação como fator essencial

O papel da alimentação é outro aspecto fundamental na construção de uma rede de segurança, cuidados e reparação, de acordo com o sanitarista. “A alimentação tradicional brasileira é uma das mais elogiadas do mundo e nós estamos trocando por uma alimentação nociva, baseada em ultraprocessados, em não alimentos”.

Ele faz referência ao escritor Michael Pollan, autor do livro Regras da Comida, para sugerir que: a) a alimentação se baseie em itens que sejam mais descascados e menos desembalados, b) não coma nada que sua bisavó não reconheceria como comida; c) evite alimentos que contenham alguma forma de açúcar (ou adoçante) listada entre os três primeiros ingredientes.

Como lidar com as telas? 

Becker define a maneira como as crianças têm lidado com as telas – celulares, tablets, televisão – como “infância emparedada”, seja de fato pelas paredes do lar ou pelos dispositivos. Durante o período exclusivamente de ensino remoto, ele ressalta, foram de 14 a 16 horas diárias de tela. 

O consumo excessivo desses recursos pode levar a condições como sedentarismo, problemas posturais, miopia, obesidade, transtornos de imagem corporal, agressividade, hiperatividade, dificuldades de aprendizagem, isolamento, dependência digital e depressão, entre outros fatores de risco mencionados pelo pioneiro da Pediatria Integral no País.

A argumentação segue na linha de que o acesso permanente da criança à tela é “um exílio da sua própria imaginação e criatividade”. “Uma criança que não tem um celular para brincar vai ter que inventar uma brincadeira. E ela sabe fazer isso”.

Uma relação saudável com a vida digital pode ser estabelecida tendo algumas ideias mente:

  1. Sair do conflito cotidiano: criar um sistema de regras, baseados em valores, válidos para todos. As crianças podem participar das decisões, assim se sentem mais capazes de aderir.
  2. “Tempos-sem-tela” na rotina da casa, assim como “áreas-sem-tela”. Além disso, deixar o quarto da criança sem TV, tablets e fones. Crianças sabem brincar! É possível alternar tempo de tela com tempo dedicado a brinquedos criativos, brincadeiras ao ar livre ou leitura, por exemplo.

Essas recomendações dialogam com outras, voltadas ao conteúdo consumido, especialmente de forma compartilhada com pais e responsáveis, como abrir espaço para visitas a museus, prática de cursos, contação de histórias, folclore, música e dança, assim como ajudar nas escolhas e participar delas, seja para assistir um filme ou jogar um jogo. “Centenas de filmes passam bons valores, inspiram e geram conversas incríveis”, destaca o médico.

E o papel da escola?

Com toda a importância assumida pela escola, inclusive em um período desafiador como o da pandemia, Daniel Becker entende que ela, na média, ainda prioriza a obediência à criatividade e iniciativa. “É sempre essa homogeneidade, onde qualquer criança desviante do padrão vai ser excluída, de uma forma ou de outra, sutil ou explicitamente”, crítica.

Base do argumento do médico também se volta aos pais e responsáveis, que vislumbram em rankings e índices de aprovação em exames e vestibulares a resposta para a escolha da instituição em que vão matricular os filhos desde muito cedo. “Existe uma infância entre os três anos e a adolescência que está sendo ignorada”.

Com isso em mente, o médico chama a atenção para dois tópicos:

  • Atenção com a retomada presencial
  • Cuidado com a pressão ao retomar o conteúdo
  • Evitar as sobrecargas
  • Aulas de artes, teatro e expressão corporal, debates e atividades participativas, esportes
  • Ensinar competências socioemocionais e educação digital
  • Ar livre e natureza
  • Oportunidade de transformação
  • Precisamos de uma escola adaptada a esse momento
  • Menos preocupação com o conteúdo e mais com ajudar crianças e famílias a enfrentarem e processarem a história que estão vivendo
  • Recuperar o prazer de interagir e brincar
  • Aprender a pesquisar, ser criativo, colaborar, ser autônomo, a improvisar, comunicar-se e adaptar-se
  • Educação ambiental

 

“O mundo está mudando. É hora de mudar as prioridades, de olhar à frente e ver quais mecanismos adaptativos serão necessários para os novos tempos, porque essa não será a última pandemia nem a última catástrofe nas próximas décadas”, reflete Becker, que complementa e sugere. “Ensinar aos nossos filhos experiências e ideias que permitam recriar uma sociedade colaborativa, compassiva, mais relacionada com a natureza e os outros seres viventes do planeta, mais ecológica no mais amplo sentido, de maneira que a pandemia possa ter servido para uma correção tão necessária de rumo”.

Confira também:

Volta às aulas presenciais: como acolher as crianças sem abraçar?

Comentários