Como trabalhar a educação socioemocional no processo pedagógico?
Desafios Contemporâneos

Como trabalhar a educação socioemocional no processo pedagógico?

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A palavra da vez é aprendizagem! As transformações globais que aconteceram nas últimas décadas, em especial a pandemia de COVID-19, exigem de todos nós – sejam alunos, professores ou gestores – a capacidade de aprendizagem contínua para solucionar problemas diversos, muitos deles ainda desconhecidos. 

Nesse sentido, cabe às escolas, agora mais do que nunca, visualizarem o aluno em sua integralidade e desenvolverem também suas competências socioemocionais (determinação, foco, autoconfiança, criatividade, etc.), sem deixar de lado as competência cognitivas, com objetivo de prepará-los para essa nova realidade. Um desafio e tanto, não é?

Para orientar aos mantenedores e gestores escolares, existem vários referenciais para o ensino da educação socioemocional de forma transversal ou, ainda, para gerar aprendizados pessoais como forma de aprimorar relacionamentos. Aqui estão alguns exemplos:

  • Base Comum Curricular (BNCC);
  • Livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman;
  • Livro Comunicação Não-Violenta, de Marshall Rosenberg. 

Educação socioemocional como transformação

“Não tem como ensinar alguém, educar alguém socioemocionalmente, se nós não fizermos esse trabalho em nós mesmos”.

A frase de Aline Ahmad, mantenedora do Colégio Nahim Ahmad, de Guarulhos, São Paulo, nos faz refletir sobre a necessidade de também educar socioemocionalmente aos profissionais da escola. Durante a formação pedagógica, os professores “aprendem a ensinar”, mas poucos têm a oportunidade de se desenvolverem socioemocionalmente. 

Foi com esse entendimento que Aline, também escritora e poetisa, iniciou uma busca por autoconhecimento – primeiro aspecto da educação socioemocional – e fez do Nahim Ahmad instituição pioneira na prática de meditação em sala de aula. Então, antes do início de cada aula, professores e alunos se dedicam a uma atividade simples: um minuto de silêncio.

Na prática da meditação ou mindfulnesss, o silêncio é um convite para olhar pra dentro, aquietar a mente e conectar-se consigo mesmo. Enquanto atividade pedagógica, essa é uma ferramenta capaz de contribuir para o bem-estar e até melhorar a aprendizagem.

Que tal experimentar essa prática? Confira abaixo o passo a passo montado por Aline:

  1. Sentado, busque uma posição confortável e deixe a coluna ereta;
  2. Feche os olhos lentamente e tente relaxar;
  3. Faça três respirações profundas. Tente sentir o entrar e sair;
  4. Por fim, faça mais uma respiração profunda e abra os olhos.

Agora defina em uma palavra como se sente após realizar a atividade; tente ser específico e fugir das palavras “bem” e “relaxado”. Para muitos, encontrar outros termos para definir essa sensação pode ser difícil, segundo Aline, isso está relacionado à falta de compreensão sobre as próprias emoções. 

“O nosso vocabulário é reduzido a respeito das nossas emoções. Nós não exploramos as nuances que existem, quantas palavras nós podemos nomear, então essa é uma dica de alfabetização emocional”, explica. 

Uma das dicas trazidas pela mantenedora do Colégio Nahim Ahmad para ampliar o repetório de palavras é a leitura do livro “Comunicação Não-Violenta” de Marshall Rosenberg. A obra apresenta uma metodologia para aprimorar os relacionamentos e traz um amplo vocabulário para descrever claramente nossos estados emocionais.

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Comunicação não violenta nas escolas

Escute e sinta – essa é mais atividade realizada no Nahim Ahmad com objetivo de estimular a escuta. Aline explica como funciona:

  1. Durante a meditação em grupo, o professor toca um sino e os alunos devem levantar a mão assim que o som parar;
  2. Em seguida, ainda em silêncio, todos devem focar na escuta do ambiente por aproximadamente um minuto. 
  3. Por último, o professor pede aos alunos para que abram os olhos e descrevam o que ouviram.

Cheire e sinta: o foco dessa atividade é manter a atenção em uma única coisa e, ao mesmo tempo, relaxar. Entenda como funciona:

  1. O professor deve selecionar alguns elementos que tenham cheiro, como uma lavanda ou uma casca de laranja;
  2. Com a sala em formato de círculo e os alunos com os olhos fechados, todos devem cheirar cada dos elementos;
  3. Logo depois, os alunos podem falar o que sentiram e quais sensações aquele cheiro despertou.

A importância da formação integral 

Com a missão de oferecer um espaço de conhecimento científico, cultural e social que promova a formação de um ser humano ético e preparado para um mundo em constante transformação, há 12 anos o Colégio da Villa, localizado em Jaguariúna, São Paulo, contempla o aluno em sua integralidade.

“A nossa escola nasceu em período integral e formação integral, esse período é necessário para que nós possamos contemplar todas as atividades que acreditamos ser importantes para a formação de uma pessoa. Nosso objetivo não é trabalhar só a parte esquerda do cérebro, mas a parte direita também”, explica Lou Cocozza, mantenedora da instituição.

Essa proposta de formação integral, segundo Lou, visa trabalhar as matérias das ciências ditas “duras”, como matemática, biologia e química, bem como as ciências “moles”, que contemplam a dança, a música e o teatro. Para ela, essa é uma condição sine qua non para formar cidadãos éticos e preparados para um mundo em constante transformação.

Com a nova BNCC, até 2020, todas as escolas brasileiras deveriam inserir as competências socioemocionais em seus currículos. Entretanto, desde a sua fundação, lá em 2010, o Villa já realizava um trabalho de escuta com seus alunos com apoio de três psicólogos, uma para cada etapa da educação – infantil, ensino fundamental e ensino médio. 

Por muito tempo, também fez parte do quadro da instituição uma psicóloga que realizava massagens com óleos aromáticos nas crianças pequenas. Além de aproveitar o momento para relaxar, de forma muito espontânea, as crianças compartilhavam histórias sobre sua rotina e família. Ali, o que existia era uma relação de confiança. 

“Elas (as crianças) abriam para ela o seu coração, falavam sobre a sua casa, falavam sobre o seu dia, e quando ela chegava na escola eles já vinham correndo para ela abrir o celular e saber se naquele dia eles estavam com horário marcado para falar com ela, pois eles precisavam muito conversar com ela, e então nós achamos interessante nós termos uma pessoa que falasse com os alunos dessa forma”, relembra Lou. 

Agora o Villa pretende ir além e incluir a educação socioemocional em uma aula na grade. “Percebemos que vai ser um desafio muito grande, pensar na educação socioemocional de uma maneira transversal em todas as disciplinas, mas já temos o professor como aquela pessoa que vai colaborar na formação das nossas crianças”, explica a mantenedora. 

Esse objetivo está alinhado a outro propósito da instituição, que é preservar os direitos das crianças e suas infâncias. Para isso, Lou inspira-se na proposta educacional Reggio Emilia, idealizada pelo pedagogo Loris Malaguzzi, que em uma das suas principais citações diz:

“As crianças aprendem com os adultos, com seus pares e com o ambiente”.

Ao estabelecer o ambiente como o terceiro educador, o que espera-se é que as crianças se desenvolvam em um meio acolhedor e, ao mesmo tempo, desafiador. Porém, como pontua Lou, a pandemia mudou toda a arquitetura da escola como ambiente educador; o foco voltou-se para o home office e para as crianças restou apenas o confinamento em seus quartos.

Diante desse cenário, uma das propostas da mantenedora para o ensino híbrido é trabalhar em conjunto com as famílias para tirar a criança do quarto. A ideia é tirar o melhor proveito da casa como ambiente de aprendizagem e contemplar outros cômodos da casa, como a sala e até mesmo o quintal.

Lou relembra uma das situações mais significativas no início da pandemia: “quando a pandemia começou, nós tínhamos pais que falavam que a criança não tinha espaço, porque a mesa era alta demais, a cadeira era desconfortável, então nós falamos: “meu Deus, então venha buscar as/ carteira, a carteira dele está aqui”. Nós fizemos um drive-thru de entrega de carteiras e cadeiras, e depois os pais mandavam fotos orgulhos das crianças uniformizadas sentadas na sua carteira.

“Nós sabemos desse mundo VUCA, que já foi falado aqui sobre essa aceleração, desse mundo maluco, volátil, incerto, complexo e ambíguo, a escola não pode deixar de pensar nisso […] então eu acho que esta é a função da escola, criar um ambiente de aprendizagem, seja na matemática, seja na física ou na química. Eu amo química, e como na Lei de Lavoisier, a gente sabe que transforma, e a escola é transformação”, finaliza.

 

Assista a palestra completa:

Como trabalhar a educação socioemocional no processo pedagógico?

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