O que os educadores do Brasil podem aprender com as experiências internacionais hoje?
Desafios Contemporâneos

O que os educadores do Brasil podem aprender com as experiências internacionais hoje?

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A jornada de educação é algo muito pessoal. A de Matheus Batalha, doutor em psicologia, professor universitário e ocupante da Cadeira 32 do MAC/Academia Sergipana de Letras, é a soma de momentos de superação de obstáculos, tenacidade e muita criatividade. 

“Eu tive que superar inúmeros obstáculos, você imagina quem mora em cidade pequena, mesmo em capital, sabe os obstáculos que temos que enfrentar para poder estudar Eu tive que ter muita tenacidade para poder superar esses obstáculos e muita criatividade para poder contornar os mais diferentes desafios que foram aparecendo para poder alcançar os sonhos que eu entendia como sendo possíveis de serem realizados”, relembra.

A jornada de Matheus o permitiu conhecer diferentes países e ter uma vivência multicultural. Ele participou de programas internacionais, como o Ciências Sem Fronteiras e o 100.000 Strong in the Americas. Além de liderar esforços para criar o Instituto Tiradentes, um ambiente focado em educação internacional para brasileiros, sediado na Universidade de Massachusetts, em Boston, nos Estados Unidos.

Hoje Matheus se define como um “explorador educacional”, dedicado à pesquisa acadêmica e à transformação da educação brasileira. Em conversa com a equipe do Escola Exponenciais, ele nos conta sobre a sua trajetória profissional e apresenta projetos que acontecem no exterior e que podem ajudar o nosso país a sair mais fortalecido da crise.

O grande desafio das humanidades 

A área de humanidades centra-se na reflexão sobre histórias de vida e os diversos desafios éticos, culturais e políticos. Essa grande área também se relaciona com a educação, no sentido de estimular o pensamento crítico e formar cidadãos dotados de qualidades para uma vida guiada por princípios éticos e democráticos.

“O ato de interpretar tem que ser um ato ético. Porque qualquer avanço, qualquer tentativa de pensarmos teorias e transformá-las em práticas, tem que ser feita de forma incremental. A gente tem que tornar essa prática algo que esteja constitutivo, algo que esteja construído e possível para as pessoas que convivemos no meio educacional e que precisamos transformar as vidas”, explica o professor.

Porém, existe um grande problema humanístico, especialmente dentro do ambiente acadêmico, que é o de abrir os olhos dos alunos para a importância dos textos complexos. Essas são leituras nada mais são que textos densos e carregados de termos técnicos específicos para uma determinada área; o desinteresse, segundo Matheus, advém do ensino médio.

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“Le Métier d’Étudiant: l’entrée dans la vie universitaire”, de Alain Coulon

Segundo o doutor em psicologia, o desinteresse pela leitura e a dificuldade na escrita são os grandes gargalos da educação brasileira. A obra do sociólogo francês Coulon, analisa como se dá a afiliação ou o abandono de estudantes universitários franceses, considerando também a transição do ensino médio para o universitário. 

O livro também traz experiências bem-sucedidas de aprendizagem no contexto acadêmico e, por isso, acompanhou Matheus durante sua trajetória como professor de psicologia. A partir de uma dessas experiências do livro, ele viu a oportunidade de resolver o problema humanístico dos textos acadêmicos.

“Eu me deparei com esse livro e o experimento que o autor Coulon fez, achei extremamente extraordinário para a época, porque ele pegou sua turma de 1° período de sociologia e pediu para que todos os alunos escrevessem um diário sobre as suas experiências acadêmicas, aquilo se tornou uma poderosa estratégia de expressão”, relembra.

Outros ensinamentos também foram bem aproveitados em suas aulas: “O livro traz no cerne esse momento de transformação do estudante, no qual ele é requerido a aprender fundamentalmente três coisas extremamente importantes: a ler do ponto de vista acadêmico, a escrever do ponto de vista acadêmico e a pensar”.

“The Work of Art in the World: Civic Agency and Public Humanities”, de Doris Sommer

Doris Sommer,  estudiosa de literatura e professora de Harvard, foi uma das pessoas com quem Matheus teve contato durante sua jornada internacional. O primeiro encontro entre os dois aconteceu em uma cafeteria para conversar sobre humanidades, artes e educação.

“Essa conversa foi meio que um push profundo na minha mente, porque daquele momento em diante eu passei a ver as coisas de uma maneira completamente diferente para buscar constituir programas que pudessem fazer transformações dos alunos e pudessem mudar vidas. Ela me falou desse livro, o The Work of Art in the (O Trabalho da Arte no Mundo), que mostra diferentes perspectivas de utilidades do uso das humanidades em programas e como esses programas, tanto de políticas públicas, como educacionais promoveu profundas transformações na vida das pessoas”, relembra.

A escrita como processo terapêutico

Dentro do ambiente acadêmico, a escrita é um elemento essencial para uma boa formação. Com um pouco de criatividade, Matheus apropriou-se dessa habilidade inata para se transformar também um escritor. “Passei a escrever crônicas no jornal, que era uma coisa até um tanto quanto atípica, as pessoas geralmente escrevem artigos de opinião e eu comecei a escrever crônicas centradas em histórias de vida”.

“Qual era o meu maior objetivo quando comecei a escrever em jornal? Era fazer uma fuga do pessimismo acadêmico, eu já sei que o mundo está difícil, ruim, que estamos no meio de uma pandemia […] para que a gente possa fazer uma interpretação que nos permita, que nos guie, para uma outra possibilidade de futuro”. 

Essa fuga do pensamento acadêmico, buscada por Matheus, é alicerçada em três premissas, descritas no livro de Doris Sommer:

  1. A arte vive no mundo para perturbar os arranjos existentes – questionar aquilo que nos toca;
  2. Os humanistas que rastreiam essas perturbações também têm a capacidade de incitar mais arte;
  3. É importante entender a sua condição de educador em um em que os arranjos atuais podem ser cruéis, mas parecerem naturais.

O seu conselho para os educadores brasileiros, é encarar a escrita como um ato de transformação criativa. “É preciso entender as contradições que vivemos enquanto educadores, por mais que a gente olhe para a educação brasileira, vemos diversos desafios e a escrita permite essa transformação criativa”.

Protocolo Pre-Text: leitura, inovação e cidadania

Viagens internacionais, explorações e leituras – muitas leituras – resultaram no Pre-Texs, “ a experiência mais profunda de transformação da vida das pessoas”, como define Matheus. O aplicativo concebido por Doris e criado a partir do pensamento de vários educadores, inclusive brasileiros que são expoentes acadêmicos no exterior, é uma técnica para tornar o aprendizado mais divertido, desafiador e encorajar os estudantes a lerem mais.

Trata-se de uma metodologia de ação pedagógica baseada em três etapas:

  1. Um texto exigente e desafiador;
  2. Os alunos o usam como material de aula para fazer arte;
  3. Todos refletem conjuntamente sobre “o que fizemos?”

Esse protocolo pode ser adaptado a qualquer currículo e cultura, se ajustando a todos os níveis de aprendizagem. Matheus explica como o utiliza em sala de aula para solucionar o problema dos textos complexos:

“Trabalhamos sempre com texto desafiador e através desse texto a gente faz arte com algum tipo de material, além de sempre fazemos um processo profundo de reflexão a partir não do que nós lemos, mas a partir do que nós fizemos, ou seja, a partir daquele senso de agir, aquele senso de você ter propriedade sobre um determinado texto. Esse também é um convite para brincar de várias formas e perspectivas de interpretação, um convite para fazer avançar a aprendizagem, criatividade e a compreensão de múltiplos processos.”

O protocolo é utilizado em escolas de todo o mundo, até mesmo no Brasil. Matheus é uma das pessoas que lidera o projeto de expansão da ferramenta no país e atua como facilitador capacitando professores por meio de oficinas de desenvolvimento profissional. Mesmo com a pandemia, o projeto segue ativo, mas agora com encontros e capacitações online. 

Assista a palestra completa:

O que os educadores do Brasil podem aprender com as experiências internacionais hoje?

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