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A pandemia causou no Brasil uma crise sanitária, financeira e social sem precedentes, e após seis meses ainda sentimos seus impactos. Por outro lado, ela fomentou mudanças e inovações na educação, como uso de tecnologias e mídias massivas (TV e rádio) por escolas e governos para dar continuidade ao processo de ensino-aprendizado em casa.

Como sugere o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a educação na pandemia, publicado em agosto deste ano, essa também é uma oportunidade de repensar as políticas educacionais. O documento destaca que essas mudanças devem, principalmente, buscar fornecer uma educação de mais qualidade com atenção à equidade.

May Taherzadeh, cineasta inglesa e diretora do premiado curta-metragem “Mercy’s Blessing” (Uma Escolha), acredita que cada pessoa pode protagonizar em seus espaços uma mudança social, e as artes em geral – cinema, música, teatro, etc. – têm um papel fundamental nisso.

“Quando a gente consegue utilizar o poder da arte, algo nisso toca diretamente nosso coração, e quando nosso coração é atingido e ele se abre, a gente consegue ter uma probabilidade muito maior de adotar uma nova atitude, ou de adotar uma nova perspectiva, ou até mesmo de começar a ter um comportamento novo”.

May ainda aconselha que pais e educadores, respectivamente, em casa e na escola, tenham um diálogo mais aberto com as crianças e os jovens. Segundo ela, esse é o momento de ter conversas conscientes sobre assuntos extremamente desafiadores, como racismo, violência doméstica, homofobia e desigualdades sociais.

 

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80 anos do teste das bonecas: qual a nova percepção das crianças sobre o racismo?

Como sua escola aborda questões raciais? O tema só se faz presentes em datas comemorativas, como 13 maio e 20 de novembro, ou é contextualizado com a realidade dos alunos de forma interdisciplinar?

Para mostrar a importância do diálogo sobre o tema, May Taherzadeh relembra o experimento psicológico do “Teste das bonecas”, realizado em 1940 pelos psicólogos Dr. Kenneth e Dra. Mamie Clark, em Nova York. Ele foi um marco na luta contra a supremacia branca nos EUA, dando fim às escolas exclusivas para crianças afro-americanas. 

A proposta do experimento era observar o efeito psicológico da segregação nas crianças de famílias afro-americanas. Para isso, os psicólogos exibiram bonecas brancas e negras para crianças com idades entre 3 e 7 anos e, em seguida, eles fizeram alguns pedidos:

  1. Me dê a boneca com que você mais gosta de brincar;
  2. Me dê a boneca que é a mais legal;
  3. Me dê a boneca que parece má;
  4. Me dê a boneca que tem uma cor legal;
  5. Me dê a boneca que se parece com uma criança branca;
  6. Me dê a boneca que se parece com uma criança de cor;
  7. Me dê a boneca que se parece com uma criança negra;
  8. Me dê a boneca que se parece com você. 

Entre os resultados mais interessantes, 59% das crianças consideraram a boneca negra má (pergunta 3); 59% elegeram a branca mais legal (pergunta 2); 67% preferiam brincar com a boneca branca (pergunta 1) e apenas 66% dessas crianças se identificavam com a boneca negra (pergunta 8).

Há poucos anos o teste das bonecas foi realizado novamente na Holanda, onde May Taherzadeh mora, agora com crianças por volta dos 6 anos de idade. Nessa nova versão, elas precisaram identificar quais das bonecas eram chefes, inteligentes, boazinhas, malvadas, entre outras características.

As perguntas mudaram, mas as respostas, praticamente, não. A maioria das crianças respondeu, mais uma vez, que a boneca branca era inteligente e a boneca negra malvada. Além disso, as respostas das crianças foram compartilhadas com os pais, que ficaram surpresos com os resultados por afirmarem que não são racistas ou não discutem em casa questões raciais.

Mas será que não falar sobre racismo é a melhor opção? Pelo visto, não. “Muito embora as coisas agora estejam mudando um pouco, pensem nos livros que nós lemos e nas mensagens que recebemos. Os psicólogos já falaram como é importante para mudar essa narrativa, para mudar a mentalidade, que a gente comece a ter conversas conscientes”, comenta May.

Ainda de acordo com a cineasta, essas conversas devem ser estimuladas em um ambiente adequado para isso, de modo que os jovens se sintam seguros para falar e serem ouvidos. Sendo a escola e o lar, por exemplo, os ambientes mais ideais.

Ela também afirma que “Uma das formas de fazer isso é quando a gente consegue utilizar o poder do cinema e o poder das artes para inspirar as pessoas, seja por meio de música, filme, teatro, e por aí vai, e quando a gente consegue utilizar o poder da arte, algo nisso toca diretamente nosso coração”.

 

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Como a arte pode inspirar mudanças

De acordo com o relatório da ONU sobre educação, cerca de 40% dos países mais pobres não conseguiram oferecer suporte aos alunos durante a pandemia. Com o fechamento das escolas, não só o aprendizado foi comprometido, mas as meninas, principalmente, tornaram-se mais vulneráveis a abusos, violência doméstica e casamentos forçados. 

Infelizmente, essa não é uma situação recente, e no curta metragem “Uma Escolha”, lançado em 2017, May Taherzadeh consegue retratar de forma bem clara e humanizada a história dos irmão Mercy e Blessings que vêm educação a oportunidade de mudar de vida.

Mercy e Blessings vivem em uma comunidade no Malawi, um dos países mais pobres e com as maiores taxas de casamento infantil do mundo. Apesar de frequentarem a escola, os personagens esbarram em vários percalços para darem continuidade aos estudos, a começar pela pobreza extrema até esbarrar no privilégio educacional. 

O curta que tem o apoio da ONU, Unicef, Unfpa e Bambinos Foundation MW já foi premiado em mais de 12 festivais internacionais de cinema. Atualmente, o filme faz parte do currículo de várias escolas e universidades do mundo, estimulando o debate em sala de aula sobre igualdade de gênero, mudanças sociais e privilégios.

 

Leve as lições do curta “Uma escolha” para a sua escola!

“Por meio do poder da arte, nós podemos ajudar os jovens a defenderem a justiça, nós podemos ajudá-los a começarem a ser protagonistas da própria vida e da vida dos outros, inspirando a mudança social”, essa é a mensagem de incentivo de May Taherzadeh.

Para inspirar essa mudança, May disponibiliza para educadores, pais ou promotores de grupos da juventude acesso ao filme e a um kit de materiais para guiar as discussões entre crianças e jovens. Os conteúdos são divididos em três níveis, adequados para diferentes níveis de compreensão.

O kit é composto por um conjunto de perguntas, um guia para orientadores, fatos relevantes sobre o Malawi e outros materiais de apoio. Clique aqui para baixar gratuitamente o seu kit.

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