Relação escola-família: novas expectativas e novas soluções
Desafios Contemporâneos

Relação escola-família: novas expectativas e novas soluções

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Idealmente, a escola e a família trabalham juntas, como um time, para fornecer à uma criança um desenvolvimento pleno e saudável; tanto em quesitos educacionais quanto comportamentais e sociais. Mas hoje em dia, em um mundo onde tudo está mudando constantemente, como fazer para ajustar essas técnicas conjuntas de modo adequado para nosso tempo? 

O especialista Yan Navarro, Diretor Acadêmico da Rede Luminova, aponta que as famílias vêm mudando e trazendo junto a elas novas expectativas e necessidades. Navarro – que também é doutor em Didáticas Específicas pela Universidade de Valência na Espanha e doutor em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – explica que um dos fatores é “demográfico e social”: para famílias menores e nas quais os pais trabalham mais horas, a escola acaba se tornando ainda mais essencial. “Então, a escola acaba sendo a principal rede de apoio, a família precisa confiar nesta escola, e a escola precisa dar este espaço para a família”, diz. 

O “novo normal” 

Segundo Navarro, para que essa confiança seja forjada, as soluções para essas demandas precisam ser bem pensadas e bem expressadas aos pais. Mesmo agora durante a pandemia, quando as aulas acontecem em casa, os tipos de projetos que serão feitos com as crianças têm que ficar claros para os responsáveis. Talvez especialmente durante esse período, já que, de acordo com o diretor, a necessidade de adaptação desde o começo da quarentena exigiu uma aproximação mais rápida entre as famílias e as escolas, apesar da distância física. 

 

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“Parece paradoxal, na verdade é exatamente isso, e hoje, em junho de 2021, nós temos que fazer uma pergunta: será que as famílias vão aceitar voltar ao que nós chamamos de normal?”, questiona Navarro. Para ele, a resposta é não: isso porque agora as famílias perceberam um novo modelo de relação com a escola, onde existe uma aproximação muito maior com os professores, orientadores e coordenadores que supera o esquema de reuniões cerca de três vezes por ano com qual estávamos acostumados. Além disso, o processo de aprendizagem também se beneficia desse novo modelo, já que a família é capaz de estar mais envolvida no ensino da criança. “Essa dinâmica é muito importante, a escola tem que agir para a mudança, ela tem que entender que o mundo mudou, e entender isso rapidamente”, afirma.

Perceber e entender as inevitáveis mudanças que vêm com diferentes contextos é essencial para poder planejar de acordo. Para a adaptação ao ambiente online, por exemplo, não adianta apenas fornecer acesso à tecnologia aos alunos; também é necessário ter certeza que todo o time da escola entenda as exigências do momento e como atendê-las. O treinamento da equipe é necessário para que a família ainda receba toda a atenção necessária, mesmo que à distância. 

A importância da comunicação entre escola e família

A escola tem uma responsabilidade muito grande tanto quanto à comunidade quanto aos pais que confiam seus filhos à ela, e comunicar de forma transparente as propostas pedagógicas e os valores da instituição faz parte do processo de se mostrar confiável. Problemas de comunicação podem acabar em decepção e frustração, principalmente considerando que se os pais têm uma expectativa de educação tradicional como a que tiveram quando crianças, podem enfrentar dificuldade em reconhecer a validade de novas atividades pedagógicas. 

Navarro comenta que as tensões vindas da mudança súbita ao ambiente online, apesar de causarem estresses – como o pai tendo que trabalhar remotamente enquanto o filho tem aula, ou a perda de emprego de um dos responsáveis – também resultaram em algumas oportunidades; inclusive aumentando o envolvimento da família na educação e a valorização pela escola. “Agora que a escola está dentro da nossa casa, o pai começa a olhar e pensar: por que o meu filho está aprendendo isso? Por que essa matéria está sendo dada desta forma?”, diz o diretor. “Então, você começa a ter essa colaboração que muitas vezes começou de uma forma tensa – algumas famílias demoraram um pouco a entender como seria essa relação entre a comunidade escolar e as famílias, e as escolas foram criando formas de se aproximar das famílias também”.

Como um exemplo de um modo em que a escola pôde conhecer melhor a comunidade ao seu redor e adaptar atividades ao momento atual, Navarro menciona o Lumina Festival: se trata de um festival onde os alunos apresentaram seus trabalhos e suas atividades recentes virtualmente, e onde os pais, por sua vez, tiveram a oportunidade de expor seus produtos e negócios – possivelmente tendo a chance de contatar outros pais empreendedores. “Tudo isso foi trabalhado junto com a escola”, afirma.  “Foi de uma riqueza tão grande, porque os pais se sentiram acolhidos pela escola, passaram a entender de fato que a escola está ali para eles também”.

Para Navarro, não adianta esperar que as coisas “voltem ao normal” depois da pandemia, porque o normal que conhecíamos não vai mais existir. A crise mudou o comportamento de todos, e o “novo normal” – que segundo o diretor “não será nem o que era antes, nem o que nós temos hoje, mas  um híbrido das duas coisas” – vai trazer consigo novas expectativas e novos jeitos de olhar a escola. 

Criando uma marca com valores fortes e constantes

Mais do que atender às expectativas da família, a escola deve excedê-las – é isso que acredita Navarro, que reforça: “os valores da escola tem que estar impregnados desde a pessoa que abre a porta, até a secretária que vai receber, a coordenadora e a orientadora pedagógica, os professores”. Ou seja, o time inteiro da escola “tem que estar caminhando para um lugar só”. Quanto mais a escola estiver conectada com seus valores e ideais – que foram, inclusive, pelo menos parte do motivo pelo qual os pais colocaram seus filhos naquela instituição – mais as pessoas terão vontade de fazer parte da marca. Passar sua mensagem de forma clara é uma tarefa que deve ser realizada em vários âmbitos, inclusive no de marketing e comunicação. Navarro acrescenta que pode ser beneficial, no caso de algumas escolas, contratar profissionais especializados para garantir que sua imagem seja divulgada da melhor maneira possível.

Escola-aluno-família: uma relação em que devemos investir

O centro das ideias de Navarro, portanto, é a junção de empatia, transparência e comunicação: as escolas devem ser “obcecadas pelas necessidades das famílias”, compreendendo suas dores e preocupações, ao mesmo tempo em que mantém a humildade e horizontalidade; “não é porque você é o dono da escola que você sabe tudo, vamos ouvir os colaboradores”, afirma. “Às vezes, a pessoa que trabalha lá na entrada tem uma solução muito melhor do que a que você tem dentro da sua sala com ar condicionado”. 

A real integração entre escola, aluno e família exige esforço e pode ser o caminho mais difícil, mas é também o que mais vale a pena. Afinal, é só assim que a escola será capaz de cumprir seu papel de educar não apenas alunos individuais, mas de transformar a sociedade. 

 

Confira a palestra completa:

Quais as novas tendências da relação escola-família?

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