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Especialistas em educação aconselham ter cautela na análise da oferta de educação híbrida no Brasil. A recomendação é que o ensino remoto seja visto como complementar ao presencial, possibilitando enriquecer o aprendizado dos estudantes do ensino básico. Para esses profissionais, é necessário cuidado para não confundir híbrido com remoto.

O assunto é tema de um projeto de lei, que foi discutido nesta segunda-feira (25) pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, onde está em análise.

A proposta permite a adoção, no ensino médio, da educação híbrida, caracterizada por momentos presenciais e remotos com a utilização pedagógica de tecnologias digitais. Conforme o texto, em períodos de emergência, a educação híbrida também poderá ser adotada na educação infantil e no ensino fundamental.

Complemento
A ideia de metodologias híbridas, segundo a presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Maria Helena Guimarães Castro, está presente em documentos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Segundo ela, não se trata de uma modalidade, mas de um recurso a mais, que não elimina as atividades presenciais. Deve, em vez disso, permitir a ampliação do tempo de aprendizado dos estudantes, sendo complementar ao ensino presencial.

“Na educação básica, as escolas podem ampliar o tempo de aprendizagem dos alunos. Escolas que hoje têm quatro, cinco horas por dia, poderão oferecer seis, sete horas por dia por meio de atividades híbridas complementares, com mediação tecnológica e interação pedagógica dos professores. Isso vai enriquecer, melhorar a qualidade da educação básica brasileira”, apostou Maria Helena.

Na avaliação do presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Garcia, a proposição precisa deixar claro o que se trata por ensino híbrido. Ele chamou a atenção para o fato de que não se deve simplesmente reproduzir uma aula presencial e o aluno acessar de casa.

“Importante que essas ações sejam somadas a um planejamento pedagógico forte, consistente. É importante que as ações desenvolvidas em casa tenham orientação e acompanhamento para que se efetive o processo de educação híbrida”, ressaltou Garcia.

Já o conselheiro da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) Ricardo Furtado alertou que ensino híbrido não pode ser um novo nome para ensino a distância. “O ensino híbrido como complementariedade ao ensino presencial será bem-vindo. A nossa maior preocupação está com a qualidade do ensino, quais os critérios que serão definidos para que as escolas estejam formando pessoas para inserção na sociedade, no mercado”, disse Furtado. “Caso esse projeto venha a ser aprovado, que o relatório estabeleça critérios, para que não venhamos a ter mais prejuízos na educação no País”, disse.

Representante do Instituto Educatores, que reúne ex-secretários de Educação, Natalino Uggioni acrescentou que a aprendizagem vem sobretudo da interação com o professor. “A tecnologia sozinha não vai ajudar a resolver tudo. Ela deve estar a serviço. A grande diferença está nos gestores e nos professores, sem esquecer o acompanhamento da família”, afirmou.

Uggioni sugeriu ainda não amarrar, no projeto, carga horária da educação remota, deixando as escolas livres para definir quanto tempo será presencial e quanto tempo será remoto, “para fazer mais e melhor para além do tempo de aula”.

Tecnologia
Um obstáculo apontado para a materialização do ensino híbrido no Brasil é o acesso à internet e às tecnologias no Brasil. Luiz Miguel Garcia apontou o baixo acesso nas camadas mais pobres da população e ainda nas regiões Norte e Nordeste. Dados citados por ele indicam que menos da metade das escolas ensino médio de Acre e Roraima possuíam acesso à internet banda larga em 2020.

“Para que a gente possa de fato ter condições de fazer educação híbrida, devemos oferecer recursos pelo menos no ambiente escolar, para que possam ser utilizados também pelo aluno no contraturno, para se pensar em plataformas que descarreguem conteúdo”, observou Garcia.

Ele disse, por outro lado, que a educação híbrida pode acontecer de diversas formas, sem necessariamente ser mediada pela internet. “Pode acontecer com orientação em sala de aula e parte dela fora de aula, com o aluno sendo protagonista desse processo”, exemplificou.

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