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Conseguir a interação dos alunos é um dos principais desafios enfrentados pelos docentes durante as aulas no ensino remoto. A informação faz parte do levantamento do SerProf, da Kanttum, empresa de tecnologia com foco em educação, especializada em formação continuada para professores, instituições de ensino e empresas. De acordo com a pesquisa, 20% das aulas analisadas ainda se apoiam na participação oral dos alunos como principal ferramenta para promover interação. 

Para a educadora Sibele Lange, que é líder em formação  docente, especialista em designer educacional e mestra em indústria criativa, é preciso lembrar que o ensino remoto também é desafiador para os estudantes, pois exige deles organização e pré-disposição.  

Por outro, a educadora afirma que a didática do professor tem sido uma das maiores reclamações de alunos. “O professor teve que se reinventar e muitos ainda insistem em reproduzir suas aulas presenciais no universo on-line. Nesse sentido, o professor tem papel importantíssimo, pois os alunos podem acabar desmotivados e não quererem seguir assistindo às aulas. O reflexo disso será visto lá adiante, nos anos seguintes”, afirma Sibele. 

De acordo com a professora de história e psicopedagoga Daniela Torres, a pandemia acelerou uma mudança que era necessária na educação. “Em pleno século 21, as aulas aconteciam como se estivessem no século 18. Escola, professores, alunos e famílias acreditavam que esse modelo era o ideal. Então, quando as aulas ficaram remotas, os alunos perderam o referencial físico/presencial de poder, o que ocasionou a sensação de que as aulas não estavam acontecendo e nem gerando aprendizagem. Os professores também ficaram perdidos, sem saber como fazer as coisas darem certo”, ressalta.

Docente em Salvador, Daniela conta que realizou diversas pesquisas e cursos para conseguir superar a falta de interação. “Mil sites dizem que o aluno não interage na aula online porque tem vergonha de abrir a câmera e mostrar seu rosto ou a casa, ou que tem vergonha de falar e expor suas ideias na internet e mais um monte de bobagem. Falo que é bobagem, porque a maior parte desses jovens que não interage nas aulas se expõem nas redes sociais. O que vejo ao analisar a escola de qual eles saíram antes da pandemia, é que passamos a vida inteira controlando a participação desses estudantes e agora queremos que, do dia para noite, sejam protagonistas da própria aprendizagem”, reflete.

Professores devem buscar estratégias para conseguir participação dos alunos

Para superar esse desafio, alguns recursos de podem (e devem) ser mais explorados pelos docentes, como o uso do chat, a ativação das câmeras, utilização de ferramentas que permitem a edição colaborativa de textos, uso intencional de mídias sociais e as salas simultâneas.

Na busca por caminhos para despertar a participação dos alunos e alunas, a recomendação da educadora Sibele é para os professores diversificarem os recursos que serão apresentados aos alunos. “Pense em todos os ‘estilos de aprendizagem’ dos estudantes, pois quanto mais diversificado for os materiais, melhor será a experiência deles Organize pastas no seu desktop, somente com vídeos, outra com jogos, outra com podcasts, separado pelos conteúdos”, sugere a educadora Sibele Lange.

Durante o planejamento do professor, vale refletir sobre qual o objetivo da aula e quais competências serão desenvolvidas. “Pense como esse conteúdo será apresentado e qual conhecimento prévio este estudante precisa ter. Usar a arte, a música, a fotografia ou qualquer outro domínio pode tornar a aula mais criativa”, pontua Sibele. 

A professora de história e psicopedagoga Daniela Torres acredita que as redes sociais também devem ser utilizadas a favor da educação e da aprendizagem. “não podemos negar essas plataformas em pleno século 21. Seja presente nas redes sociais, faça post sobre curiosidades, fatos interessantes, coisas que acredita que os alunos deveriam ler”, indica.

Deixar as aulas expositivas, procurando colocar o aluno no centro do processo, também pode ser uma alternativa para aumentar a participação na aula. “Ao invés de usar apresentação no PowerPoint, abra um jamboard colaborativo e peça para cada aluno escrever uma frase ou colar uma imagem sobre determinado tema. Permita que eles pesquisem na internet para que se sintam seguros em participar. A partir daí, comece a falar e organizar o pensamento coletivo e aos poucos vai perceber que as aulas expositivas ficaram no passado”, exemplifica Daniela. 

Pesquisa ainda traz mais quatro dificuldades vividas pelos docentes no ensino remoto

O levantamento SerProf, da Kanttum, apontou ainda mais quatro desafios que têm sido vivenciados pelos professores durante o ensino remoto, sendo eles: avaliação da aprendizagem, autonomia do aluno, atividades desenvolvidas na aula online e organização da aula. Para chegar nesse resultado, foram compilados os dados de 450 aulas e de 175 professores. A pesquisa foi realizada entre março e novembro de 2020, em diferentes regiões do país;

“Os dados levantados nos permitem obter insights importantes a respeito dessa experiência tão singular vivida pelos educadores e podem nos apontar caminhos para a educação ainda em 2021 e anos vindouros”, afirma Ana Maria Menezes, head pedagógica da Kanttum.

Sobre a avaliação da aprendizagem, foi indicada como um espaço de melhoria na prática pedagógica do professor em 34% das aulas observadas. A sugestão de Ana Maria é para os professores ampliarem a visão de avaliação para além das provas e trabalhos ao final das unidades de estudo e partir para um acompanhamento mais contínuo. 

“Essa é uma dificuldade de virada de chave que o educador já enfrentava mesmo no contexto presencial. Nas aulas online, é necessário que ele adicione momentos de checkpoint ao planejamento, possibilitando observar o que e como os alunos estão aprendendo”, indica.

Na questão da autonomia do aluno, a profissional acredita que é preciso criar condições para que o aluno exerça uma liberdade responsável, participando efetivamente da construção do próprio conhecimento. Essa habilidade é citada de forma recorrente na descrição das competências gerais para a educação básica propostas pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), já que é fundamental para a criança, no futuro, possa atuar em cenários complexos e em constante transformação. 

Incentivar esse autogoverno, no entanto, é uma dificuldade apontada em 33% das aulas. “Os educadores ainda precisam sistematizar práticas pedagógicas que possibilitem o maior desenvolvimento de autonomia pelos alunos, como oferecer mais opções de escolhas significativas, fortalecer a autoconfiança deles para que possam tentar novas opções sem a culpa do erro, permitir que expressem suas opiniões e necessidades e pesquisem temáticas diferentes das propostas pelo material didático”, opina.

Outro aspecto apontado ainda como um desafio por 22% dos educadores são as atividades desenvolvidas nas aulas online. Antes da pandemia, a utilização de recursos digitais na educação era rotineira apenas a uma pequena parcela de instituições brasileiras. Com o fechamento repentino das escolas e a constatação de que o modelo transmissionista não consegue manter os alunos engajados à distância, os educadores têm aprendido, na prática, como tornar as aulas remotas mais interessantes e efetivas por meio das ferramentas digitais. Por fim, 20% dos educadores ainda citam como desafio a adaptação e a organização das aulas online, utilizando recursos virtuais. 

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