Ensino híbrido inovador: como transformar sua escola?
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Ensino híbrido inovador: como transformar sua escola?

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Embora as discussões sobre o ensino híbrido no Brasil tenham ganhado força no último ano, o Ministério da Educação (MEC), em 2014, já fazia estudos sobre a expansão da educação a distância (EaD) na educação superior e mencionara o ensino híbrido como uma inovação. Desde então, de forma muito tímida, essa metodologia de ensino passou a integrar o currículo de algumas escolas e faculdades.

Contudo, o modelo de ensino híbrido adotado no Brasil ainda segue uma linha clássica, nada inovadora, que usualmente é baseada na entrega de conteúdo com fins de certificação. Um exemplo típico que acontece nas faculdades são as aulas presenciais, onde os alunos interagem com aparatos tecnológicos (celulares, tablets, notebooks, etc), transitando seja entre os ambientes físico e digital.

“Este arranjo, embora híbrido, não tem nada de inovador. Ele tem equipamentos tecnológicos, mas ele ainda é um engenho de entregar, como acontece há muitas dezenas de anos, conteúdos com fins de certificação usando disciplinamento. Na psicologia chamamos de heteronomia, um disciplinamento que vem de fora, não um processo de construção autônoma do sujeito”, explica Luciano Meira, sócio-fundador da Joy Street.

Mas com a pandemia e a consequente adoção do ensino remoto emergencial, a educação que conhecíamos precisou ser repensada. Na visão de Luciano, que também é Ph.D. em educação matemática e mestre em psicologia cognitiva, esta é uma oportunidade de inovar a engenharia didática da escola que contempla o ensino híbrido.

 

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Para se pensar em ensino híbrido, antes de tudo, é preciso dar um passo atrás e avaliar como ocorreu a entrega do ensino remoto. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Península, ainda em 2020, propôs avaliar a percepção dos educadores brasileiros em cada um dos estágios na pandemia dentro de um período de quatro meses.

Uma das inferência obtidas através da pesquisa, diz respeito ao papel dos professores nos primeiros meses de pandemia. Eles consideraram como principais responsabilidades: se manter em casa cuidado de si e seus familiares (66%), ajudar a disseminar informações seguras (66%) e interagir remotamente com seus alunos (50%).

Já em relação à rotina e os hábitos, mais de 70% dos docentes precisaram mudar muito ou totalmente suas rotinas pessoais e profissionais. Entre as atividades que compuseram essa nova rotina estavam: estudar (60%) – o que inclui preparar aulas, faculdade e cursos online-, assistir a streamings (40%), navegar em sites de notícias (40%) e ouvir podcasts (8%).

De acordo com Luciano, a pesquisa revela que os profissionais aproveitaram este momento para imergir em suas próprias aprendizagens. E independente da porcentagem, essa mudança de comportamento é extremamente importante, uma vez que essa imersão permite que os professores penetrem no mundo dos seus alunos, que já são nativos digitais.

E quem estava do outro lado da tela, no caso das crianças, quais foram os impactos do ensino remoto? Ao menos a pesquisa “Learning inequality during the COVID-19 pandemic”, realizada em outubro de 2020, na Holanda, indica que a troca de ambientes – do presencial para o digital – sem nenhum tipo de inovação didática, causou uma perda considerável no desempenho cognitivo e da performance acadêmica.

Estima-se que essa perda foi equivalente a um quinto do ano letivo, que é um número proporcional à quantidade de semanas fora das salas. O impacto chega a ser 55% maior  entre estudantes de famílias com menos escolaridade, isto é, famílias que não conseguiam apoiar suficientemente suas crianças durante o ensino remoto.

“Veja, a transposição simplória do formato tradicional da sala de aula apenas para uma plataforma remota provocou essa perda média do desempenho cognitivo […] Mesmo quando não é híbrido, mas quando se trata apenas de uma transposição desse arranjo que eu estava descrevendo agora, cuja ênfase é apenas na entrega de conteúdo, os resultados são muito menos satisfatórios do que nós gostaríamos”, declara Luciano.

Como estimular a autonomia e aprendizagem colaborativa

Construir um ensino híbrido inovador, de fato, não é uma tarefa simples. O próprio sócio-fundador da Joy Street reconhece que há impossibilidades de interação das atividades acadêmicas presenciais com artefatos digitais. Porém, ele também afirma que existem formas de mudar esse arranjo social da escola clássica e traz como referências Mitchel Resnick e John Dewey. 

Em seu livro “Jardim de Infância para a Vida Toda”, o professor Mitchel Resnick propõe a construção de cenários significativos de aprendizagem com objetivo de provocar a imersão engajada dos estudantes. Nesse contexto, eles são estimulados a resolver desafios complexos e a tomar decisões por meio da colaboração; tudo isso dentro de um sistema de avaliação por competências, e não mais com certificações clássicas. 

Já John Dewey, desde o século passado, já propunha a união da teoria com a prática no ensino. Em uma das suas falas mais emblemáticas, ele diz: “Dê aos estudantes algo para fazer, não algo para aprender, a natureza do fazer demandará pensamento; a aprendizagem é uma resultante desse processo”.

Um exemplo exitoso de aprendizagem colaborativa, mediada por plataformas digitais, é a Summit Public Schools, uma rede de escolas públicas dos Estados Unidos. Uma das suas unidades, a Summit Tahoma, localizada na Califórnia, conseguiu superar a média nacional de aprovação no ensino superior, que é de 46%, fazendo com que 99% dos estudantes ascendessem ao ensino superior a partir do ensino médio que é feito lá.

Na Summit Tahoma, os estudantes resolvem diariamente problemas do mundo real e são estimulados a desenvolver habilidades de autodireção, colaboração e reflexão. Nas aulas de matemática, por exemplo, eles recebem uma playlist de problemas a serem resolvidos de forma colaborativa, mas também  através de estudos individuais.

Posteriormente, essa playlist de problemas gera um conjunto de dados que mostram a evolução da performance dos estudantes a partir de um mapeamento de competências e habilidades. Ao serem identificados os pontos de melhoria desses estudantes, eles são convidados a assistir uma aula específica.

 “É aula para quem precisa de aula. Todos trabalham, mas só vai para a aula, que na verdade é uma mentoria para resolução de problemas”, ressalta Luciano.

Iniciativas para um ensino híbrido inovador no Brasil

Desde o fechamento inicial das escolas no Brasil surgiram várias iniciativas com objetivo de promover esse rearranjo e, ao mesmo tempo, manter os estudantes engajados. Uma dessas iniciativas, precisamente do governo do Estado de São Paulo, é o “Guia do Ensino Hibrído”.

O documento apresenta esclarecimentos e sugestões para fortalecer a interação entre professores e estudantes durante o revezamento. Para facilitar a leitura, é apresentado um mini planejamento em formato de passo a passo:

  • 1º passo: definir o sequenciamento das aprendizagens (habilidades e competências) que deverão ser trabalhadas com todos os estudantes para cada período;
  • 2º passo: planejar como garantir essas aprendizagens para todos os estudantes naquele período;
  • 3º passo: organizar o cronograma de atividades do professor, com divisão clara do tempo que será destinado às atividades presenciais e remota;
  • 4º passo: alinhar as atividades com as aulas do Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP).

Quem também se propõe a aumentar o engajamento de alunos, bem como de educadores, é a Joy Street, empresa de tecnologias educacionais lúdicas fundada por Luciano. Uma das suas soluções, as Olimpíadas de Jogos Digitais e Educação (OJE), funciona como uma gincana virtual colaborativa, onde os alunos participam de torneios online com jogos.

“O OJE é um tipo de engajamento que nós geramos com “gamificação” e jogos digitais que tematizam as competências da BNCC. Inclusive fazendo a interação entre o trânsito na plataforma digital, porque nós lançamos desafios que só podem ser realizados através do estudo do livro didático na sala de aula”, explica Luciano.

Ele ainda afirma que esse tipo de diálogo, entre o físico e o digital, pode ser feito por qualquer escola, mesmo que não seja de forma híbrida. Para tal, é necessário a experiência de aprendizagem deve ser colocada como instrumento fundante do processo de escolarização dos estudantes.

 

Assista à palestra completa:

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