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O Novo Ensino Médio entrou em vigor oficialmente neste ano, apesar da publicação da Lei 13.415, que institui essa nova modalidade de ensino, ter sido realizada em fevereiro de 2017. E depois de mais de cinco anos de prazo para adequação, ainda pairam dúvidas na comunidade escolar quanto a essas alterações. Afinal, o que você e sua escola ainda precisam saber sobre o novo ensino médio?

É importante lembrar que a transição para o novo modelo deve acontecer por etapas, começando com as turmas do 1º ano em 2022 e chegando às demais séries, de forma gradual, até 2024. Pela lei, as escolas devem ampliar a carga horária para 1,4 mil horas anuais, o que equivale a sete horas diárias. Para este ano, a exigência é que a carga horária seja de pelo menos mil horas anuais, ou cinco horas diárias, em todas as escolas de ensino médio do Brasil. 

A reformulação parte do pressuposto que o Ensino Médio é a etapa final da Educação Básica e, sendo assim, deveria estar mais focada em preparar os adolescentes para os desafios da vida e para o mundo do trabalho. Outra justificativa para essa mudança era de que apenas uma pequena parcela dos estudantes brasileiros que concluía o Ensino Médio ingressava diretamente na universidade. A grande maioria buscava oportunidades de trabalho. 

Principais alterações que você e sua escola ainda precisam saber sobre o novo ensino médio

O Novo Ensino Médio está centrado no protagonismo do aluno e na construção de seu projeto de vida, o que amplia a atratividade para os estudantes, no intuito de reduzir a evasão escolar. Com a mudança, 60% da carga horária tratam de conteúdos obrigatórios, e 40% compõem um percurso flexível, apresentado como Itinerário Formativo, que pode ser escolhido pelo próprio aluno no 1º ano.  

Neste novo ensino, apenas três matérias continuarão de modo obrigatório: Inglês, Português e Matemática. Isso não significa, no entanto, que outras disciplinas não serão estudadas, apenas que a maneira como elas serão ensinadas mudará para que o aluno possa adquirir o conhecimento de maneira mais prática e flexível.

“Diferentemente da antiga proposta em que todos tinham as mesmas disciplinas e cargas horárias, agora o aluno passa a aprofundar o conhecimento na área de seu interesse, mas sem deixar de aprender os conceitos gerais”, explica Sirlei Finotti, coordenadora pedagógica do Cezzane, colégio particular situado em Americana, interior de São Paulo.

A educadora destaca que a escola onde ela atua iniciou o Novo Ensino Médio ainda em 2021. Para isso, os professores participaram de palestras que ocorreram ainda em 2020, por meio de lives oferecidas pelo Sistema Anglo de Ensino. Segundo ela, o maior desafio para as instituições de ensino é fazer com que os alunos entendam a importância desses itinerários e como isso irá influenciar em suas escolhas futuras.  

Para Luã Marins, gerente pedagógico da Inspira Rede de Educadores, o primeiro desafio para a implantação do Novo Ensino Médio é a mudança de postura dos professores. “Com o novo modelo, eles vão precisar lidar com novo formato de ensino e abordar os conteúdos de outras formas. A formação acadêmica deles ainda é uma muito conteudista. Por isso, quando vão para a sala de aula, é comum pegarem bons exemplos que tiveram enquanto alunos, ou seja, de um modelo expositivo em que o estudante era apenas ouvinte”, explicou. 

Segundo Marins, os itinerários formativos do Novo Ensino Médio propõem um ensino diferente, mais flexível, mais adaptável ao aluno, com muitas possibilidades. “Esse mar de novidades acaba se tornando um grande desafio”, destaca.

Quer saber como incluir o ensino bilíngue no Novo Ensino Médio? Então, clique no link para acessar esse conteúdo:

Como Integrar o Ensino Bilíngue ao Novo Ensino Médio?

Entenda os itinerários formativos do novo ensino médio

O Novo Ensino Médio prevê que o conteúdo ofertado aos estudantes passará a ser organizado a partir de diferentes arranjos curriculares, conforme a relevância para a comunidade escolar de cada local e a possibilidade das instituições de ensino

Esses itinerários formativos podem se aprofundar em uma determinada área do conhecimento ou na formação técnica e profissional, além de permitir que os alunos, em um mesmo itinerário, combinem os conhecimentos de duas ou mais áreas e da formação técnica e profissional. 

Conforme previsto em lei, as escolas e os alunos terão mais autonomia, seja para as instituições desenvolverem seus currículos, seja para os estudantes definirem seus objetivos e projetos de vida. 

Diferentes educadores ressaltam que os itinerários formativos não devem ser apresentados apenas em aulas expositivas, mas estruturados em formatos mais dinâmicos, proporcionando uma participação mais ativa e engajada dos estudantes, seja por meio de grupos de estudos, oficinas, laboratórios ou projetos.

E como fica a carga horária com a mudança nessa etapa do ensino?

A carga horária do Novo Ensino Médio será dividida entre os itinerários formativos e as disciplinas obrigatórias estipuladas pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular):

– Matemáticas e suas Tecnologias; 

– Linguagens e suas Tecnologias; 

– Ciências da Natureza e suas Tecnologias; 

– Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. 

As unidades de ensino terão autonomia para estabelecer quais itinerários serão ofertados e de que forma eles serão estruturados. A formação básica deve somar 1,8 mil horas, e o restante do tempo será direcionado para os itinerários formativos, respeitando o mínimo de 1,2 mil horas. 

Ao final dos três anos de Ensino Médio, as instituições de ensino deverão emitir um certificado para os estudantes, atestando a conclusão desses itinerários ou do curso profissionalizante escolhido. No modelo anterior, que contava com 13 disciplinas fixas, a carga horária do Ensino Médio era de 2,4 mil horas. Agora, somados os tempos do conteúdo obrigatório e do itinerário formativo, serão 3 mil horas. 

De forma progressiva, o Novo Ensino Médio também prevê que todas as escolas deverão aderir ao tempo integral, com uma carga de sete horas diárias. O objetivo é permitir que o aluno participe de projetos, oficinas e práticas esportivas, sempre com o apoio de profissionais devidamente capacitados, dentro das escolas.

Eixos estruturantes do novo ensino médio

Os itinerários formativos devem ser formulados pelas escolas, levando em consideração os quatro Eixos Estruturantes definidos pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Cada itinerário deve englobar ao menos um deles: 

1 – Investigação científica: utiliza a ciência como base para a investigação da realidade e a interpretação de ideias, trazendo o conhecimento de práticas científicas e a habilidade de pensar com base metodológica para promover a melhoria da qualidade de vida da comunidade.

2 – Processos criativos: estimula os conhecimentos nos campos da arte, cultura, mídia e fazer criativo, contribuindo para a construção de experimentos e soluções inovadoras para a vida social.  

3 – Mediação e intervenção sociocultural: explora as questões relacionadas à vida humana e ao planeta, centrando na atuação socioambiental e cultural com o objetivo de mediar conflitos e solucionar problemas da comunidade. 

4 – Empreendedorismo: concentra-se no conhecimento do ambiente e no contexto de trabalho, estimulando iniciativas empreendedoras, desenvolvimento de produtos e serviços e autonomia na articulação do próprio projeto de vida, com base na criatividade, na tecnologia e na inovação.

E como fica o ensino técnico?

Para cursar uma formação técnica era necessário que o estudante cumprisse 1,2 horas, mais 2,4 mil horas regulares do Ensino Médio. Na nova proposta, o jovem pode incluir o curso técnico dentro do ensino regular, que poderá ser feito na escola ou em uma instituição de ensino parceira. Ao fim do ciclo de três anos, o aluno recebe um certificado do Ensino Médio e outro da formação técnica.

Rede Pública X Rede Privada

Para o educador Luã Marins, a maior parte das escolas privadas já cumpriam a carga horária necessária de 3 mil horas ao longo de todo o Ensino Médio, já ofereciam aulas de inglês e traziam a metodologia ativa, que prevê o protagonismo do aluno, como parte da sua matriz curricular. “Desse modo, a aplicação na rede privada deve sofrer pouca alteração pelo que temos acompanhado”, afirma.

As escolas públicas, segundo ele, costumam adotar carga horária menor e possuem questões estruturais que precisam ser adequadas. “O Brasil é amplo, diverso e cada região terá que se ajustar para conseguir oferecer as melhores oportunidades aos estudantes”, explica. 

Novo ensino médio: alunos X professores

Luã Marins também destaca que para os alunos o Novo Ensino Médio é uma oportunidade de se apropriarem dos itinerários que serão oferecidos, buscando se entregar e absorver o máximo de conteúdo possível sobre aquela temática e os temas transversais que aparecerem. Segundo ele, esse comportamento deve tornar mais assertiva a decisão desses adolescentes a respeito da profissão que pretendem seguir no futuro. 

“Para os professores é a oportunidade de ver seus alunos se desenvolvendo em outras áreas, com outras habilidades e competências. Existem habilidades e competências que não são ensinadas dentro das quatro paredes de uma sala de aula tradicional. Você não ensina ninguém a ser proativo numa aula tradicional sobre proatividade, é algo que tem que acontecer na prática”, afirma. 

7 Dicas para ajudar sua escola a implantar o novo ensino médio

Para as escolas que ainda sofrem para a implantação do Novo Ensino Médio, algumas dicas de diferentes empresas que atuam na gestão escolar são:

1- Conheça a BNCC e se informe sobre os diferentes Itinerários Formativos;

2 – Ouça alunos e comunidade e crie os itinerários de acordo com a realidade local, cultura da região e necessidade dos estudantes;

3 – Estimule diferentes formas de aprendizado, como a criação de laboratórios, oficinas e núcleos de estudo;

4 – Conheça a estrutura física da escola, assim como os horários dos professores e de utilização das salas, identificando a necessidade de eventuais alterações;

5 – Informe alunos e responsáveis, capacite professores e funcionários para as mudanças impostas pelo Novo Ensino Médio;

6 – Reformule o PPP (Projeto Político-Pedagógico) se houver necessidade, para que a escola esteja de acordo com a lei. 

7 – Avalie o orçamento da escola antes de implementar qualquer mudança, uma vez que o Novo Ensino Médio vai demandar mais tempo, recursos e atividades. Assim, essa transição seja feita de uma maneira economicamente saudável para a instituição.

Para aprofundar mais sobre esse assunto, confira também:

Novo Ensino Médio: Qual Papel do Gestor Escolar?

Estudantes demonstram satisfação com novo modelo de ensino

Embora gere receios, como qualquer outra mudança, o Novo Ensino Médio tem sido aprovado por estudantes já incluídos nesse novo modelo de ensino. Pesquisa do SESI (Serviço Social da Indústria) e do SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), promovida em 2021 com mil alunos de São Paulo e Mato Grosso do Sul, os quais já experimentavam a nova estrutura curricular, aponta que 77% estavam mais satisfeitos com a escola e 78% eram otimistas quanto ao futuro profissional. Para 86% dos alunos entrevistados, a inclusão do ensino técnico e profissional dentro do currículo era muito importante.

Confira também:

Base Nacional Comum Curricular (“BNCC”): entenda as competências a serem desenvolvidas

*Matéria atualizada em 03/05/2022, às 20:17pm

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