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O início de um novo ano traz esperança e renovação, é claro, prometendo novas tentativas e oportunidades; mas também pode trazer preocupações e medos – tanto velhos quanto novos. Isso é especialmente verdade para os profissionais da área da educação, que precisam lidar com a adaptação ao Novo Ensino Médio no meio desse contexto caótico, causado pela pandemia, pelo qual entramos em 2022.

Yan Navarro, diretor acadêmico da rede de escolas Luminova, tem conversado e tirado dúvidas a respeito do assunto, procurando acalmar famílias e alunos prestes a entrar nessa nova etapa. Primeiramente, é preciso entender do que se trata essa mudança no modelo de educação: é a lei 13.415, que alterou a LDB e ampliou o tempo mínimo do estudante na escola. Além de manter o aluno mais tempo dentro da escola, a lei também pretende tornar o ensino médio mais flexível – ou seja, o jeito de aprender começa a mudar, ainda contemplando a BNCC mas permitindo que o aluno escolha seus próprios itinerários formativos.

O objetivo do Novo Ensino Médio

Essa alteração foi decidida com o objetivo de tentar mudar a realidade da evasão de alunos no ensino médio, diz Yan – que também é doutor em Didáticas Específicas pela Universidade de Valência na Espanha e doutor em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. De acordo com ele, esse abandono ocorre por vários fatores econômicos e sociais, além do desinteresse do aluno pela escola. Dessa forma, um novo plano de ensino médio precisa contemplar esses fatores e levar em conta a educação necessária para o mundo em que vivemos. 

“A ideia desse novo ensino médio é garantir que esse aluno tenha uma escola acolhedora, que entenda ele, que abrace sua perspectiva de futuro, sempre garantindo uma oferta de educação de qualidade, mas também entendendo que hoje você tem demandas do mundo, do trabalho, da vida em sociedade muito diferentes do que você tinha há uma geração atrás” explica Yan. “De fato, a ideia do novo ensino médio é essa, você trazer para a vida do aluno uma escola que dê conta de toda essa complexidade do mundo que nós temos hoje em dia”. Para realizar essa complexa tarefa, as escolas farão uso dos itinerários formativos – “caminhos” mais específicos de ensino que poderão ser escolhidos por cada aluno, que então terá contato com a vida real dentro de sua área de trabalho. 

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Os novo itinerários formativos 

Os novos itinerários, que compõem uma das principais novidades do novo Ensino Médio, não pretendem apenas aumentar a carga horária em alguma disciplina da área escolhida – na verdade, o ponto é oferecer atividades, projetos e núcleos de estudo que coloquem aspectos da vida real no contexto das matérias, de modo que os alunos saibam aplicar seus conhecimentos na prática. Yan conta que as redes de ensino têm autonomia para seus itinerários formativos – sendo que devem possuir no mínimo dois para oferecer aos estudantes. 

O educador também afirma que, no caso da Luminova, foram escolhidos três itinerários formativos – mas apenas depois de realizada uma pesquisa com alunos e pais, para que as decisões fossem feitas com base em dados que mostrassem aspectos importantes dos estudantes. “Nós não acreditamos que a escola possa criar do nada o itinerário”, argumenta. “Acreditamos que ela tem que entender a demanda da sua comunidade escolar, dos seus alunos e famílias”.

Portanto, é essencial que as escolas ouçam os alunos para criar os itinerários – afinal, esse novo modelo será feito justamente para eles. Para isso é preciso levar em conta as áreas do conhecimento nas quais os itinerários são baseados: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas, ou formação técnica ou profissional. 

Os benefícios que podemos esperar com essas mudanças

Além disso, Yan relata receber muitas perguntas sobre os benefícios, de fato, desse novo Ensino Médio para os alunos. Um dos principais, segundo ele, está conectado à filosofia que pretende colocar os alunos como protagonistas no ensino, pensando no tipo de cidadão que queremos para o futuro. Portanto, o que desejamos para o futuro do país – e do mundo – são cidadãos completos e bem inseridos na sociedade. “Para isso, o aluno, em vez de só receber informações, ele tem que trabalhar, tem que trocar com a escola, com o professor, com a direção, com a coordenação” reflete Yan. Esse modo de aprender ativo exige que nós reconheçamos os alunos como indivíduos, e isso envolve muita escuta às necessidades e expectativas desses jovens. 

Para a criação de um modelo de ensino mais moderno, é até mesmo preciso reconhecer que não existe apenas um “caminho de vida” (sair do ensino médio e ir direto para a faculdade). “Às vezes o aluno quer sair do ensino médio e criar uma empresa para ele, às vezes ele quer sair do ensino médio e ser um empreendedor em alguma atividade” diz Yan. “Então, no nosso novo ensino médio, por exemplo, uma das facetas é dar as ferramentas para que os alunos possam se desenvolver nesta área do empreendedorismo”. Afinal, essa área – assim como qualquer outra escolhida pelo aluno – depende do entendimento de várias facetas da sociedade e do mundo – que serão ensinadas durante a escola, de maneira dinâmica.

Esse modo dinâmico de ensinar tem a ver com o próximo ponto: aumentar o interesse do jovem pela escola. Um outro objetivo do novo Ensino Médio é mudar a realidade majoritária de hoje, onde a escola tende a não ser atrativa para o estudante, para aumentar a chance de permanência desses alunos no ambiente escolar – além de melhorar o aproveitamento do aprendizado, em vez de focar superficialmente nas notas. “As notas são um componente avaliativo de um conjunto de coisas”, explica Yan. “Acho que o comprometimento do aluno com a escola dentro desse contexto do novo ensino médio, dentro desse protagonismo dele dentro da escola, fará com que ele seja um cidadão comprometido com toda a sociedade em volta dele”.

Desenvolvimento de projetos para que o aluno seja o protagonista

O especialista, com mais de 20 anos de experiência na área de educação, menciona o “Nós propomos” – projeto que a Luminova está trazendo de Portugal para seus alunos – como um exemplo desse tipo de educação inovadora. “É um projeto de educação cidadã, no qual o aluno identifica um problema da sua comunidade, estuda junto com o professor para propor uma solução para aquele problema” conta Yan. “É o aluno como protagonista da solução de um problema concreto da sociedade”. A metodologia ativa, presente em projetos como esse, forma o aluno não apenas academicamente mas também humanamente, tratando-o como protagonista e o preparando para resolver problemas e ter ideias no mundo real. 

Isso também ajuda a criar uma conexão e interesse do aluno com a escola, diz Yan, já que é lá onde o aluno vai propor, pela primeira vez, suas ideias e soluções por meio de trabalhos colaborativos. Apenas depois disso essas ideias, agora trabalhadas, serão levadas ao estado, à prefeitura, ao município, etc. Mostrar essa oportunidade de protagonismo aos jovens é importante para garantir que o novo Ensino Médio não fique apenas no papel, mas funcione de fato como deve.

Para o mesmo fim é importante ressaltar a presença do desenvolvimento de um projeto de vida nesse novo modo de educação. Afinal, escolher um caminho com apenas 14 ou 15 anos pode ser assustador – por isso o projeto de vida, que Yan considera talvez a parte mais fundamental do novo Ensino Médio, é essencial: “será o momento desencadeador para refletir sobre o que se deseja e conhecer as possibilidades desse novo ensino médio”, diz. “Então, a escola deverá criar os espaços e tempos de diálogo com o estudante, mostrando suas possibilidades de escolha, avaliando seus interesses e consequentemente orientado-os nessa escolha”. Dessa forma é possível – e necessário – guiar os jovens para que façam suas escolhas de forma responsável ao desenvolver seu projeto de vida.

Colocando em prática os novos itinerários

Desse modo, Yan não recomenda que a escolha do itinerário seja feita com pressa, logo no início das aulas. Na Luminova, por exemplo, os alunos passam, antes de fazerem suas escolhas, por um processo no primeiro trimestre onde são guiados e aprendem sobre cada um dos itinerários. Ao mesmo tempo, eles cursam uma disciplina de ciclo básico voltada para a comunicação – uma habilidade indispensável na sociedade de hoje. Para Yan, a criação de uma disciplina que ensina técnicas de expressão orais e escritas é muito necessária para que os estudantes saibam como se comunicar adequadamente em cada ambiente (principalmente em um mundo cada vez mais digital, que apesar de útil pode diminuir nossa capacidade de comunicação “olho no olho”). 

Ainda nesse primeiro trimestre, segundo o diretor acadêmico, os alunos debaterão sobre os itinerários e seus projetos de vida – atividade que os ajudará a finalmente fazer sua escolha no segundo trimestre. Todo esse tempo e dedicação são necessários e valem a pena para que os futuros da próxima geração sejam pensados com cuidado – além disso, é preciso lembrar que a lei permite que o aluno troque de itinerário durante o ensino médio; ou seja, um estudante não precisa ficar “preso” ao itinerário que escolheu durante o primeiro ano.

Yan cita o projeto de vida como o “coração” do novo Ensino Médio, algo que permanecerá com o aluno até sua formação (e talvez para sempre). Com ele, o aluno deve aprender, na primeira etapa, sobre os itinerários possíveis para que possa fazer a melhor escolha possível para seu futuro; a segunda etapa diz respeito ao tipo de trabalhos ou projetos podem ser trazidos para dentro do projeto de vida de um aluno, quais temas concretos podem ser trabalhados nessa formação (para um aluno que também é atleta ou artista, por exemplo, é importante que a escola o ajude entender algumas questões específicas relacionadas às dificuldades e oportunidades que podem surgir no seu futuro).

A criação de algumas trilhas bastante específicas, diz Yan, ajuda na especialização e criação de futuros onde as crianças possam aplicar seus conhecimentos na prática. “Real math”, por exemplo, se trata de uma trilha para alunos apaixonados por matemática onde eles podem se aprofundar no assunto – não apenas aprendendo na teoria, mas levando a matemática para a vida real, de modo a entender a produção de pesquisa e estatística, por exemplo. 

Já o itinerário “Business” é focado na questão de negócios – nele, o aluno tem a oportunidade tanto de aprender a abrir e lidar com o seu próprio negócio quanto de seguir seu caminho na faculdade ou no mercado de trabalho entendendo seu lugar em uma empresa ou instituição de conhecimento, pronto para contribuir da sua maneira. Para Yan, esse itinerário é sobre “você estar ligado com as habilidades da quarta revolução industrial”, indo muito além de startups

Food and health” também é um itinerário em grande demanda atualmente – nele os alunos podem aprender sobre comida em relação à saúde, mas não apenas a diferença entre “comer bem” e “comer mal”; “É você entender toda a dinâmica econômica da produção dos alimentos, toda a dinâmica da propaganda envolvida na produção dos alimentos e no consumo”, explica Yan. “O aluno tem que entender que toda aquela propaganda dos alimentos ultraprocessados que chega para ele tem todo um contexto enorme por trás, e também relacionado à saúde dele, que tipo de melhorias na saúde eu posso ter com minha alimentação”. 

Esses três exemplos mostram com clareza como os itinerários podem ser realmente formativos. Assim, a Luminova foca em criar itinerários voltados para a quarta revolução industrial em termos das habilidades – além de trabalhar técnicas, todos eles também precisam desenvolver habilidades pessoais e sociais que todos precisamos ter. Trabalhar de forma colaborativa e desenvolver a criatividade, por exemplo, é preciso para transformar a sociedade de qualquer maneira e para resolver qualquer tipo de problema. 

Um ponto a lembrar dentro do contexto dos itinerários são as eletivas: disciplinas que podem ser escolhidas dentro de cada um dos caminhos de ensino. Yan lembra que é claro que, com um Ensino Médio mais flexível, um aluno pode escolher eletivas diferentes e montar uma grade única – mas a escola deve guiá-lo de forma adequada. “Se ele está fazendo um itinerário voltado para exatas e começar a buscar disciplinas da área de humanas, ele vai ter um descompasso entre o que ele busca e o que a escola está oferecendo”, avisa o diretor. “Por isso é tão importante o projeto de vida estar apoiando constantemente os alunos do primeiro ao terceiro ano”. Lembrando que as eletivas serão em horários diferenciados do turno “normal” do aluno, já que é necessária uma extensão do turno no novo Ensino Médio (a carga horária não cabe só na manhã, tarde ou noite). 

Algumas dúvidas persistem; por exemplo, como ocorrerá a cobrança dos itinerários no ENEM – “O MEC tem algumas propostas, como por exemplo do ENEM ser seriado, mas isso ainda não está fechado”, lembra Yan, que considera esse tipo de incerteza terrível para todos que trabalham com educação. No entanto, com foco na melhora dessa área e muito trabalho em conjunto, é possível preparar alunos para problemas e anos tão – ou mais – difíceis quanto 2021.

 

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