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Criatividade: “inventividade, inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar, inovar, quer no campo artístico, quer no científico, esportivo etc.” Essa é a definição básica que o dicionário de português da Google, oferecido pela Oxford Languages, dá a essa característica que se mostra cada vez mais importante; seja na vida pessoal ou no trabalho de cada um. E é claro que, quando mais cedo uma pessoa começar a desenvolver sua criatividade, mais resiliência ela terá no futuro para resolver problemas e superar desafios.

Carolina Luvizoto, gerente de educação da Faber Castell, acha importante desmentir alguns mitos a respeito do conceito de criatividade: primeiramente, a ideia de que a criatividade acontece em um “momento eureka”, de que se trata de algo que acontece de repente quando temos uma ideia sem nenhuma referência anterior, é falsa. Na verdade, justamente porque esse não é o caso, a criatividade não surge do nada e pode sim ser desenvolvida. “Hoje em dia já sabemos que criatividade é um processo” explica Carolina. “Sendo um processo, ele pode ser desenvolvido, trabalhado, melhorado.” Desse modo, quanto mais tempo e esforço dedicarmos à criatividade, como qualquer outra habilidade ela tomará mais forma.

Além disso, a ideia de que a criatividade estaria limitada a um certo grupo de pessoas (como por exemplo, artistas) também está equivocada; isso porque a criatividade claramente está presente no nosso dia a dia, e é usada por todos nós em diversos contextos, tanto pessoais quanto profissionais. “Sabemos e acreditamos que todos nós somos criativos e precisamos sempre trabalhar essa habilidade para que de fato possamos ir nutrindo e a mantendo sempre ativa”, defende Carolina.

Se a criatividade é uma habilidade que precisa ser exercitada, portanto, a falta de encorajamento em uma sociedade que se mostra cada vez mais prática e padronizada pode, por sua vez, atrapalhar seu desenvolvimento. Carolina aponta que alguns estudos mostram que, conforme crianças avançam em níveis de escolaridade, seus processos criativos se tornam mais e mais bloqueados. Ou seja, em geral, quanto mais velhos ficamos, menos criatividade temos chance de desempenhar. De acordo com Carolina, isso acontece por causa de diversos fatores internos e externos. 

Um desses motivos, diz Carolina, é a chamada “padronização”: “a ênfase na aprendizagem mais mecânica em testes e provas que são mais padronizadas nos mostra um potencial de ir bloqueando a criatividade ao longo dos anos”, conta. Além disso, a “motivação extrínseca” – ou seja, a pressão para que os alunos só tirem ótimas notas, sejam os melhores da classe, ganhem competições, sempre “provando” seu valor – também prejudica a habilidade. 

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O medo de correr riscos é, para Carolina, um dos principais fatores que contribuem para o problema. Isso porque quando estamos inovando, apresentando novas ideias – principalmente quando crianças – temos grande chances de sermos ignorados ou criticados, o que é desencorajador. Assim, oferecer um ambiente seguro e acolhedor é essencial para o desenvolvimento da criatividade. “Já sabemos que quando as pessoas ou, se fizermos um recorte aqui, os estudantes, as crianças, os jovens estão em um ambiente que se sentem suficientemente confortáveis para correr riscos, ter novas ideias e de alguma maneira se sentem acolhidos naquele ambiente, eles têm tendência a ter o desenvolvimento criativo mais aprofundado” diz a profissional.

Mas a boa notícia é que esse bloqueio pode ser revertido. E, mais que isso, precisa ser revertido: porque, ao mesmo tempo em que ocorre esse declínio da criatividade dos indivíduos com os anos, também percebemos uma demanda cada vez maior por criatividade na sociedade. Esse recurso tem sido tão valorizado que a própria ONU (Organização das Nações Unidas) transformou, em 2018, o dia 21 de abril no Dia Mundial da Criatividade. “Porque a ONU enxerga a criatividade como a verdadeira riqueza de uma nação, ela entende que a criatividade é um importante ativo para o desenvolvimento social e econômico de uma nação” fala Carolina. “Então, a ideia da ONU é que possamos ter essa instituição do dia da criatividade dentro do calendário para que de alguma maneira possamos mobilizar a vontade política e recursos para o desenvolvimento dessa habilidade.” 

O Fórum Econômico Mundial, em seus últimos relatórios, também faz referência à criatividade, citando-a como a terceira mais importante habilidade para o mercado de trabalho. Segundo Scott Blesky – empresário americano que entrou na lista das 100 pessoas mais criativas nos negócios – quanto mais a automação aumenta, mais essa característica ganha importância. Hoje, a produtividade está em alta – e no momento devemos focar em um recurso escasso mais valioso, ou seja, a criatividade.

Esse assunto também é abordado pela OCDE (Organisation for Economic Co-operation and Development) por meio do PISA (Programme for International Student Assessment) – isso porque, a partir de 2022, o pensamento criativo entrará na avaliação desse teste, acompanhando as disciplinas antigas como matemática, leitura e ciências. Carolina considera esse mais um indicador de como a criatividade tem se tornado, cada vez mais, uma qualidade essencial. Outra prova desse fenômeno, aponta, é a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que também tem a questão do pensamento criativo como uma de suas competências.

É importante lembrar que a criatividade está relacionada a diversas áreas do cérebro, não se limitando a apenas uma região, e isso faz sentido quando consideramos o fato de que o pensamento criativo também tem o poder de melhorar várias outras habilidades individuais como capacidades metacognitivas, habilidades intrapessoais e interpessoais e habilidades de resolução de problemas. “É importante que pensemos sobre criatividade não só como uma habilidade isolada, mas como uma habilidade que envolve e tangencia tantas outras habilidades” conta Carolina.

Tendo em mente toda essa importância, a demanda e os desafios relacionados a esse assunto, ficamos com a pergunta: como criar, desde cedo, uma sociedade e indivíduos que poderão utilizar sua criatividade para o bem? Como na maioria dos casos, a resposta é a educação.

A escola é um dos ambientes mais importantes e formadores na infância, onde as crianças passam a conhecer o mundo e a si mesmos; por isso mesmo, cada vez mais percebemos que mais do que realizar o ensino básico essas instituições também devem trabalhar e encorajar a criatividade dos alunos como parte de sua formação. Afinal, do que adianta decorar dados e não ter a capacidade de aplicá-los de forma efetiva em situações reais? Se quisermos uma geração não apenas mais competente, mas também mais consciente de si mesma e do mundo, é preciso mudar os modelos rígidos que tendem a sufocar a criatividade.

Assim, a chamada aprendizagem criativa – termo conceituado pelo pesquisador do Massachusetts Institute of Technology Media Lab dos EUA Mitchel Resnick – tem se mostrado uma técnica importante para esse novo modo de ensino. Trata-se, diz Carolina, de “uma abordagem educacional para ajudar os alunos a fazer uso do conhecimento de uma forma criativa”. A ideia de Mitchel é de que, já que as crianças de hoje vão enfrentar, no futuro, problemas que não podemos prever, o conhecimento por si só não será suficiente – o foco deve ser ensinar esses jovens a utilizar seu conhecimento de maneira criativa. 

O método sugerido pelo pesquisador para incentivar o movimento criativo junto aos estudantes envolve certos pilares – os “quatro P’s”: 

  • Projetos: os estudantes devem poder desenvolver projetos que sejam pessoalmente significativos; 
  • Paixão: os estudantes devem se interessar e se importar com o que fazem para que seu aprendizado importe;
  • Pares: os estudantes devem conseguir trabalhar de forma colaborativa;
  • Pensar brincando: o espírito do ensino deve ser lúdico, utilizando a ideia de “aprender brincando” – isso permite que os estudantes tenham espaço e segurança para experimentar e até mesmo de errar sem medo, o que ajuda na superação do anteriormente citado medo de correr riscos (que inibe a criatividade).

O pesquisador brasileiro Leo Burd, que além de trabalhar no MIT Media Lab também é consultor da Faber Castell para o programa de “Aprendizagem Criativa”, define esse método de ensino como uma estratégia que visa promover o desenvolvimento dos indivíduos para que eles consigam pensar sistematicamente de forma criativa e colaborativa. 

Carolina conta que Mitchel criou essa estratégia se inspirando na teoria construcionista desenvolvida pelo matemático sulafricano Seymour Papert; segundo ela, a aprendizagem acontece especialmente bem quando o estudante está envolvido na criação de uma produção pública significativa – essa produção pode ser qualquer coisa, incluindo um poema, um livro, uma maquete, um robô… A aprendizagem criativa, portanto, visa tornar esse método mais acessível, popularizando a teoria construcionista a partir da ideia dos 4 P’s. 

Dentro da aprendizagem criativa existe, também, a “espiral da aprendizagem criativa” – de acordo com Carolina, se trata de “uma oportunidade dos estudantes imaginarem, criarem, experimentarem, compartilharem, refletirem para que novamente eles possam imaginar, criar, experimentar, compartilhar e refletir”. Esse processo é, então, repetido constantemente dentro dos projetos dos alunos, criando um ciclo de criatividade onde o próprio exercício dessa habilidade dá lugar para que mais dela aconteça. 

Mas como colocar essa espiral em movimento durante o processo da educação? Carolina explica que, na educação infantil, devido ao fato de que as crianças são mais criativas, a ideia consiste em estruturar as bases do pensamento criativo; é importante criar uma base sólida desse pensamento criativo para que, conforme essas crianças cresçam e passem para os próximos níveis escolares, elas sejam capazes de utilizar essa habilidade em seus próprios projetos e para resolver seus próprios problemas. 

Os exemplos de atividades para encorajar esse estruturamento são muitos e exigem, por si só, bastante criatividade. “Podemos solicitar para as crianças que elas criem um ninho ou um abrigo para uma criatura especial que elas mesmas imaginam qual é, podemos organizar para as crianças investigarem diferentes tipos de rocha” exemplifica Carolina, que aponta também a importância do repertório na aprendizagem criativa – é essencial estimular, com essas atividades, a formação de um repertório das crianças. Ele fará parte da estrutura criativa mencionada e deve crescer de forma diversa, permitindo a aprendizagem de várias referências que podem ajudar em vários contextos. “Podemos também possibilitar que essas crianças explorem diferentes texturas e temperaturas, nós podemos auxiliar essas crianças a se expressarem criando, por exemplo, uma corrente da amizade da turma em que cada indivíduo registra nessas tiras de papel o que é amizade para ele, o que significa amizade, o que está por trás das pessoas que ele chama de amigo” sugere a profissional. “Ou por exemplo solicitar que essas crianças se expressem livremente a partir do som de uma música que a professora escolheu”.

Já no cenário do ensino fundamental, um conceito especialmente importante é a ideia de “micromundos”. Também com origem por Seymour Papert, os “micromundos” são contextos de aprendizagem onde as crianças são mergulhadas para que elas possam efetivamente realizar seus projetos significativos, trabalhando em parceria e de maneira lúdica. 

Por exemplo, um espaço criativo criado a partir da ideia de um micromundo submarino pode ajudar na imersão das crianças no conteúdo sobre o qual vão aprender – assim, em um ambiente com essa temática e realizando uma atividade de espírito lúdico (como uma caça ao tesouro), o aluno tende a se envolver mais. É claro que existem inúmeros jeitos diferentes de criar ou adaptar micromundos, e inúmeros jeitos em que eles podem ser interpretados. “No processo criativo é sempre bastante importante que a gente abra espaço para que os alunos possam divergir e convergir pensamentos”, lembra Carolina. Para esse tipo de exercício, um tipo de atividade poderia envolver, por exemplo, o contexto de uma “fábrica de brinquedos” onde as crianças tivessem a oportunidade de escolher, em grupo, qual brinquedo gostariam de construir. 

A escolha de temas, é claro, também deve ser pensada com cuidado para cada faixa etária. Isso porque, para um projeto ser pessoalmente significativo, ele precisa ter relação com algo que importe para o indivíduo – ou seja, deve cumprir o “P” de Paixão mencionado por Mitchel Resnick. “Quando qualquer faixa etária está envolvida em um projeto que é pessoalmente significativo para aquele indivíduo, certamente o engajamento se garante, conseguimos garantir essa motivação intrínseca de aprendizagem” afirma Carolina.

Tendo sido criada em um departamento do MIT Media Lab de nome “Lifelong Kindergarden” (“jardim de infância para a vida toda”), faz sentido que a aprendizagem criativa seja um longo e contínuo processo, não acabando após uma certa idade mas se ampliando. “A ideia é justamente que nós aproveitemos as estratégias que entendemos que são potentes na educação infantil, e que possamos levar essas estratégias para os demais anos de escolaridade” diz Carolina. Por isso, a formação de uma estrutura e de um repertório desde cedo faz diferença para o desenvolvimento (e manutenção) da habilidade criativa nos anos seguintes.

Dessa maneira, conforme os estudantes crescem e avançam em seus níveis escolares, eles têm a tendência de exigir mais de seus projetos e esperar que eles sejam funcionais, utilizando inclusive mais tecnologia no seu planejamento. Essa é uma das várias demonstrações do impacto e da efetividade da aprendizagem criativa; provas ainda maiores se mostrarão em inovações e resoluções de problemas no mundo real.

É interessante lembrar que, junto à escola, um outro pilar significativo no processo de bloqueio (ou, em contraste, encorajamento) da criatividade é a família. Assim, os membros da família também devem contribuir com o desenvolvimento criativo em casa. “De fato precisamos criar condições dentro de casa para que as crianças possam se expressar criativamente, para que elas possam imaginar livremente” diz Carolina. Algumas maneiras de criar um ambiente no qual a criança estimule sua criatividade incluem, por exemplo, a leitura diversificada (lembrando que a ampliação do repertório também acontece em casa) e a implantação de um “cantinho da mão na massa” (ou seja, um lugar onde a criança possa experimentar e se expressar livremente por meio de materiais como tinta, massinha, entres outros). 

Por fim, Carolina traz uma manifestação espontânea de Ana, uma professora de anos iniciais, profissional que trabalha com e está presente para testemunhar a diferença da abordagem criativa no processo de educação: “na aprendizagem criativa os mais levados se acalmam, os criativos se deliciam, os sem repertório do brincar ampliam a imaginação e nós ficamos apreciando tudo isso”.

Assista a palestra completa:

Criatividade: uma importante habilidade do século XXI