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O Novo Ensino Médio passa a valer, oficialmente, em 2022. Ele propõe uma reformulação na grade curricular, mantendo a formação geral básica e passando a ofertar os itinerários formativos. Os itinerários formativos são um conjunto de temáticas que poderão ser oferecidas aos estudantes por meio de projetos, oficinas e núcleos de estudo e que vão aprofundar e ampliar os conteúdos da formação geral básica. 

Os itinerários são uma forma de desenvolver novas habilidades com os estudantes, aprofundando o aprendizado nas áreas do conhecimento. Eles também vão fornecer uma maior autonomia aos alunos, uma vez que eles possuem liberdade para escolher os itinerários formativos. 

Se até então a grade curricular vinha pronta para os alunos, a partir de 2022 esse adolescente terá uma maior independência para criar sua própria programação escolar. Como, então, preparar os alunos para essa novidade no Ensino Médio?

De acordo com o MEC (Ministério da Educação), a escola deverá criar os espaços e tempos de diálogo com os estudantes, mostrando suas possibilidades de escolha, avaliando seus interesses e, consequentemente, orientando-os nas escolhas de itinerários formativos. 

“É fundamental trabalhar o desenvolvimento do projeto de vida dos estudantes para que sejam capazes de fazer escolhas responsáveis e conscientes, em diálogo com seus anseios e aptidões”, traz o informativo do órgão.

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Exemplos de itinerários formativos do Ensino Médio

O Colégio Marista Arquidiocesano, localizado na cidade de São Paulo, iniciou a oferta do novo Ensino Médio já em 2021, apesar da legislação prever a obrigatoriedade neste ano. Os alunos do 1º e do 2º ano do Ensino Médio já foram incluídos na nova proposta.

Segundo o coordenador de Ensino Médio da escola, Thiago Cachatori, o projeto já estava estruturado e eles decidiram fazer a implementação. Formado em geografia e mestre em Educação, ele comenta que o projeto teve bons feedbacks nesse primeiro ano.

“Criamos um componente para os itinerários formativos que se chama HUB. Ele é dividido nas 4 áreas do conhecimento propostas pela BNCC e é semestral. O aluno é quem escolhe as áreas que quer percorrer ao longo do Ensino Médio, mas reforçamos que é importante que ele passe pelas 4 áreas”, explicou o professor.

Nos itinerários formativos, Thiago explica que o professor tem papel de mentor dos alunos. Ele é da área de conhecimento e seu trabalho é muito mais estimular os alunos do que trazer soluções prontas. Os itinerários formativos contam com 4 aulas semanais.

O colégio Marista cria grupos heterogêneos, pensando nas habilidades de cada aluno para eles se fortalecerem entre si, e cada grupo vai criar projeto para uma ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU dentro da área do conhecimento.

“São projetos pensados pelos alunos e o professor vai mentorando, criando conexões e ao fim do semestre eles apresentam as propostas para uma banca”, explica o professor.

A avaliação dos itinerários formativos, diz Thiago, é diferenciada pois não tem prova. Os alunos são avaliados pelas entregas, pelo planejamento, fazem autoavaliação, avaliação entre pares, dentre outros.

Preparando os alunos para escolher os itinerários

A adolescência é um período de muitas descobertas, em que o adolescente irá reconhecer e se apropriar de seus interesses e habilidades. Nesse sentido, oferecer os itinerários é positivo para que ele possa aprofundar seus interesses, descobrir novas habilidades e até mesmo para reforçar que ele não tem aptidão para certas áreas do conhecimento.

“Aos 14 anos este processo está só começando e, de fato, o adolescente não está preparado para um projeto de vida. Mas o interessante nos itinerários formativos é justamente a possibilidade de se experimentar em diferentes contextos. As trilhas percorridas proporcionarão ao aluno novos conhecimentos e o desenvolvimento do autoconhecimento e de seu pensamento crítico.”, aponta Gabriela Azevedo, psicóloga e coordenadora da academia de talentos do Instituto Mauá de Tecnologia.

No Colégio Marista Arquidiocesano, Thiago Cachatori explica que a escola realiza uma espécie de “feirão” logo no começo do semestre cada professor apresenta as especificidades da área e nesse momento o aluno escolhe a trilha que vai desenvolver.

Ele conta que num primeiro momento foi um choque para os alunos serem inseridos na cultura da lógica de aprendizagem, porque eles estavam acostumados em serem receptores de conhecimento “É um pouco difícil para sair da zona de conforto, mas na hora que a chave vira, eles vão que vão”, celebra o coordenador do Ensino Médio.

“Quando eles propõem o projeto, os alunos se identificam com o que estão aprendendo e o engajamento é muito grande. Uma preocupação era que o modelo avaliativo dos itinerários fosse subjetivo, então será que o aluno iria levar a proposta com rigorosidade? E a gente percebeu que eles levam com muito mais, justamente porque o engajamento é alto, eles se vêem no projeto’, diz Thiago.

Orientação para definir o futuro

O coordenador do Ensino Médio do Colégio Marista Arquidiocesano diz que percebe alunos que chegam na 1ª série com uma profissão definida, mas mesmo assim o colégio estimula que ele passe pelos itinerários formativos das 4 áreas de conhecimento da BNCC.

“A gente tem que permitir que ele passe pelas 4 áreas para que ele experiencie outras coisas e aí ele vai chegar na 3ª série do Ensino Médio com muito mais repertório. Isso ajuda que ele decida se quer mesmo cursar direito, por exemplo, e até facilita que ele perceba o que área ele não quer seguir”, avalia Thiago Cachatori.

Gabriela explica que a escola pode promover, a partir do 9° ano do Ensino Fundamental, atividades em que os alunos percebam interesses e habilidades, descobrindo, assim, com qual itinerário têm maior afinidade.

“Esta escolha [dos itinerários formativos] não estará escrita na pedra”, alerta a psicóloga. “O adolescente terá a possibilidade de mudar de itinerário ao longo do Ensino Médio e, também, experimentar um número expressivo de eletivas, o que ajudará em sua escolha de carreira ao final do 3° ano”.

A coordenadora da academia de talentos do Instituto Mauá de Tecnologia ainda ressalta que é importante que o aluno não se sinta culpado e não fique constrangido de mudar. “Ele deve lembrar que o autoconhecimento é um processo que está apenas começando”.

Cuidando do psicológico do aluno

A psicóloga Gabriela Azevedo diz que os pais e a escola devem assegurar ao adolescente de que o novo Ensino Médio será uma oportunidade de experimentação e autoconhecimento. “Pais e escolas devem lembrar de não antecipar o momento de escolha profissional e que os itinerários formativos permitirão novas descobertas ao adolescente”, ressalta.  

Ela indica que a orientação vocacional seja realizada a partir do 2° ano do Ensino Médio, quando os alunos começam a se aproximar do tema vestibular e entrar em contato com possíveis cursos.

“No 9° ano do Fundamental, a escola pode realizar um trabalho de orientação inicial para o levantamento de interesses e descoberta do perfil pessoal, mas sem falar ainda sobre escolha profissional”, sugere Gabriela. “O resultado deste trabalho em consultório tem se mostrado bastante enriquecedor para o adolescente, acredito que as escolas consigam trazê-lo para sala de aula também”.

Com o Novo Ensino Médio, vem também uma disciplina chamada “projeto de vida”. No Colégio Marista Arquidiocesano, será uma aula semanal em que os alunos são estimulados a pensar sobre o assunto. “É interessante que eles traçam algo muito diferente do que os pais pensaram para eles”, diz Thiago Cachatori.

A escola desenvolve um trabalho de apoio quando os alunos apresentam alguma insegurança sobre o futuro, trazendo profissionais para conversar com eles, com palestras, e também convidam os próprios pais de outros estudantes para falar sobre as profissões e trazer um novo olhar para a área.

Thiago traça um paralelo com o livro “A Sociedade de Cansaço”, do filósofo Byung-Chul Han, que traz uma discussão sobre a lógica do protagonismo e como isso gera uma grande pressão, lembrando que a escola precisa confortar e acolher os alunos.

“O afeto é a nossa principal escolha, pois ele cria uma rede de pessoas em que os alunos podem desabafar e confiar. Se ele tem um círculo de pessoas em que confia, divide os medos, angústias e inseguranças, o aluno chega ao mercado de trabalho mais fortalecido”, acredita o professor.

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