Competências socioemocionais para o aluno do século 21
Desafios Contemporâneos

Competências socioemocionais para o aluno do século 21

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A educação do século 21 não só tem sido marcada pelo uso crescente das tecnologias digitais em sala de aula. Desde a última atualização da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), 2019, as habilidades e competências socioemocionais ganharam destaque e passaram a ser intencionalmente estimuladas. 

Mas segundo Isabela Villas Boas, mestre em Teaching English as a Second Language pela Arizona State University e Sócia diretora da Troika, as competências das quais falamos hoje, como resiliência emocional e tolerância ao erro, não são necessariamente do século 21.

“Para a maioria das atividades nas quais nos engajávamos mesmo antes do século 21, precisávamos ter várias competências que nos ajudavam a relacionar melhor com os outros, nos ajudavam a relacionar melhor com a disciplina, nos traziam mais sucesso, como as habilidades globais, algumas cognitivas e outras socioemocionais […] na verdade, essas habilidades sempre foram importantes para o desenvolvimento humano”, explica.

Ainda segundo Isabela, existem algumas razões específicas para que esse tema tenha se popularizado nos últimos anos. Pesquisas educacionais na área da economia da educação, hoje já mostram, por exemplo, que os saberes escolares não devem ser os únicos elementos valorizados no contexto escolar. 

 

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“Nós descobrimos que muitos alunos com alto QI tinham mais dificuldade na sua vida profissional do que alunos não com tanto QI, mas com maior capacidade de autogestão, autodisciplina e foco”. Essa fala de Isabela corrobora com o fato de que o QI já não pode ser considerado a melhor forma de quantificar a capacidade intelectual, uma vez que foca apenas nas inteligências matemática e textual, desconsiderando as demais.

O futuro das profissões

Aqui do blog do Escolas Exponenciais já mostramos como a inteligência artificial (AI) está ditando a Sociedade 5.0, tanto em aspectos industriais quanto sociais. O último evento do Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, reforçou ainda mais a ideia de que a AI promoverá mudanças profundas, principalmente no mercado de trabalho.

Assim, a “ameaça” de que as máquinas tomarão nossos empregos nunca se torna real. Na verdade, com o AI, estamos acelerando a transição dos humanos por máquinas para execução de trabalhos repetitivos, paralelamente, novas competências se tornam essenciais para os empregos do futuro, como as competências socioemocionais.

“Os empregadores veem o aumento da importância dos seguintes grupos de habilidades até 2025: pensamento crítico e análise, solução de problemas e habilidades de autogestão, tais como aprendizagem ativa, resiliência, tolerância ao estresse e flexibilidade, que são “subcompetências” da competência maior de autogestão e que tem se tornado cada vez mais importante”, pontua Isabella.

Contudo, ela considera um erro enxergar tais habilidades necessárias apenas para o mercado de trabalho. “Eu não sou muito a favor dessa visão da educação como mera fornecedora de pessoas para o mercado de trabalho, eu acho que nós precisamos de todas as habilidades de autogestão para a vida mais do que tudo, e formando esses cidadãos para vida, também estamos formando esses cidadãos para o mercado de trabalho”.

Nesse sentido, eis que surge um grande desafio para as escolas: como trabalhar as competências socioemocionais do currículo? Apesar da BNCC fazer menção a tais competências, elas estão alocadas dentro 10 competências gerais, junto com os aspectos cognitivos, o que exige cuidado quanto a sua abordagem. 

“Agora nós vamos trabalhar a resiliência. Amanhã a aula vai ser sobre autocontrole”. Essas situações trazidas pela diretora na Troika que ainda são muito comuns, mas não deveriam acontecer. Uma vez que a integralização das competências socioemocionais no currículo consiste, justamente, em inseri-las em todo o processo de ensino-aprendizado.

Avaliações por competências e outros modelos alternativos

Da mesma forma que o QI caiu em desuso como principal métrica para avaliar conhecimentos, a avaliação somativa, ao poucos, vem sendo substituída pela formativa. Esse segundo modelo de avaliação garante que o aprendizado seja mensurado de forma longa e contínua, abrindo espaço também para os feedbacks. 

“Essa é uma mudança muito grande de paradigma que está acontecendo no mundo, como eu disse, em alguns países de maneira mais avançada, em outros não, outros nem começaram ainda. Mas é uma mudança que está acontecendo e que está diretamente ligada a toda essa perspectiva de competências socioemocionais”, declara Isabella.

Estados Unidos e Austrália são exemplos de países que já utilizam a avaliação por competências. Nesse caso, os alunos precisam dominar determinadas competências cognitivas e não cognitivas, sendo posteriormente avaliados com diferentes instrumentos para verificar se atingiram ou não plenamente cada uma das competências. 

Na avaliação por competências, ainda existe o cuidado de separar competências cognitivas e não cognitivas com objetivo de obter uma percepção mais verossímil do aprendizado do aluno. Entretanto, tradicionalmente acontece o oposto, principalmente no Brasil:

“O aluno tirou 10 na redação, mas não entregou em dia, perdeu pontos, ficou com 8. Quem vê esse 8 pensa que esse aluno não é um aluno que tem o domínio completo de produção textual, mas ele tem, porque ele tirou 10, mas o que não entregar em dia tem a ver com a competência de produção textual?”, indaga Isabella. 

Por outro lado, a adoção de avaliações alternativas – substitutas às provas com questões de múltipla escolha e verdadeiro e falso-, formativas e por competências estimulam, naturalmente, o uso de metodologias ativas. Com isso, os alunos são incentivados a aprender de forma autônoma, participativa e com um olhar para o futuro.

“Não tem como o aluno não ser protagonista nesses modelos e exemplos de avaliação que eu citei, nós precisamos do espaço de sala de aula para as interações, para a problematização […] Então, o importante não é só aprender saberes escolares, mas aprender coisas que a gente nem sabe que a gente vai precisar daqui 2, 3, 4, 5 anos”, conclui. 

Assista à palestra completa:

Competências socioemocionais para o aluno do século 21

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