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A terceira das 17 metas globais da ONU (Organização das Nações Unidas) para o desenvolvimento dos países se refere explicitamente ao compromisso de alcançar uma cobertura universal que inclua “saúde mental e bem-estar”

Saúde mental pode ser definida como um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade. Ou seja, se nos pautarmos pela definição de saúde mental da OMS (Organização Mundial da Saúde)  veremos que ela vai muito além da ausência de doenças: é também a soma do bem-estar físico e social. A ampliação do conceito de saúde mental determinado por fatores socioeconômicos, biológicos e ambientais também implica na expansão de maneiras de ver, entender e interagir com o tema.

Dados da OMS mostram que a quantidade de casos de depressão cresceu 18% em uma década, com a previsão de ser a doença que mais causará incapacitação no planeta até 2020. Na América Latina, o Brasil é campeão em número de casos, atingindo 6% da população total – número que equivale a 11,5 milhões de pessoas. Em 2015, por exemplo, mais de 18 milhões de pessoas foram diagnosticadas com transtorno de ansiedade ou síndrome do pânico. Isso sem contar os problemas que abalam a saúde mental, em decorrência de uso de substâncias psicoativas (drogas lícitas e ilícitas).

E muitas vezes os sintomas de problemas em saúde mental começam ainda na adolescência ou até mesmo na infância. Estudos da Organização Pan-Americana de Saúde, por exemplo, estimam que cerca de 50% deles começam aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada. 

E, tendo em vista que a escola é um dos principais espaços de formação, de convívio e da construção de laços das crianças e dos adolescente,  ela precisa ser diligente e estar alinhada a esses desafios do mundo contemporâneo como, por exemplo, o zelo pela saúde mental dos seus alunos.

 

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A importância da prevenção nas escolas

De acordo com o psiquiatra Victor Bigelli de Carvalho (USP), em geral, escolas não abordam o tema de maneira proativa e preventiva. Ele afirma que o cenário mais comum é o uso da técnica “waiting to fail”, ou seja, esperar o problema aparecer para tomar alguma providência. “Os recentes episódios de suicídio são um retrato trágico dessa questão e representam o topo de uma pirâmide de sofrimento emocional que ainda é negligenciada”.  O psiquiatra destaca ainda que problemas de saúde mental nos jovens podem estar relacionados também ao uso e abuso de drogas, comportamentos sexuais de risco, violência interpessoal, direção perigosa e automutilação.

Segundo Victor, embora o ambiente escolar seja uma fonte rica de desenvolvimento, ele representa também um ambiente propício ao estresse. “Isso fora o fato de que o cérebro de crianças e adolescentes ainda não está totalmente desenvolvido e, portanto, mais sujeito às patologias em decorrência de estressores psicológicos”.

 

Expectativas

O início do desenvolvimento da vida escolar é também o começo da necessidade de lidar com novas expectativas, como rendimento, novas competências, aprovação em exames, provas e, até mesmo reta final do ensino médio, com os temidos vestibulares. Saber dosar expectativas e compartilhar a responsabilidade dos papéis desempenhados é também um fator para o aprimoramento de habilidades emocionais dos alunos, pais e profissionais da educação.

Aliás, a psicóloga e mestre em psicologia escolar e educacional, Caroline Freire de Carvalho, ressalta ainda que é preciso ponderar as expectativas depositadas sobre o papel da escola. “Cobra-se das escolas um super papel. Professores, equipe pedagógica, pais e alunos buscando um melhor desempenho de marcadores muito subjetivos e, por vezes, sobre-humanos”.

 

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Carolina que também é ex-conselheira do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente e integrante do Fórum Nacional sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, alerta para os efeitos dessas cobranças. “Crianças e professores estão sob efeitos de medicamentos para dar conta do cotidiano e demanda escolar, e isso é muito sério. A saúde mental nas escolas é também uma questão de saúde pública”.

Luciano Ferreira, psicólogo e professor de filosofia, tem experiência de doze anos no ensino estadual do Estado de São Paulo e conta que, em geral, o tema não é abordado no cotidiano das instituições de ensino. “Há certa pobreza na compreensão do tema e fraca capacidade de replicação que atenda a demanda discente”. De acordo com sua experiência, Ferreira percebe que há uma interação truncada entre as diferentes gerações: pais e filhos, educador e educando, escola e comunidade. “Há uma fragilidade relacional que reflete uma dificuldade de diálogo, sendo isso uma expressão da fragilidade emocional tanto de adultos quanto das crianças e adolescentes”.

 

Tecnologia como ferramenta

Durante o período de residência de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, o médico Victor Bigelli de Carvalho (USP), passou por uma fase de questionamentos sobre o exercício da profissão, quando um familiar apresentou quadro de depressão grave com tentativa suicida. “Tive uma sensação de impotência e de que algo estava errado no jeito que eu exercia minha profissão e como a própria profissão era exercida”. Depois do episódio, descobriu-se que o familiar apresentava sintomas desde os 9 anos, um histórico silenciado até então.

Durante esse mesmo período ele participou de estudos onde leigos eram treinados a entrevistar pessoas dentro do tema da saúde mental. As entrevistas eram realizadas em formulário de papel, com estruturas da Neuropsiquiatria que conferiam complexidade, e por isso, eram demoradas, com cálculos e regras. “Tudo isso dificultava o entendimento e aplicação, além do custo operacional”, conta. 

A partir dessas duas experiências, Victor teve a ideia de desenvolver um sistema computacional para mensurar dados a partir de entrevistas online em escala e à baixo custo. “Com a tecnologia e as possibilidades de comunicação digital, não faz mais sentido a postura passiva da medicina”. Ao juntar ciência, inteligência artificial e comunicação digital foi desenvolvido o sistema Herah.

 

Como se aplica às escolas?

No âmbito da vida escolar, o sistema interage com o usuário com perguntas sobre se ele se sente bem na escola, se gosta da aparência, se sente triste, tímido, irritado ou infeliz. Segundo o psiquiatra, são perguntas que parecem simples, mas que as escolas não costumam fazer ativamente a crianças, adolescentes e até mesmo aos adultos. O objetivo é diminuir a lacuna de tempo entre sintomas e o diagnóstico. “Não se trata de medicar ou patologizar qualquer coisa, mas intervir precocemente. Por exemplo, se o jovem não está se sentido bem com sua aparência, podemos trabalhar a autoestima e outros aspectos antes que problema vire um transtorno alimentar ou um quadro depressivo que exija tratamento medicamentoso”, enfatiza Carvalho.

Victor acredita ser possível orientar crianças e adolescentes a gerenciarem melhor as emoções, tolerarem mais estresse e frustração, serem mais eficazes tanto na hora de dizer sim, como na hora de dizer não. O desenvolvimento das habilidades emocionais é um pilar importante na prevenção em saúde mental. “Mesmo assim, não se pode negar que, mesmo tomando as atitudes preventivas necessárias, problemas de saúde mental podem aparecer. Portanto, treinar professores no reconhecimento desses problemas e usar a tecnologia para apontar possibilidades diagnósticas e identificar riscos também é essencial”.

Riscos específicos de cada imagem (cronologicamente). Adolescência e idade escolar: Saúde mental na escola

 

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