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Diferentes tipos de gestão são utilizados nas instituições de ensino – desde os mais convencionais, em que as responsabilidades são delegadas pelos gestores, até os que envolvem a comunidade escolar no processo, a chamada gestão participativa. Esse método organizacional tem o objetivo de incluir alunos, professores, funcionários e pais dos estudantes nos processos de tomada de decisão, na programação de objetivos, na implementação de projetos escolares e no auxílio da execução de atividades. De acordo com Ivan da Cunha, diretor de consultoria da Apoio Estratégico (que atende mais de mil escolas particulares em todo o país com projetos de marketing, captação e fidelização, gestão financeira, entre outros), a gestão participativa é, atualmente, a que mais atende às demandas de um mundo moderno. “Ela traz melhorias pedagógicas no processo educacional, motiva pessoas e é a que dá melhor resultado, pois acontece quando os colaboradores, independentemente do nível hierárquico, têm liberdade de ação, de manifestação de pensamento, de dar ideias criativas e de agir no modelo decisório da empresa – claro, no espaço que compete a cada um”, ressalta.

O diretor da Escola da Serra, Sérgio Godinho, também destaca as vantagens desse modelo de gestão, que é a grande aposta e um importante diferencial dessa instituição de ensino. Localizada em Belo Horizonte e com atuação desde o Infantil até o Ensino Médio, ela já foi reconhecida pelo MEC como referência em inovação e criatividade na educação básica. Sérgio ressalta os benefícios que esse modelo proporciona: “É uma uma escola absolutamente singular, que encanta a todos que a visitam pela serenidade dos alunos, professores e funcionários de apoio, pelo entusiasmo e orgulho com que falam dos seus diferenciais, pela leveza do ambiente. Esse resultado só foi possível alcançar por meio de uma inteligência coletiva, que fez desta instituição uma verdadeira escola aprendente”.

Quando bem implementado e já consolidado, esse modelo traz mais facilidade para os gestores no processo de tomada de decisões, pois as responsabilidades são divididas de maneira proporcional. Assim, os erros e acertos não recaem apenas sobre uma pessoa e, com as pressões amenizadas, o ambiente de trabalho como um todo fica melhor.

Além de levar autonomia e mais confiança para os membros da comunidade escolar, outros benefícios também podem ser observados nessa gestão. Um exemplo disso é no núcleo familiar: quando envolvidos no processo, os pais e responsáveis tendem a ficar mais atentos ao desempenho dos estudantes e a participar mais de suas vidas escolares. Os alunos, por sua vez, podem se tornar mais engajados em sala de aula e nos projetos da organização. Já os professores se sentem mais valorizados e conseguem desenvolver melhor seus trabalhos, bem como estabelecer relacionamentos melhores com as famílias dos estudantes.

 

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Gestão participativa: do conceito à prática

Muitas são as vantagens que podem ser obtidas com a gestão participativa. Mas como conseguir implementá-la com sucesso nas instituições? Ivan da Cunha explica que o modelo é um dos mais complexos de ser aplicado no mercado educacional. “Ele exige muita transformação na forma de ação dos colaboradores e, para isso, precisa começar pela mudança comportamental da alta Direção; não adianta exigir que as pessoas tenham liberdade de manifestação e de participação no processo decisório se existe uma gestão punitiva, que não exercita a escuta. Então não pode faltar, de maneira alguma, um trabalho intenso de gestão de pessoas, gestão de conflitos, avaliação de desempenho, feedbacks contínuos”, afirma ele, ressaltando que o bom resultado depende de começar a criar um clima organizacional extremamente propício para transformação, que é do que a educação precisa hoje. 

Sérgio Godinho também reforça essa importância, ressaltando que o principal ponto desse processo é a Direção estar convencida da possibilidade e pertinência desse caminho. “Se a caminhada será conjunta, é preciso haver tolerância a falhas, deficiências, transições alongadas, assimetria na evolução da equipe. É preciso realizar, na prática, uma gestão democrática, com definições coletivas, valorização e incentivo ao trabalho em equipe, partilha de avanços e tropeços, conversa – muita conversa”. Assim como Ivan, ele também enfatiza o quanto é essencial a escuta genuína, em que há a valorização da fala do outro, seja ele quem for.

 

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Consolidar para não perder

Outro ponto importante abordado por Ivan é que esse tipo de gestão não é um modelo acabado, mas sim contínuo e persistente, pois precisa continuar sendo trabalhado para que não haja retrocesso. Isso porque é uma forma de gestão altamente provocativa, que tira as pessoas do que elas já conhecem, e isso pode trazer uma tendência de os profissionais quererem voltar para a zona de conforto, onde não haja o debate permanente de ideias. “Esse não é um processo rápido; a instituição que parte para a gestão participativa precisa entender que isso é um investimento de médio para longo prazo, e que não basta apenas ter boa vontade: junto a isso, há uma série de trabalhos que precisam ser feitos para que esse instrumento não enferruje. A organização que persiste nisso tende a trazer excelentes frutos em uma educação que hoje exige inovação e transformação constantes”.

Além da dificuldade natural de abandonar as velhas práticas, há ainda outra questão que pode atrapalhar o andamento da gestão participativa: o turnover um pouco alto que existe em algumas escolas. Isso é um problema porque, se não houver processos consolidados e o modelo não estiver muito bem implementado, os avanços podem se perder.  “Às vezes, a escola tem um grupo de funcionários que já se acostumou, só que esses colaboradores começam a sair da organização. Os novos entram e, na correria, acabam não sendo inseridos no processo. Quando se dá conta, o avanço que tinha sido alcançado já está retrocedendo”, alerta Ivan.

 

Trabalhoso, mas compensador

Apesar dos muitos desafios que precisam ser trabalhados para que a gestão participativa seja implementada e consolidada com sucesso, esse é o modelo que melhor atende às necessidades e demandas encontradas na educação dos dias de hoje. Sérgio, que lida diariamente com essa experiência na prática, reforça que a sensação de pertencimento e autoria é o principal resultado – e um grande ganho – desse tipo de gestão. “Quando a estrutura é mais horizontalizada, quando existem instâncias de discussão coletiva em que os educadores, funcionários de apoio e alunos se sentem representados, a escola passa a ser um projeto comum, uma construção coletiva. E isso se reflete no fortalecimento de um vínculo afetivo com a instituição, que gera lealdade, cooperação, brilho nos olhos, amor pelo trabalho”, finaliza.

 

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