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Predileção pelo modelo de trabalho híbrido é maior no Brasil do que a média global, e diversos segmentos percebem esse movimento; no ensino não é diferente, especialmente depois de competências que foram desenvolvidas com o isolamento.

As aulas presenciais foram integralmente retomadas em todo o Brasil antes do término do ano letivo de 2021. Isso, depois de pelo menos um ano e meio de mais dúvidas do que certezas sobre o formato adequado ao serviço prestado pelas escolas em meio à pandemia da Covid-19. Os recursos digitais adotados no período de isolamento, porém, devem permanecer na rotina das instituições diante da adaptação ao modelo remoto. A gestão de equipe na escola é um exemplo de atividade com condições de dispensar necessidade integral de presença física na instituição.

O home office ou o modelo híbrido no cenário pós-pandemia estão na pauta do mundo corporativo em diversas competências, não apenas no ensino. “O trabalho remoto veio para ficar em muitas companhias. Sentimos que é um desejo dos líderes e também dos trabalhadores de incorporar o home office em suas rotinas de trabalho, porém, combinado com atividades presenciais, o chamado trabalho híbrido”, diz Fabio Battaglia, CEO no Brasil da Randstad, empresa de soluções em recursos humanos.

O Workmonitor, pesquisa realizada pela Randstad com trabalhadores de 34 países a respeito das percepções deles sobre o trabalho, identificou que a maioria dos talentos espera ter uma programação de trabalho híbrida. O modelo, inclusive, é mais popular no Brasil (61%) do que a média global (53%), segundo o estudo.

 

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Comunicação e adaptação são as principais ferramentas

Para que a organização de equipes remotas tenha fluidez, Battaglia reforça a importância da comunicação e a constante adaptação e flexibilidade. “O bom líder é aquele que consegue estabelecer uma rotina de trabalho que respeite o equilíbrio entre vida pessoal e profissional de todos, inclusive a sua. Para isso, é preciso adotar uma rotina de trabalho bem definida, com ferramentas de gestão e produção eficientes”, explica o CEO. 

Deixar claro quais são as expectativas, responsabilidades e metas dos dois lados e calibrá-las constantemente, assim como procurar o equilíbrio certo entre supervisionar a força de trabalho remota, fornecer o suporte de que as equipes precisam e dar às pessoas liberdade e controle sobre suas tarefas são atributos necessários ao gestor que atue nesse formato.

Gestão remota na escola precisa passar por visão dual life

Apesar das condições gerais para o bom funcionamento da proposta, existem especificidades que condizem com cada área profissional. A gestão de equipe na escola é prova disso. A pandemia deixou latente a necessidade de uma transformação digital, no ponto de vista da pedagoga Katia Ethiénne Esteves dos Santos, professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

“Educação digital é muito maior do que simplesmente levar os alunos a um ambiente virtual ou oferecer aplicativos ou dispositivos móveis (…) É não separar mais a questão presencial da digital. Essa visão dual life é muito importante, principalmente quando falamos de gestão. É olhar lá na frente, no futuro, mas com os pés muito fincados no que a gente está vivendo hoje”.

Katia, que é pós-doutora em Educação com o tema Educação Híbrida e coordenou o núcleo de Criação e Aperfeiçoamento na área de Tecnologias Educacionais na Positivo Informática, considera que o ceticismo com o ensino e a gestão online foi demovido durante a pandemia, com a manutenção de atividades por mais de um ano dessa forma, e que agora é possível identificar as potencialidades vivenciadas nesse período que podem ser absorvidas.

“É possível, sim, que nós aprendamos estando só em ambientes online, mas como agora temos um pouco mais de liberdade, podemos estar juntos, é possível manter processos presenciais com suporte online ou manter processos totalmente online. Para o gestor é importante obter esse olhar para um mundo que está em transformação digital. Questionar o que pode ser deixado para Inteligência Artificial ou um aplicativo fazer e abrir espaço para criatividade e competência das pessoas para melhorar outras questões”.

Questionada pelo Escolas Exponenciais sobre valores de liderança necessários ao gestor educacional, à frente de equipes na escola, dentro do modelo remoto, a especialista sugere valores e comportamentos que devem ser fortalecidos a todo tempo:

  • Atualização

“Estar sempre atualizado, saber o que está acontecendo. Os líderes precisam estar muito conectados, até para poder criar uma massa crítica entre seus professores e comunidade escolar”.

  • Inteligência emocional

“Para que ele também transmita isso para sua comunidade. Se a gente olhar para essa premissa, vamos ver elementos de transposição do ambiente onde ele está exercendo essa gestão”.

  • Coragem

“Coragem para enfrentar cada dia. A gente sabe que hoje as coisas mudam de uma forma tão grande, tão rápida, tão fluida, que a gente precisa realmente ter coragem para viver neste mundo, enfrentar essas mudanças. E pensar e construir coisas boas para o presente e para o futuro”.

  • Resiliência

“Foi o maior exemplo que nós tivemos na pandemia. Resiliência dos professores, dos estudantes, dos pais. O gestor precisa ter esse espírito de resiliência, porque com a formação digital e com tudo que vem acontecendo num mundo de desafios, não tem como ser diferente”. 

  • Comunicação

“A capacidade de motivar, de desenvolver e de construir uma equipe, um grupo, transformar a experiência. Os elementos são todos muito conectados”.

  • Ética

“As noções de ética vêm desde quando a gente nasce até a hora em que nós morremos, em todas as pequenas ações. O gestor tem que ser um exemplo de ética, ele tem que ser um exemplo de responsabilidade, de comprometimento a ser seguido. Independente de todos os outros desafios, isso é super relevante”.

  • Sustentabilidade

“O gestor tem que ser alguém que leve sua comunidade a agir. E não é só no meio ambiente. A sustentabilidade tem a ver com a equidade de direitos, ao cuidado com as pessoas que estão fragilizadas”.

Dessa forma, fica claro que os líderes responsáveis por instituições voltadas à educação tem um desafio gigante pela frente com o desenvolvimento de modelos que não sejam exclusivamente presenciais, como a gestão de equipes na escola remotamente. “Por mais que estejamos em contato com novas tecnologias, com leitura e avaliação de dados, nanotecnologia, robótica, tudo mais, as pessoas são essenciais. Pessoas que constroem coisas para pessoas são as que realmente fazem a diferença”, completa a pedagoga.

 

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