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Ela desperta o lúdico, traz benefícios para a socialização, auxilia na alfabetização, ajuda a lidar com os próprios sentimentos, estimula a coordenação motora e a percepção sonora. A lista de benefícios ao trabalhar a música na educação infantil é extensa e não para por aí. A musicalização ainda contribui para a percepção espacial, matemática e estimula até mesmo áreas do cérebro das crianças que podem beneficiar o desenvolvimento de outras linguagens. Por isso, proporcionar ainda na primeira infância o contato com a musicalidade é fundamental. 

“Existem muitas pesquisas, estudos e comprovações científicas de que a música, os sons, são importantes para o desenvolvimento das crianças, para o desenvolvimento do cérebro, e afins, e é importante conhecermos estes estudos. Saber das descobertas científicas fortalece a certeza da importância da música para o desenvolvimento global das crianças”, afirma o educador Shauan Bencks, que também é músico, compositor, brincante e produtor cultural.

A musicista Samira Prigol, que é pós-graduada em educação musical, ainda destaca que a música é imprescindível na educação infantil, uma vez que, pedagogicamente, é um recurso enriquecedor para o processo educacional. “A criança recebe inúmeros benefícios através de algo que é prazeroso, lúdico e natural. A música auxilia no desenvolvimento da concentração, atenção, foco, criatividade, imaginação e disciplina. Com um forte valor artístico e estético, ela auxilia no desenvolvimento auditivo, linguístico, corporal e emocional”, destaca.

Entretanto, mais do que apresentar a música ainda na educação infantil, os músicos e educadores Angelo Mundy e Flora Poppovic, do Mundo Aflora, ressaltam ainda a importância de apresentar os mais diversos instrumentos musicais nesse processo.

“É muito saudável que as crianças criem mais proximidade com os instrumentos de diversos tipos desde a infância, e aprendam a cuidar, a tocar com respeito e com o tônus que cada instrumento pede. Isso ajuda no desenvolvimento da coordenação motora das crianças, além de ampliar o repertório de sonoridades que cada criança está construindo nessa fase de tantos descobrimentos”, afirmam Mundy e Flora.

Para eles, apresentar diversos instrumentos para crianças na educação infantil tem a mesma função e importância de apresentar livros para crianças que ainda não estão alfabetizadas. “Elas vão se familiarizando com o objeto, com a sonoridade das palavras (através da leitura de outra pessoa-referência) as ilustrações e as formas das letras, e quando chega o momento, ler acontece de forma rápida e natural, por estarem mais habituadas. Do mesmo modo se constrói a musicalidade e a relação com a música”, exemplificam os músicos Mundy e Flora.

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Como trabalhar com a música na educação infantil?

Pensar em formas diferentes de trabalhar a arte da educação infantil é um dos principais desafios dos educadores dessa área. Porém, é preciso lembrar que o ensino da arte na primeira infância não deve ficar restrito às expressões artísticas visuais. Cinema, teatro e a música, é claro, também devem fazer parte do aprendizado das crianças. Veja aqui dicas de como usar a arte na educação infantil.

Mais do que ser presente na hora do brincar, na diversão e nas rodas, as experiências musicais podem e devem até mesmo ser utilizadas nos momentos de aprendizado. Na escola Bosque das Letras, por exemplo, as crianças contam com musicalização até mesmo nas vivências de língua inglesa. “A musicalização tem o intuito de desenvolver o senso musical das crianças, sua sensibilidade, expressão, ritmo e inseri-la de forma gradual ao universo musical através da apresentação lúdica de repertório, instrumentos musicais, histórias cantadas e vivências musicais”, explica  a educadora Mariana Zacharias Battaglia, que é professora de música da Escola Bosque das Letras.

De acordo com o educador e músico Shauan Bencks, há vários caminhos para trabalhar com a música na educação infantil. Entretanto, ele acredita que o mais esperado durante essa etapa escolar é o da apresentação da cultura musical existente na sociedade em que está inserida a criança,  com momentos de exploração de sons, de instrumentos estruturados e não estruturados para produzir possibilidades sonoras e musicais.

“É bastante importante que o educador, por exemplo, apresente não apenas as canções do seu repertório pessoal, ou as músicas da mídia, os sucessos do momento, assim como é preciso ficarmos atentos a não oportunizar para os meninos e meninas apenas as canções que são da cultura da infância. É preciso ofertar músicas diversas, de outras culturas, de outras regiões do país, músicas populares, eruditas, cantadas, instrumentais, músicas indígenas, canto de pássaros, sons da natureza e afins”, recomenda.

Para a musicista Samira Prigol, ao trazer a música para o ambiente escolar, é necessário que a escola capacite os professores. “Um professor preparado entenderá que música não é só cantar. Música é um processo contínuo, onde o aluno precisa perceber, sentir, experimentar, imitar, criar e refletir. E o professor é o grande responsável por proporcionar momentos para que o aluno consiga interagir com a linguagem musical de forma completa”, destaca.

Como a música pode contribuir para o aprendizado e atenção nas aulas remotas?

Com as aulas remotas e híbridas, alternativas que foram adotadas pelas escolas e professores devido a pandemia, a música é uma ótima ferramenta educacional que pode contribuir com o processo de aprendizado dos alunos nesse cenário tão desafiador. 

“Nesse contexto de ensino remoto, onde a criança acaba ficando muito tempo exposta as telas, sem interações sociais, com limitações tecnológicas, físicas e motoras, a música se apresenta como um excelente recurso de aprendizado, pois é capaz de tornar a criança muito mais protagonista, autônoma e faz com que aprenda de forma prática, auxiliando assim no aprendizado de outros conteúdos”, afirma a musicista Samira Prigol.

Entretanto, de acordo com o educador e músico Shauan Bencks, a música não deve ser pensada apenas para facilitar o processo de aprendizagem ou para melhorar a disciplina, ou, ainda, para estimular concentração. “A música é uma linguagem para ser conhecida, explorada, experimentada, de forma ampla e articulada, mas com o mesmo grau de importância das outras descobertas. A música pode, muitas vezes, ser pensada como estratégia para outros fins, mas não é só isso”, pontua.

O profissional explica que, durante o ensino remoto, tem incentivado o uso das músicas e das canções para o acolhimento e para a brincadeira, com indicações de repertório para as famílias brincarem com os filhos e/ou filhas, mas não como estratégia para determinadas finalidades. “Desta maneira, articularemos o que é esperado da educação infantil com o ineditismo deste momento cheio de incertezas e angústias, quando estamos descobrindo, a duras penas, como pensar ensino remoto para crianças pequenas”, reflete.

 

Como a música agrega ainda mais valor para a educação?

Segundo a musicista Samira Prigol, além de todos os benefícios que a música traz aos alunos da educação infantil, a escola que proporciona essa rica vivência ainda na primeira infância está comprometida, inclusive, com compromissos sociais.

“Proporcionar momentos em que a criança consiga interagir com o mundo sonoro que estamos imersos, explorando possibilidades vocais, instrumentais e corporais, pesquisando, inventando, escutando e pensando em música, faz com que desenvolvamos alunos realmente comprometidos com os compromissos sociais, humanos e culturais”, pondera.

O educador e músico Shauan Bencks ressalta que as crianças são sinônimos de exploração, de experimentação, de descoberta, de pesquisa e de abertura para o novo. E proporcionar o contato com a musicalidade permite que elas tenham um amplo desenvolvimento. “Não oportunizar o mundo dos sons e das músicas do mundo para as crianças é não fazer o que tem de ser feito, não estimular o que tem de ser estimulado. Não penso que seja uma questão de agregar valor à educação, mas sim de esperar por uma educação minimamente vinculada a múltiplas linguagens e experiências, uma educação que deseja o desenvolvimento global do ser”, explica.

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