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Após a tão esperada retomada das aulas presenciais no segundo semestre de 2021, em que as escolas tiveram a autorização de receber 100% dos alunos, o ano letivo de 2022 começa com o aumento de casos devido à alta taxa de transmissão da variante Ômicron. Apesar do avanço da vacinação, que foi estendida para crianças a partir de 5 anos, muitos pais têm dúvidas se é seguro, no momento, mandar as crianças para a escola.

Mas, afinal, o que os últimos estudos dizem sobre as aulas na pandemia? Qual a orientação dos médicos? Como a instituição de ensino pode preparar a saúde mental de toda a comunidade escolar para este recomeço? Para responder essas e outras perguntas, conversamos com as pediatras Gabriela Murteira e Deise Beatriz Pereira, e com a psicóloga clínica Ingrid Gomes Queiroz.

De acordo com Gabriela, no início da pandemia de Covid-19, o SARS-CoV-2 foi muito comparado ao H1N1, vírus responsável por um surto pandêmico que atingiu o mundo em 2009 e 2010, acometendo também as crianças. Hoje, sabe-se que os dois vírus se comportam de formas diferentes e, apesar do papel das crianças para a transmissão do coronavírus permanecer incerto, elas representam um número pequeno de casos e óbitos.

Um guia sobre a educação publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com colaboração da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), verificou-se que crianças com menos de 18 anos representam 8,5% dos casos notificados.

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Assim, com o retorno das aulas seguindo os protocolos e com a vacinação, os riscos de contaminação para esse público seriam relativamente baixos. Entretanto, outros estudos mostram que existem riscos reais para os demais membros da comunidade escolar (professores, gestores e funcionários) e isso não deve ser desprezado. Outro fator relevante é que o Brasil é o segundo país com maior número de crianças vítimas da covid, ficando atrás apenas do Peru.

Desse modo, qualquer decisão de reabertura deve baseada na situação epidemiológica da região e guiada por um detalhado plano de controle sanitário.

Como fazer a volta às aulas presenciais com segurança?

Para que que o retorno das atividades escolares presenciais ocorra em segurança, a pediatra Deise Beatriz Pereira afirma que as instituições de ensino ainda devem exigir a prática dos protocolos sanitários, como manter e incentivar a lavagem frequente das mãos; o uso de máscaras em crianças maiores de 2 anos; higienização periódica dos ambientes; manter os ambientes ventilados, com janelas abertas; e orientar pais e responsáveis a não levar a criança para escola se estiver doente.

“Todas essas medidas são comprovadamente eficazes e ainda necessárias, visto que nos mantemos em um estado pandêmico”, alerta a médica.

De acordo com a pediatra, após dois anos de pandemia algumas medidas se mostraram não tão efetivas, como a aferição da temperatura. “Percebemos que as medidas mais eficazes são o uso de máscara, lavagem das mãos, priorizar atividades em ambientes abertos ou ventilados e isolamento em caso de sintomas. A aferição de temperatura se mostrou uma medida ineficiente, pois gera uma falsa sensação de segurança. Temperatura elevada não é um sintoma obrigatório na Covid-19 e uma aferição normal pode fazer com que a pessoa se sinta protegida e não leve a sério medidas realmente efetivas”, destaca.

 A vacina, tanto dos educadores quanto das crianças, também é uma medida importante para tornar o ambiente escolar ainda mais seguro. “Nenhuma vacina protege 100% contra doenças, porém elas reduzem muito a chance de contaminação e, caso adoeça, reduzem a gravidade dela”, explica Denise.

Como cuidar da saúde mental da comunidade escolar?

Segundo a psicóloga clínica Ingrid Gomes Queiroz, os casos de transtornos mentais, depressão e ansiedade aumentaram consideravelmente após nos últimos dois anos. Por isso, neste momento de início de ano letivo, a profissional acredita que é importante toda a comunidade escolar estar atenta e apta para acolher uns aos outros.

“Os gestores e diretores podem pensar em formas de trazer psicoeducação para as escolas, como palestras, rodas de conversa, conscientização a respeito da importância dos cuidados com a saúde mental. Proporcionar também espaços de diálogo com a equipe, em que possam expressar suas dores e serem acolhidos”, sugere.

Por outro lado, a profissional ressalta que também é necessário que os gestores escolares pratiquem o autocuidado com a própria saúde emocional. “É muito importante que os gestores estejam atentos à sua própria saúde, tirando tempo de descanso e lazer, fazendo psicoterapia se acharem necessário, afinal, eles são os líderes de toda a comunidade escolar e carregam muita responsabilidade, principalmente em um momento tão delicado”, reforça.

Aos líderes das equipes pedagógicas, Ingrid destaca a necessidade de colocar em prática a escuta ativa. “É preciso estar atento às dores da equipe, das crianças e dos pais. Estar disponível não só a acolher, mas a fazer o possível para ajudar. Acredito que esse seja o papel principal de um líder. É difícil, mas é essencial. Ainda mais num momento tão delicado, não há uma hierarquia, há uma diferenciação de funções e a função de um gestor escolar é justamente essa de entender as dores de toda a comunidade e manter o sistema funcionando, sabendo acolher também individualmente”, orienta.

Quanto às crianças, a profissional afirma que as crianças foram muito prejudicadas na pandemia, sendo privadas de contato social, principalmente com seus pares, durante uma fase em que essa interação é importante para o pleno desenvolvimento infantil. Nesse sentido, Ingrid acredita que é papel dos professores estarem atentos a isso e, inclusive, trabalhar em sala de aula.

“Os gestores que puderem colocar espaços nas disciplinas para um acolhimento maior da saúde mental das crianças, deveriam fazê-lo. Conversar com a equipe sobre a importância disso e treiná-la para as mais diversas situações, e para estarem atentos às crianças que estão em sofrimento. As crianças passam grande parte do seu tempo na escola, então ter professores e gestores nos quais elas confiam para contar suas dores, pode ser essencial e vital, pois isso pode, inclusive, salvar a vida de muitas. É preciso que toda a equipe escolar seja esse sistema de apoio e refúgio da criança, que esteja sempre em diálogo com a família”, finaliza.

Quais os impactos em manter as escolas fechadas?

Apesar dos diversos estudos, análises e projeções sobre os riscos de contaminação com a abertura das escolas, essa questão ainda não está totalmente elucidada e não existe um consenso entre a comunidade científica. Entretanto, já é possível mensurar alguns impactos do longo período de fechamento das escolas.

 “A escola acaba influenciando o comportamento humano e trazendo estabilidade para a nossa sociedade, sem educação, os indicadores de saúde, segurança pública, despencam e isso reflete, obviamente, a economia e na sociedade”, explica a pediatra Gabriela Murteira.

A educação é de extrema importância para o desenvolvimento da sociedade, assim, na sua ausência, as desigualdades se acentuaram. Em um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre educação, publicado de agosto do ano passado, constatou-se que 40% dos países mais pobres não foram capazes de oferecer suporte apropriado aos alunos durante a pandemia. Com isso, o aprendizado foi comprometido e as meninas, em especial, ficaram mais vulneráveis aos abusos e violência doméstica.

 Além disso, a saúde emocional das crianças e dos jovens, que antes mesmo da pandemia já era negligenciada, agora está muito mais abalada. “No pronto-socorro nós estamos vendo, cada vez mais, um número de procura do PS infantil, com as queixas de ansiedade, agressividade, medo, depressão e inclusive tentativa de suicídio”, relata a pediatra.

A médica ainda explica que muitas crianças, em função da pandemia, estão expostas ao Estresse Tóxico, caracterizado como “experiências adversas, prolongadas e intensas sem nenhum suporte”. Como consequência, essa situação leva ao aumento de hormônios estressores, como o cortisol, que ao ser liberado continuamente muda a arquitetura do cérebro.

Essas alterações cerebrais podem comprometer diversas áreas, como a cognitiva e a emocional. Se a área afetada for relacionada à emoção, como as amígdalas cerebrais, a criança pode desenvolver uma resposta exagerada ao medo, traduzindo-se em um comportamento agressivo, por exemplo. Quando essa alteração é na área da memória, a principal consequência é um déficit de aprendizagem.

“O aumento do cortisol, não faz só alteração no cérebro, ele faz alterações no corpo todo, como sistema imunológico, cardiovascular, então, ele traz o aumento de doenças crônicas no adulto, e lembrando que todas essas alterações são para a vida inteira”, pontua Gabriela.

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Afinal, é seguro reabrir as escolas?

Já foi constatado que as crianças são menos susceptíveis ao Covid-19, contribuem menos para a transmissão da doença e estão com a saúde mental afetada. Apesar dos vários estudos que corroboram essas afirmações, muitos pais ainda se sentem inseguros em mandar as crianças para escola, o que é perfeitamente normal.

Diante dessa situação, os líderes escolares terão como grande desafio passar essa segurança às famílias, bem como oferecer apoio emocional aos seus professores e demais funcionários, afinal, em maior ou menor grau, todos foram afetados emocionalmente e psicologicamente pela pandemia.

“Os funcionários querem voltar, mas estão com muito medo e a gente sabe o quanto o medo paralisa as pessoas. Então, para que esse retorno não seja estressante, nem impactante de forma negativa para os funcionários da escola, é preciso ouvir, saber quais são os medos e levar informações de confiança para eles”, afirma Gabriela Murteira.

A pediatra ainda orienta aos gestores acompanharem as orientações e diretrizes de órgão de saúde e da educação, por exemplo, OMS e Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

 

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*Matéria atualizada em 01/02/2022, às 10:33am

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