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Após Amazonas dar a largada e retomar às aulas presenciais, mesmo em meio a polêmicas, outros estados se preparam para receber os alunos em sala após seis longos meses de isolamento social. Muitos pais ainda têm dúvidas se é seguro mandar as crianças para a escola, enquanto outros não cogitam essa opção à espera de uma vacina. 

Mas, o que os últimos estudos dizem sobre as aulas na pandemia? Qual a orientação dos médicos? Quais lições podemos aprender com Amazonas? Para responder essas e outras perguntas, conversamos com Dra. Gabriela Murteira, médica pediatra, que faz parte do Médicos pela Educação, um grupo de pais e mães médicos que promove discussões online sobre saúde mental e pandemia.

Dra. Gabriela relembra que no início da pandemia de Covid-19, o SARS-CoV-2 foi muito comparado ao H1N1, vírus responsável por um surto pandêmico que atingiu o mundo em 2009 e 2010, acometendo em grande proporções crianças. Hoje, sabe-se que os dois vírus se comportam de formas diferentes e, apesar do papel das crianças para a transmissão do coronavírus permanecer incerto, elas representam um número pequeno de casos e óbitos.

O novo guia sobre a educação publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com colaboração da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), verificou-se que crianças com menos de 18 anos representam 8,5% dos casos notificados. 

Assim, com a reabertura das escolas, os riscos de contaminação para esse público seriam relativamente baixos. Mas outros estudos mostram que existem riscos reais para os demais membros da comunidade escolar (professores, gestores e funcionários) e isso não deve ser desprezado. Desse modo, qualquer decisão de reabertura deve baseada na situação epidemiológica da região e guiada por um detalhado plano de controle sanitário.

 

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Quais os impactos em manter as escolas fechadas?

Apesar dos diversos estudos, análises e projeções sobre os riscos de contaminação com a abertura das escolas, essa questão ainda não está totalmente elucidada e não existe um consenso entre a comunidade científica. Entretanto, já é possível mensurar alguns impactos do longo período de fechamento das escolas. 

“A escola acaba influenciando o comportamento humano e trazendo estabilidade para a nossa sociedade, sem educação, os indicadores de saúde, segurança pública, despencam e isso reflete, obviamente, a economia e na sociedade”, explica Dra. Gabriela.

A educação é de extrema importância para o desenvolvimento da sociedade, assim, na sua ausência, as desigualdades se acentuaram. Em um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre educação, publicado de agosto, constatou-se que 40% dos países mais pobres não foram capazes de oferecer suporte apropriado aos alunos durante a pandemia. Com isso, o aprendizado foi comprometido e as meninas, em especial, ficaram mais vulneráveis aos abusos e violência doméstica.

Além disso, a saúde emocional das crianças e dos jovens, que antes mesmo da pandemia já era negligenciada, agora está muito mais abalada. “No pronto-socorro nós estamos vendo, cada vez mais, um número de procura do PS infantil, com as queixas de ansiedade, agressividade, medo, depressão e inclusive tentativa de suicídio”, relata a pediatra.

A médica ainda explica que muitas crianças, em função da pandemia, estão expostas ao Estresse Tóxico, caracterizado como “experiências adversas, prolongadas e intensas sem nenhum suporte”. Como consequência, essa situação leva ao aumento de hormônios estressores, como o cortisol, que ao ser liberado continuamente muda a arquitetura do cérebro.

Essas alterações cerebrais podem comprometer diversas áreas, como a cognitiva e a emocional. Se a área afetada for relacionada à emoção, como as amígdalas cerebrais,  a criança pode desenvolver uma resposta exagerada ao medo, traduzindo-se em um comportamento agressivo, por exemplo. Quando essa alteração é na área da memória, a principal consequência é um déficit de aprendizagem. 

“O aumento do cortisol, não faz só alteração no cérebro, ele faz alterações no corpo todo, como sistema imunológico, cardiovascular, então, ele traz o aumento de doenças crônicas no adulto, e lembrando que todas essas alterações são para a vida inteira”.

 

Qual a situação dos outros países?

Enquanto muitos países afrouxaram suas medidas de isolamento social entre maio e junho, o Brasil entrou em flexibilização ao final de julho, com datas e fases específicas para cada estado. Mas o que todos as Unidades Federativas têm em comum é a postergação da abertura das escolas, colocando-as na terceira fase.

Países como Dinamarca, Noruega e França reabriram suas escolas ainda na primeira onda (primeira fase); Reino Unido e África do Sul na segunda onda; Alemanha e Israel na terceira onda. Em todos os casos (exceto Israel), medidas estratégicas foram adotadas para retomada, por exemplo, escalonamento de horários, distanciamento e triagem dos sintomas. 

A Alemanha manteve suas escolas fechadas por pouco mais de dois meses (12/03 –  04/05), retomando primeiro as crianças do ensino médio, pré-escola e creches e depois as demais séries. Uma análise feita pelo Dr. Fábio Jung e Dr. Wanderson Oliveira, trazida por Dra. Gabriela, mostra que durante esse período não foram identificados aumento no número de casos, e sim uma queda. 

Bélgica, Holanda e França seguiram o mesmo comportamento da Alemanha, somente Israel que teve um aumento no número de casos após a abertura das escolas. Esse país, em especial, não adotou nenhum protocolo de segurança e dispensou o uso de máscaras.

Dra. Gabriela aponta como grande exemplo de controle da doença a Suécia, um dos raros países que não impôs a quarentena e suspendeu as aulas apenas para o ensino médio. Apesar de ir na contramão mundial, o país acumula um baixo números de óbitos quando comparado aos países que adotaram medidas de restrição. 

Um estudo suéco avaliou a continuidade das aulas em meio à pandemia. Os resultados indicaram um menor papel das crianças em ambientes escolares na transmissão da comunidade, além de dados relevantes: 

  • O número de casos de crianças continuou muito baixo, seguindo o padrão mundial;
  • Crianças de 0 a 9 anos representaram 0,5% dos casos;
  • Crianças de 10 a 19 anos representaram 1,2% dos casos.

 

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Como foi o volta às aulas no Amazonas?

Duas semanas após o retorno das aulas presenciais da rede pública no Amazonas, 392 professores testaram positivo para o novo coronavírus. Esse número representa quase 1/3 dos profissionais que estão trabalhando presencialmente, o que deixou a comunidade escolar apreensiva, fazendo com que alguns estados adiassem o volta às aulas.

Apesar do número ser assustador, ele não deve ser observado isoladamente, e sim junto com outras variantes devem avaliadas para se tirar conclusões. Segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado, desde julho vem ocorrendo uma redução no número de casos confirmados e internações de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em função de Covid-19.

O que acontece no Amazonas é uma tendência nacional. Um dos últimos Boletins Epidemiológicos, apresentado início de outubro pelo Ministério da Saúde, mostra que o Brasil teve uma queda de 11% na curva de casos confirmados e 8% do número de óbitos. 

 

Afinal, é seguro reabrir as escolas?

Já foi constato que as crianças são menos susceptíveis ao Covid-19, contribuem menos para a transmissão da doença e estão com a saúde mental bastante afetada. Apesar dos vários estudos que corroboram essas afirmações, muitos pais ainda se sentem inseguros em mandar as crianças para escola, o que é perfeitamente normal.

Diante dessa situação, os líderes escolares terão como grande desafio passar essa segurança às famílias, bem como oferecer apoio emocional aos seus professores e demais funcionários, afinal, em maior ou menor grau, todos foram afetados emocionalmente e psicologicamente pela pandemia.

“Os funcionários querem voltar, mas estão com muito medo e a gente sabe o quanto o medo paralisa as pessoas. Então, para que esse retorno não seja estressante, nem impactante de forma negativa para os funcionários da escola, é preciso ouvir, saber quais são os medos e levar informações de confiança para eles”.

A maioria das crianças são assintomáticas e, visivelmente, o professor não vai conseguir identificar que ela está doente para evitar uma possível transmissão, mesmo que raro. Mas como medida preventiva, Dra. Gabriela orienta construir um inquérito sintomas para identificar os membros da família do aluno que apresentam sinais indicativos da doença.

Ela ainda orienta aos gestores acompanharem as orientações e diretrizes de órgão de saúde e da educação, por exemplo, OMS e Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

 

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