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Foram muitos meses com as escolas fechadas, período em que o contato com os alunos e alunas foi mantido estritamente virtual por conta da pandemia. No entanto, alguns estados já permitiram o retorno das aulas presenciais, como por exemplo em Manaus, cuja volta ocorreu no mês de julho. Em outras regiões, como São Paulo, os colégios estão agora se preparando para a retomada. É, então, neste momento que surge mais um novo desafio: o ensino presencial e remoto ao mesmo tempo. Mas, afinal, como estão sendo as aulas híbridas nos estados que já voltaram às aulas?

Entretanto, antes mesmo de voltar às aulas presenciais com o ensino híbrido, as equipes de gestão escolar precisam de muito preparo, horas de estudo e diversas adaptações. A psicopedagoga Cristina Pinho, que é coordenadora de educação infantil e fundamental 1 no colégio Pallas Athenas, em Manaus, conta que, com o apoio dos sindicatos das escolas particulares, cada colégio criou um comitê de crise, que ficou responsável por planejar o retorno, estudando estratégias e protocolos.

“Estudamos muitos protocolos e montamos o nosso. Mas, antes disso tudo, precisávamos escutar a nossa comunidade, precisávamos saber se os pais compartilhavam desse mesmo olhar. Fizemos reuniões com todos os segmentos, da educação infantil ao ensino médio e cerca de 85% dos pais disseram que mandariam os filhos para a escola”, conta Cristina.

A partir desse momento, o colégio Pallas Athenas começou a se organizar efetivamente para a volta às aulas e os protocolos sanitários e pedagógicos foram apresentados para todas as famílias. 

A pedagoga com habilitação em administração, orientação e supervisão Josélia Trajano Ferreira, que atua como diretora pedagógica do Centro Educacional Pingo de Gente e Laviniense Ensino Integrado, também localizado na capital do Amazonas, conta que a escola, antes mesmo de se adaptar para o ensino híbrido, conversou com a comunidade escolar sobre o retorno e, após a decisão pela volta, realizou um treinamento com todos os funcionários.

“Nós ficamos quatro meses ausentes, estamos vivendo um isolamento social. Quando temos a oportunidade de voltar, mesmo sabendo que não há a necessidade de aglomerar, a prática nos faz querer estar perto o tempo todo, porque não estamos acostumados com o ‘novo normal’. É algo que vamos nos acostumando com a prática. Por isso precisa pegar o protocolo e treinar distância, higienização, uso correto da máscara. Quando você treina e prepara, a equipe se sente mais fortalecida”, pontua.

Nas duas escolas de Manaus, após o planejamento de todas as barreiras sanitárias, preparo da equipe pedagógica e diálogo estabelecido com as famílias dos alunos e alunas, teve início, então, a reestruturação das unidades de ensino para a prática do ensino híbrido. 

 

Qual o posicionamento dos sindicatos sobre as medidas necessárias para a retomada das aulas presenciais?

 

Como estão sendo as aulas híbridas?

No colégio Pallas Athenas, de Manaus, do ensino infantil ao fundamental, as turmas foram divididas em grupo A e grupo B, onde os alunos que pertencem ao primeiro grupo vão para à escola de segunda e terça-feira, e os demais vão às quintas e sextas-feiras.

“Na quarta todo mundo fica remoto, pois é o momento da gente limpar a escola de forma mais minuciosa, mesmo isso acontecendo a todo momento. Mas, assim, quando o outro grupo vir, a escola está totalmente limpa para recebê-los”, explica a psicopedagoga e coordenadora Cristina Pinho. 

Como foi adotado o ensino híbrido, o professor (a) dá aula simultaneamente para os dois grupos: os que estão presencialmente na escola e os que estão remotamente nas suas próprias casas.

Cristina ainda ressalta que há entradas diferentes na escola para cada segmento e que apenas os alunos têm acesso ao interior da instituição. Os pais e as mães permanecem ao lado de fora. “Em uma porta entra educação infantil, outra porta o ensino médio, que entra às 7h10, enquanto educação infantil entra 7h30. Todos passam por protocolos de limpezas dos calçados, aferição de temperatura e uso de álcool em gel”, enfatiza.

Depois de passar pela barreira sanitária, as crianças e adolescentes vão diretamente para as salas de aula, onde ocorrem agora até mesmo os lanches do intervalo. Na saída, o porteiro interfona avisando que o responsável pelo aluno chegou. “Ninguém fica mais no pátio”, pontua.

 

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Como não havia uma cultura digital no do Centro Educacional Pingo de Gente e Laviniense Ensino Integrado, de Manaus, a pedagoga e diretora Josélia Trajano Ferreira conta que foi necessária toda uma reestruturação tecnológica para implementar o ensino híbrido. Agora, metade dos alunos que aderiu ao ensino presencial tem aula de segunda, quarta e sexta e, na outra semana, vai de terça e quinta-feira. E assim, segue, alternadamente. 

“Nos primeiros dias, percebemos que os professores estavam roucos pelo esforço da voz com a utilização da máscara. Então, compramos microfones de lapela para não comprometer a voz deles”, exemplifica uma das situações que exigiram mudanças, inclusive, para a manutenção da saúde dos funcionários. 

E para atender os alunos presencialmente, mas sem aglomeração, foi preciso adaptar até mesmo os espaços internos da escola. “A biblioteca hoje é uma sala de aula, assim como o nosso auditório se transformou em duas salas de aula”, afirma.

 

Professor compartilha experiência do ensino híbrido

O professor de educação física Tiago Julian da Silva Medeiros, de 28 anos, que leciona em uma escola de Natal, no Rio Grande do Norte, conta que estava repleto de incerteza com o retorno das aulas presenciais. “Já estávamos adaptados com as aulas remotas, porém muito saturados. Então, quando veio a possibilidade da volta, deu um frio na barriga, pois sabíamos que seria mais um novo processo de adaptação, principalmente a Educação Física, que está sendo muito reformulada para que se mantenha o distanciamento”, pondera.

A escola em que Medeiros trabalha também optou pelo ensino híbrido e tem oferecido as condições tecnológicas necessárias para que o trabalho seja realizado. “Estou tentando olhar pelo lado positivo, são novos aprendizados, principalmente relacionados as ferramentas tecnológicas. Então, está sendo uma experiência diferente e muito enriquecedora”, ressalta.

Para ele, a missão de educar se torno ainda mais desafiadora e motivadora neste atual cenário. “Como profissional de educação física, me vejo ainda mais responsável por mostrar aos estudantes a importância do exercício, e como faz mal deixar o nosso corpo inativo e alimentar apenas a mente com jogos eletrônicos”, explica.

 

Mãe conta experiência da volta às aulas da filha

A nutricionista Juliana M. Maia Roma, de 38 anos, é mãe de três: Rodrigo, de 14 anos, Júlia de 12 anos, e a pequena Lia, de 5 anos. No momento, a única que retornou para a escola foi a caçula. “A retomada das aulas, ainda que dividida em fases e atendendo apenas a Lia, já foi um grande alívio. O sentimento é de confiança, de que tudo vai dar certo! Estou muito feliz, apesar de, às vezes, achar que o psicológico aperta para as crianças com as restrições. Mas ainda assim acredito que esse é o caminho! Com calma e com os cuidados adotados, logo tudo vai fluir”, acredita.

Entretanto, Juliana afirma o ensino híbrido tem sido desafiador, pois a filha quer manter as aulas apenas presencialmente. “A Lia está no ensino híbrido e não concorda em ter que fazer a semana on-line. A ida à escola foi algo muito desejado por ela. A aceitação do ensino on-line não a satisfaz. Coordenar as tarefas, assistir as aulas e a frequência on-line não são produtivas”, explica.

A escola, que fica em Fortaleza, no Ceará, mantém cada sala funcionamento presencialmente apenas com 30% da capacidade. “As crianças não têm parquinho, as mesinhas foram separadas, o material escolar foi todo individualizado, as crianças ao chegarem fazem higienização com álcool em gel e as máscaras fazem parte obrigatória do fardamento. A agenda escolar virou on-line, precisamos comunicar a escola através de um aplicativo que estamos chegando. Casa criança espera em cima de um quadrado, demarcando o seu espaço”, conta sobre o atual funcionamento.

As turmas ficaram divididas em três grupos, que se revezam entre aulas on-line e presencial. 

 

Escola de São Paulo se prepara para volta às aulas com ensino híbrido

Localizada em São José dos Campos (SP), a Escola Pindorama se prepara para a volta às aulas presenciais que está marcada para este mês de outubro, quando 35% dos alunos passarão a frequentar o espaço escolar, que adotará o ensino híbrido. “Os alunos virão para a escola de forma presencial 3x na semana em seu horário normal, porém com espaçamento de 10 minutos entre uma sala e outra para cumprirmos o distanciamento social. E outros dois dias da semana de forma remota”, explica a psicopedagoga Cibele Renó, que é especialista em primeira infância e especialista em gestão escolar. 

De acordo com Cibele, a gestão escolar se preocupou em separar os alunos presenciais e remotos para preservar a opção de cada família. “Então, os alunos não terão, neste primeiro momento, contato para evitar compartilhamento de experiências e causar contratempo. Preservamos sempre a saúde emocional de nossos alunos”, ressalta. 

 

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