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As avaliações são importantes componentes do processo de aprendizado e previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que diz: “a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais”.

Dentre os vários métodos avaliativos, no Brasil, ainda predomina as questões com múltiplas escolhas para mensurar o aprendizado do alunos. Então, desde as séries iniciais até o ensino médio o aluno é preparado – pode-se dizer até treinado – para as provas mais importantes da sua trajetória escolar, que são os exames vestibulares.

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) hoje é a porta de entrada para as principais faculdades públicas e particulares no país. Só no último exame, em 2019, cerca de 3,9 milhões de participantes foram submetidos a 180 questões de múltipla escolha mais uma redação, sendo realizados em dois dias diferentes.

Apesar dos avanços que o Enem teve desde a sua criação, em 1998, muitos especialistas da área da educação ainda fazem críticas ao seu atual formato. Uma das principais críticas é em relação às habilidades e competências exigidas que, segundo eles, não estão adequadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

“A avaliação do Enem não é capaz de avaliar todas as competências da BNCC, e a gente tem que entender que essa avaliação é para entrar no vestibular. Uma escola não pode deixar todas as suas estratégias focadas em uma prova para passar no vestibular, ela tem que formar o ser de maneira integral”, argumenta Miguel Thompson, educador, diretor acadêmico da Fundação Santillana e consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento das Nações (PNUD).

 

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Premissas da formação integral

Fazendo uma análise da história da pedagogia, Thompson afirma que vivemos uma grave crise da razão instrumental, e um dos principais fatores para isso é que as ciências e a tecnologia estão mal distribuídas na sociedade, assim como a renda. “Há uma diferença muito grande na distribuição do conhecimento, e mais, o fato de não chegar conhecimento a uma parcela grande da população”.

Na perspectiva dele ainda há outro problema histórico bem grave, que é a eliminação do ser humano do processo de conhecimento. “Quando a gente vai falar de ciências, raramente você traz os dilemas dos cientistas […] é como se o conhecimento viesse postiço, não fosse feito por seres humanos”.

Os filósofos tradicionais (Sócrates, Platão e Aristóteles), ainda segundo o consultor do PNUD, contribuíram para a crise da razão instrumental, pois foram eles que criaram a ideia de um ser humano cívico, sábio, mas, ao mesmo tempo, muito racional. Essa concepção se perpetuou por muito tempo, não contribuindo para visão integral do ser humano.

Essa visão radical de razão foi contestada por Rousseau, que era um grande defensor da infância, e inspirou grandes educadores, como Pestalozzi. “Pestalozzi tem uma coisa muito legal, ele era absolutamente contrário a qualquer tipo de avaliação. Ele entendia que as crianças tinham que encontrar os seus caminhos a partir do trabalho do professor e que não fazia sentido ficar avaliando-as constantemente”, comenta Thompson.

 

A escola contemporânea

A escola contemporânea já está fazendo uma transição, no sentido de valorizar o ser humano em sua integridade. Mas o consultor do PNUD acredita que aconteceu, na verdade, uma mudança brusca ao concentrar o conhecimento em listas e enciclopédias. “Esses exames aqui, como o Enem, que acabou virando um grande vestibular, apesar de falar que trabalham habilidades, trabalham muito mais conhecimentos que são listas e memorização”.

 

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Ele ainda completa: “Não que a gente tenha que abandonar o Enem ou o Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Mas a gente tem que entender que eles só pegam uma parcela do conhecimento, das dez competências do ENEM, eu acho que ele pega bem três competências gerais, duas mais ou menos e cinco que não pega”.

As competências as quais ele se refere são:

  •     Conhecimento;
  •     Repertório cultural;
  •     Argumentação;
  •     Pensamento científico, crítico e criativo;
  •     Comunicação;
  •     Cultura digital;
  •     Trabalho e projeto de vida;
  •     Autoconhecimento e autocuidado;
  •     Empatia;
  •     Cooperação.

Hoje, mais do que nunca, vivemos em um mundo V.U.C.A (volátil, incerto, complexo e ambíguo). Então, pensar em novos modelos avaliativos já não é mais uma alternativa e sim uma necessidade, afinal, as crianças dessa geração precisam ser preparadas para lidar com as emergências, as crises e as aleatoriedades do mundo.

“Esse mundo da cultura digital, que é uma das competências da BNCC, passa longe das avaliações. Agora, as avaliações, no futuro, podem ser avaliações com elementos digitais, com simulações que estimulem o avaliado a trabalhar a criatividade, a trabalhar a lógica, outros elementos que não só múltipla escolha”, sugere Thompson, que também estimula o desenvolvimento de outras competências em sala:

  •     Colaboração;
  •     Curiosidade e imaginação;
  •     Liderança por influência;
  •     Agilidade;
  •     Adaptabilidade;
  •     Iniciativa;
  •     Empreendedorismo;
  •     Comunicação oral.

 

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