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Apesar do ano que vem ainda ser uma incógnita para o ensino do país, já que a crise sanitária permanece como desafio em nível global, é fato que a tecnologia chegou para ficar e se estabelece como uma nova realidade da educação brasileira.

Especialistas apontam o ensino híbrido como uma saída para o retorno parcial das aulas presenciais em 2021, em meio às incertezas sobre vacinas e um possível fim para a epidemia. Sendo assim, o profissional da educação precisa continuar buscando capacitações para sua formação como docente e desenvolvendo habilidades que o permitam aprimorar seu desempenho na educação à distância. 

O professor de química Carlos Eduardo de Moura Luz já tinha familiaridade com plataformas como o Zoom e o Google Meet, mas jamais imaginaria que essas ferramentas seriam imprescindíveis para a nova realidade do seu trabalho neste ano letivo. 

“Foi preciso ter calma para perceber como o ensino online ia funcionar para a gente e para os alunos. Como já tinha experiência com as ferramentas, foi mais tranquilo, mas vi que para alguns alunos foi bem difícil essa transição”, disse. 

Com a pandemia, o docente da Escola Estadual Américo Renê Giannetti, em Uberlândia (MG), tirou do papel algo que já vinha sendo incentivado pela esposa: abrir um canal no YouTube com materiais extras para seus alunos, o “Química com Dudu”. 

“Minha esposa sempre disse que eu levava jeito, mas eu adiava esse projeto. Com a pandemia, um aluno também sugeriu que eu fizesse conteúdos extras em vídeos e foi o que fiz. Esse primeiro vídeo foi sendo enviado de aluno para aluno e todos gostaram, então abri o canal”, contou. Hoje o canal já conta com mais de mil inscritos, mostrando que o conteúdo produzido pelo docente extrapola a sala de aula.

 

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Internet e a educação do futuro

Apesar da pandemia ter aberto essa oportunidade para Eduardo, nem todos os professores do País tinham tal familiaridade com as novas tecnologias e foi preciso “se virar nos 30” para aprender a dar aula à distância. “Vi muito professor ficando louco com o mundo online, porque tudo aconteceu num susto. É preciso ir atrás porque eu vejo que a internet é o futuro. As escolas vão ter o ensino presencial e o online, então tem que ir atrás para aprender sobre essas ferramentas e os professores têm que passar por uma capacitação para que tenham esse tato com as novas tecnologias”, avalia Eduardo.

Nesse período de adaptação para a nova realidade, muitas instituições se uniram para oferecer cursos de apoio para formação de docentes, atividades pedagógicas e conteúdos gratuitos aos profissionais de educação, afim de que eles pudessem se capacitar para as aulas online. 

Foi o caso do Projeto Polo, mantido pelo Itaú Social, que além de oferecer conteúdos sobre educação na pandemia dentro de seu ambiente de formação para docentes, também apoiou iniciativas como a Plataforma de Apoio à Aprendizagem, Aprender Juntos e Cátedra de Educação Básica.

Especificamente em sua plataforma, o projeto do Itaú Social disponibilizou vídeos, textos, ferramentas, planilhas e fóruns para o compartilhamento de experiências. 

“Buscamos ser o mais práticos possíveis, escolhendo assuntos ancorados na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), como os Mapas de Foco, cards de atividades para professores da Educação Infantil trabalharem junto com as famílias, além dos conteúdos que podem ser acessados tanto por gestores como professores”, explicou Claudia Petri, coordenadora de implementação regional do Itaú Social.

Outro eixo de atividades desenvolvido pelo Polo foi disponibilizar um material criado para ajudar o profissional de educação a focar nas principais habilidades e competências que os alunos precisavam desenvolver no restante do ano letivo, com o objetivo de minimizar a perda da qualidade no processo de ensino-aprendizagem. 

“Todos os esforços foram para sintetizar um conhecimento que dê suporte ao educador em um momento muito particular, inédito, em que o planejamento escolar foi todo comprometido”, ressalta.

 

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A importância da escuta ativa

Claudia Petri, porém, reforça que para além do conteúdo, esse período da pandemia mostrou que é preciso promover um processo de escuta junto aos professores para entender quais eram as necessidades deles e onde as tecnologias se tornaram imprescindíveis para a continuidade do ensino.

A característica da escuta ativa também foi reforçada pelo diretor acadêmico da escola Luminova, que possui unidades na capital paulista e em Sorocaba (SP), Luizinho Magalhães. Na visão do gestor, a pandemia mostrou que é necessário se adaptar às novas realidades, compreendendo as necessidades dos alunos e professores. “É preciso entender e ouvir o que esse estudante tem a dizer, torná-lo agente principal do seu próprio processo de aprendizagem”, ressalta. 

O diretor da Luminova ressalta que não há mais espaço para aulas somente expositivas, onde o docente passa todo o conteúdo e o aluno apenas o recebe. Sendo assim, Magalhães afirma que o professor deve ser estimulado a inovar e propor soluções criativas dentro da sala de aula, cabendo à gestão da escola a responsabilidade de tornar essas ações possíveis.

Essa opinião é corroborada pela psicóloga, consultora educacional e professora Carla Jarlicht. Com o crescente uso de novas tecnologias na sala de aula, fica mais evidente que o professor não possa se restringir ao livro didático. 

“A ideia do professor transmissor de conhecimento está esgotada. O aluno de hoje está num outro ritmo, eles são mais curiosos e têm mais acesso às informações. O professor precisa ser o curador, uma espécie de mediador para ajudá-los a fazer articulações entre essas informações. É isso que os mantém motivados, porque o ensino passa a fazer sentido para ele”, explica Carla.

Na Luminova, Magalhães explicou que tem como padrão convidar os professores, logo que são contratados, a fazer uma pós-graduação em metodologias ativas, cujo objetivo é justamente torná-lo apto a trazer o aluno ao protagonismo do processo de aprendizado. 

“Eu busco por profissionais que sejam por si só inovadores e criativos. Há uma professora de literatura que, cantando músicas populares, exemplifica verso por verso como aquela canção, já tão conhecida entre a maioria dos alunos, pode ser considerada como um movimento literário específico, como trovadorismo e cantiga de amigo”, exemplificou o gestor.

A escola já estava habituada ao uso de ferramentas tecnológicas para auxiliar no processo de aprendizagem antes mesmo da pandemia. Neste ano letivo, a unidade está com as aulas virtuais e o aluno utiliza a plataforma CamaleON para fazer exercícios, que, por meio de algoritmos produzidos por uma inteligência artificial, constroem trilhas de aprofundamento ou de refação das atividades. “É uma maneira de trabalho personalizado de cada aluno”, explica o gestor.

 

A importância do gestor apoiador

A consultora educacional Carla Jarlicht lembra que o gestor é peça-chave para que a parceria entre o professor e os alunos possa se concretizar. “O professor foi muito exigido com a pandemia e, mais do que nunca, o gestor precisa oferecer apoio para que o educador seja acolhido e se sinta bem para desenvolver seu trabalho”, ressalta.

Para além de oferecer recursos e formações aos professor, o gestor da escola pode trabalhar encorajando os educadores a desenvolver a confiança que precisam neste momento. Para mantê-los motivados, a sugestão da psicóloga e consultora educacional é realizar encontros semanais com os professores para ajudar no planejamento e para partilhar as impressões sobre o trabalho.

“O gestor também precisa da escuta ativa. Ele precisa ouvir o que o professor está fazendo e saber como os alunos estão se desenvolvendo. Por estar de fora, o gestor pode sugerir e ampliar o olhar sobre o trabalho do professor, o ajudando a aprimorar as atividades propostas. Ele precisa se mostrar proativo neste momento e dividir a responsabilidade”, sugere.

 

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Claudia Petri, do projeto Polo, lembra que para que a educação digital seja efetiva no Brasil, é imprescindível que o professor receba apoio e infraestrutura para a construção e disponibilização de recursos educacionais digitais. Porém, reforça a necessidade de ações de humanização e acolhimento da comunidade escolar, evidenciando a importância dessas características e como elas fizeram falta para alunos e professores durante o período de ensino remoto. 

“O clima da escola influencia significativamente os processos de ensino e aprendizagem e, por isso, é necessário cuidar do bem-estar psicossocial da comunidade escolar e promover ações efetivas para um ensino com equidade”, diz Claudia.

“Muitos alunos sentiram dificuldade de aprendizado, queriam saber quando as aulas voltariam, dizendo que não estavam aprendendo nada online”, desabafa o professor Carlos Eduardo de Moura Luz. Ele contou que jogou a seu favor o fato de ser muito próximo dos alunos e dele conseguir abordar os conteúdos de forma direta, não precisando mudar a abordagem das suas aulas.

E justamente essa aproximação do professor com o aluno pode fazer a diferença na aprendizagem, de acordo com a psicóloga e consultora educacional, Carla Jarlicht. “Antes o olho no olho entre aluno e professor era predominante e agora, no ensino remoto, a distância física faz com que muita coisa se perca. É preciso manter um canal de contato para ir alinhando as expectativas. Essa avaliação tem que ser conjunta, para que os alunos deem um retorno sobre o que acharam das atividades”, explica Carla.

“Os professores exerceram um papel fundamental nesta pandemia e podem ser considerados verdadeiros heróis, juntamente com os trabalhadores da saúde. Em grande parte, sem uma formação inicial que os preparasse para o desafio, professores destacaram-se ao reinventarem suas aulas, buscando formação continuada, utilizando a criatividade e vencendo barreiras tecnológicas”, constata Claudia.

 

Confira algumas plataformas que oferecem capacitações gratuitas para os profissionais de educação:

Projeto Polo, mantido pelo Itaú Social

Ambiente Virtual de Aprendizagem do Ministério da Educação

Apoio ao Professor, um projeto da UNESCO em parceria com o Instituto Phorte Educação

E-aulas da USP (Universidade de São Paulo)

E-aulas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

Escolas Conectadas, projeto da Fundação Telefônica Vivo e da Fundação Bancária la Caixa

Google Education

Fundação Lemann

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