9 min de leitura

Enquanto as secretarias de educação se articulam para a volta às aulas presenciais, a sociedade mantém muitos debates sobre os protocolos de saúde que devem ser adotados, sobre a necessidade de reestruturação de alguns espaços físicos das escolas, das barreiras sanitárias que precisam fazer parte da rotina escolar e os desafios do ensino híbrido. Apesar de todas essas questões serem fundamentais para um retorno seguro, é preciso lembrar da importância de olhar para o professor no momento de retomada das aulas presenciais.

Afinal, são os educadores que vão acolher tantos alunos e alunas emocionalmente abalados, seja por conta do isolamento social, ou por terem perdido familiares vítimas da pandemia ou porque a família teve uma mudança no padrão de vida por complicações financeiras ocorridas nesse cenário tão desafiador.

Mas, por outro lado, quem acolhe os professores e as professoras, que também têm suas dores, angústias e receios, sendo que muitos ainda podem fazer parte do grupo de risco? De acordo com a consultora educacional Jusley Valle, que é fundadora da Academia de Pais Conscientes, o planejamento e o acolhimento por meio do preparo emocional desses profissionais são de extrema importância, já que os educadores estarão na linha de frente para receber os alunos e famílias, dentro de uma realidade alterada e com muitas adaptações.  

“O professor se encontra no meio do olho do furacão, porque é atingido não só como profissional, mas também como indivíduo. É bom lembrar que os professores, antes e além de serem professores, são homens e mulheres, pais e mães, seres humanos que sofrem com angústia, inseguranças, estresse emocional e físico, sobrecarga de trabalho…”, pontua.

Para a consultora educacional Sandra Helena Santos, é preciso olhar com prioridade o bem estar do educador para que ele possa executar seu trabalho e encontrar novas soluções para os atuais desafios. “O educador é o elemento conector do estudante com a aprendizagem e com os ambientes que propiciam a aprendizagem. É o elemento que impulsiona o gosto por aprender. Então, quando estamos numa situação como a atual em que o elemento conector também foi e, está sendo afetado diretamente, faz-se necessário mais que um apoio”, ressalta.

 

A influência das questões socioemocionais 

Segundo a consultora educacional Sandra Helena Santos, a recomendação é ter um olhar único para cada professor. Por isso, ela sugere diagnosticar o corpo docente, para verificar quais dificuldades cada profissional está enfrentando. Depois disso, o caminho sugerido é fornecer subsídios adequados, como tecnologia, apoio emocional, pensar soluções de aprendizagem e fornecer equipamentos/instrumentos pedagógicos.

“Pode parecer piegas, mas o amor e a compaixão são emoções que devem ser vivenciadas em sua plenitude. Os gestores educacionais devem estimular a aprendizagem naquilo que faz sentido nesse momento, que não é o conteúdo técnico, mas talvez o exercício de comportamentos que estimulem práticas como a empatia, compaixão, resiliência e até a compreensão sobre o meio ambiente, consequências da pandemia e saberes que talvez e, certamente, não estarão na grade curricular”, sugere.

Na visão da consultora educacional Jusley Valle, que fundadora da Academia de Pais Conscientes, acolher o professor é a primeira etapa dentro do planeamento e da estratégia de retorno das aulas. Ela afirma que é vital realizar um trabalho de desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais para o time de educadores, com o objetivo de minimizar os impactos dessa transição e manter a conexão entre escolas, alunos e famílias.

 

Confira também:
Motivação gestor-professor: como manter sua equipe engajada durante o home-office?

 

“Os professores estão desgastados e muitos se encontram desconectados de sua missão e propósito, devido às distorções que ocorreram ao longo do tempo e nesse período crítico. O resgate do senso de pertencimento, de importância e de utilidade do professor, fará a reconstrução da base, fortalecendo os profissionais com visão de futuro e preparados para atuar, independente de interferências externas”, ressalta. Para Jusley, o momento é propício para sair da teoria e colocar em ação estratégias e ferramentas de apoio.

As profissionais ainda destacam que, neste retorno, é importante fornecer apoio para toda a comunidade escolar. “É extremamente importante manter um olhar amplo e cauteloso, para lidar com as questões socioemocionais em relação às famílias, aos alunos, aos professores e aos profissionais envolvidos, desde a Diretoria à Equipe Administrativa”, acrescenta Jusley.

 

Docentes em grupos de risco e/ou inseguros para a volta: como lidar? 

Para a consultora educacional Sandra Helena Santos, os professores e professoras que pertencem ao grupo de risco devem permanecer com as aulas on-line. “Nesse ponto é que a colaboração deve ser um comportamento que permeie toda a escola e comunidades do entorno, porque essa solução impacta a aplicação de uma grade curricular e uma nova composição de aprendizagem precisa ser considerada”, explica.

Sandra acredita que novos papéis podem e devem ser considerados pela gestão escolar. “Veja, se um professor está em casa lecionando on-line, outro que está na escola pode complementar as aprendizagens propostas”, afirma.

De acordo com a consultora educacional Jusley Valle, a escola, como ambiente representativo da diversidade e da oferta de oportunidades igualitárias, pode aproveitar esse momento para colocar em prática a solidariedade e a preservação do bem-estar social desse grupo de professores. 

“Pensar de uma forma nova e diferente que oportunize escalas, priorização de retorno dos profissionais que se encontram em condições físicas e emocionais de voltar, redistribuição de tarefas, papéis e responsabilidades, retirando esse grupo específico do contato diário com outras pessoas e atuando de forma mais reservada, o que reduziria as chances de contágio, por exemplo”, orienta.

 

Profissionais especializados podem ajudar no acolhimento dos educadores

À frente da RA – Desenvolvendo Talentos, Renata Gioia, que é formada em Direito e pós-graduanda em Métodos Adequados de Solução de Conflitos, Formação em Programação Neurolinguística, e Afonso Matheus, que é formado nas áreas de Hotelaria, Turismo e Eventos, atua como professor, consultor e coach, acreditam que a transformação de pessoas, equipes, empresas e escolas é fundamental para o florescimento humano.

Sendo assim, eles acreditam que contar com profissionais especializados para planejar e promover o acolhimento dos educadores pode fazer a diferença neste momento tão desafiador. 

“A primeira coisa que a gente faz é promover conexão. Nós apoiamos e promovemos conexão na volta às aulas, porque cada um é importante e tem um valor imensurável. Nessa volta às aulas, o mais importante é mostrar para cada um desses profissionais o quanto a escola se importa com eles”, afirma.

Uma das propostas da RA – Desenvolvendo Talentos, é realizar oficina presencial com dinâmicas para valorizar os colaboradores da escola. Agora, caso a instituição opte por uma ação on-line, a empresa possui uma ferramenta de fotolinguagem. “Trata-se da linguagem daquilo que não é dito. Só 7% da nossa comunicação é verbal. O objetivo dessa ferramenta é expandir corações e mentes ao redor do mundo”, explica. 

 

Confira também:
Como a capacitação de professores em tecnologia pode ajudar durante a crise

 

Como tem sido o acolhimento onde as aulas já voltaram? 

Com autorização do governo de Manaus, o colégio Pallas Athenas retornou às aulas no mês de julho. Porém, uma semana antes de receber os alunos, a gestão escolar preparou uma acolhida para os professores.

“O primeiro dia foi para essa acolhida, foi para o choro, para os professores falarem dos seus medos, para discutir se era seguro voltar ou não. Foi para trocar experiências de como eles estavam se sentindo no isolamento, distante de todo mundo, mas perto virtualmente. Houve muito choro, mas foi super importante receber esses professores”, explica.

Já a Escola Pindorama, localizada em São José dos Campos, em São Paulo, está na reta final da preparação para o retorno das aulas presenciais, que ocorre neste mês de outubro. Entretanto, a pedagoga e psicopedagoga Cibele Renó, que é especialista em primeira infância e gestão escolar, ressalta que o acolhimento não deve acontecer pontualmente apenas neste momento.

“O acolhimento dos professores não pode ser realizado apenas agora, no retorno dos professores às aulas presenciais, mas foi fundamental acolhê-los desde a primeira semana da pandemia, pois tudo aconteceu tão rápido e tão inesperado que, se a gestão da escola não cuida deste profissional em todos os aspectos a escola não continuaria viva! A gestão é importante, mas os professores são essenciais! São a alma da escola!”, enfatiza.

De acordo com Cibele, a escola propôs acolhimento desde o início, levando em conta todos os aspectos físicos e emocionais. “Toda segunda-feira tínhamos atividade física com o professor de Educação Física; toda terça-feira bate-papo emocional com a psicóloga da escola; toda quarta-feira proposta surpresa em que a gestão preparava um desafio, um momento de reflexão ou um convidado especial para falar de moda, culinária, etc; toda quinta-feira aula de jazz com professora especialista; e toda sexta-feira feedback por série”, conta Cibele sobre como os professores foram acolhidos durante o período de aulas remotas.

“Agora, pensando da retomada, já estamos nos reunindo remotamente para falarmos de nossos medos, inseguranças e alegrias. Quando o acolhimento é diário, não precisamos nos preocupar com um único dia”, pontua.

 

Confira também:
Encorajamento em tempos de crise: professores preparados para a retomada

Comentários