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Vivemos uma quarta revolução industrial em nosso dia a dia, caracterizada pela forte presença de tecnologias digitais, mobilidade e conectividade. Essa evolução exponencial muda a forma como produzimos, consumimos, nos relacionamos e buscamos informação. Isso acaba refletindo diretamente na economia, no mercado de trabalho e, consequentemente, nas escolas.

Hoje, existe a responsabilidade de prepararem crianças e jovens para um mundo cada vez mais volátil, incerto, complexo e ambíguo.

Esse conjunto de características ganhou, inclusive, uma sigla própria: Mundo Vuca – sigla em inglês para denominar volatividade (volatility), incerteza (uncertainty), complexidade (complexity) e ambiguidade (ambiguity) – e que exige competências e habilidades cada vez mais transversais, como aprender a aprender, interagir e se autoexpressar.

Neste contexto, o modelo de educação em que o professor é o detentor do saber e o aluno recebe dele o conhecimento de forma passiva, acaba por não se adequar a essas novas demandas.

Assim, para adaptar a escola a essa realidade, novos modelos de aprendizagem estão sendo colocados em prática, com inspirações que vêm de países que ostentam os melhores desempenhos no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).

Neles, o aluno está no centro do processo de aprendizagem, construindo o conhecimento de forma autônoma, participativa e sendo “provocado” a absorver os conteúdos através de desafios, ações, projetos e resoluções de problemas reais.

Conhecidas como “metodologias ativas de aprendizado”, essas novas formas de aprender e de ensinar estão chegando no Brasil como aposta para colocar o ensino do país alinhado com o futuro.

Neste artigo, vamos apresentar 5 cases de sucesso de escolas que vêm colocando esses métodos inovadores em prática. Confira!

 

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Ensino Híbrido

Embora pareçam novas, as metodologias ativas de aprendizagem são baseadas em conceitos já bem conhecidos na educação. Elas têm origens em autores como o construtivista Jean Piaget, que já afirmava na metade do século 20 que “se aprende fazendo“, no pragmatista John Dewey, que falava em valorizar a capacidade de pensar do aluno, unindo teoria e prática, e em Jean-Ovide Decroly, que fundamentava a argumentação do seu trabalho na possibilidade do aluno conduzir seu próprio aprendizado e, assim, aprender a aprender, já na virada do século 20.

Mas, muito embora sejam princípios antigos, ano após ano a escola preferiu seguir reproduzindo o modelo tradicional de ensino.

Porém, com a revolução tecnológica em curso, um modelo educacional tradicional torna-se insustentável frente a uma geração digital.

“Muito mais que um modismo, as metodologias ativas vêm para atender uma necessidade. Uma demanda da educação que favoreça na verdade o aprender a aprender. Assim como o ensino crítico, uma nova forma de ver e sentir o mundo”. Assim defende Ericka Vitta, diretora do NEI (Núcleo de Educação Integrada) da Fundação Romi.

A escola de Santa Bárbara d’Oeste (SP) usa tendências do ensino híbrido, como o Project Based Learning (Aprendizado Baseado em Projetos), o Flipped Classroom (Sala de Aula Invertida) e o Design Thinking (pensar através do design) em todos os seus segmentos, da Educação Infantil ao Ensino Médio.

No NEI, as salas de aula são interativas e não têm “frente nem atrás”. O ambiente de trabalho tem espaços amplos. A infraestrutura do colégio, de mais de mil metros quadrados só de áreas abertas, pode ser usada pelos estudantes. Todos têm total autonomia para estudar, ler e pesquisar em grupo, sem que necessariamente o professor esteja presente.

Outra característica do trabalho desenvolvido na escola é que as turmas são multiseriadas. Os temas estudados pelos alunos trabalham a interdisciplinaridade, dentro de um projeto pedagógico que contempla todos os conteúdos da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que o MEC (Ministério da Educação) estabelece como obrigatórios.

Neste modelo de ensino, a avaliação é personalizada e feita através da análise do portfólio de cada estudante. Cada um dos alunos são avaliados conceitualmente, em seu desempenho individual, em duplas, em grupos, e através de autoavaliação.

A diretora, que visitou escolas que empregam metodologias ativas de ensino na Finlândia e na Inglaterra, e neste ano vai conhecer novas experiências na Itália, é categórica em afirmar que: “esse modelo não tem volta, é o que o mundo todo está adotando.”

 

Escolas buscam inspiração internacional para inovar

Há dois anos em atividade, a escola Concept, que tem unidades em São Paulo, Ribeirão Preto (SP) e Salvador (BA), buscou no exterior a inspiração para formular sua proposta pedagógica.

O Grupo SEB (Sistema Educacional Brasileiro) – instituição que administra a Concept -, esteve na Finlândia, Cingapura, Suíça e EUA para conhecer de perto como funcionava a educação nesses países que são referência no Pisa.

E assim, as metodologias ativas de aprendizado que foram escolhidas para reger o trabalho pedagógico da Concept são várias: o Project Based Learning, Challenge Based Learning (Aprendizagem Baseada em Desafios), Phenomenon Based Learning (Aprendizagem Baseada em Fenômenos) e o Understanding by Design (Entendimento por Design).

Além disso, a Concept trabalha o currículo sócio-emocional a partir do Institute Habits of Mind e os projetos são focados no Visible Thinking, do Project Zero, de Harvard. Por ser uma escola global, tem ainda um currículo adicional internacional, que vem da instituição britânica Fieldwork Education.

“Os educadores dão miniaulas sobre os conteúdos para que as crianças os entendam e possam aplicá-los nos projetos. Esses conteúdos são trabalhados em sala de aula sempre com metodologias ativas. Nunca é o professor explanando e o aluno anotando. Nunca é o aprender de forma passiva. É sempre com a participação do aluno“, explica Priscila Torres, diretora geral e acadêmica da Concept.

A arquitetura responsiva da escola favorece o desenvolvimento da metodologia. Todos os espaços têm um caráter pedagógico e são pensados para possibilitarem interação entre os estudantes e o ambiente.

Segundo Priscila, a vantagem de trabalhar dentro dessa metodologia é que ela consegue “pegar a criança de onde ela está e levá-la para onde ela precisa estar”. Sempre através de processos de feedbacks constantes e avaliação continuada.

 

“A gente se comunica com as nossas famílias semanalmente, compartilha feedback sobre o que está acontecendo em cada sala”, observa.

Veja o que mais podemos aprender com as escolas Concept e Avenues

 

Da base até à graduação

A Fiap School, antigo Copi (Colégio Paulista) com mais de 20 anos de atividades em São Paulo, colocou em prática em 2017 o que chamou de “Digital Learning”.

Trata-se da combinação de várias metodologias ativas de aprendizado – tais como Peer Instruction (Instrução de Pares), Case Based Learning, Team Learning, Problem Based Learning, Project Based Learning e Game Challenge Based Learning -, e que já era adotado pela Faculdade do grupo Fiap (Faculdade de Informação e Administração Paulista).

A ideia foi alinhar todos os estudantes matriculados nas instituições do grupo com o aprendizados “hands on”.

“A partir de uma pergunta motivadora, os alunos desenvolvem projetos para encontrar soluções a um problema lançado em sala de aula ou nos fóruns dos cursos à distância. Uma vez lançado o desafio, os alunos iniciam sua pesquisa e começam a criar seus produtos. Ao final do ano letivo, o objetivo desse aprendizado será a execução do que foi aprendido, de forma prática, concreta e funcional“, explica Wagner Sanchez, diretor acadêmico.

Na Fiap School, a linha pedagógica é a construcionista. É baseada na realização de ações concretas, tais como a concepção de trabalhos que envolvam arte, textos, objetos, protótipos, aplicativos, robôs ou startups e que, consequentemente, levam à “construção interior”, ou seja, em ganhos na aprendizagem e no desenvolvimento pessoal.

Os conteúdos básicos do currículo escolar são ensinados por meio do Project Based Learning. Combinados a ele, os alunos recebem conteúdos de sete novas esferas de conhecimento: Art & Crafts, Creative Thinking, Life, Business, Digital Life, Tech e Maker. O objetivo é que essas esferas de conhecimento possam contribuir para o futuro dos alunos, não importa a profissão que escolherem.

“Estamos formando, no Ensino Médio, as primeiras gerações que já nasceram com a internet. Aprenderam a usar a internet muito cedo. As redes sociais fazem parte do seu cotidiano e estar sempre conectado está nos seus contextos diários. Esses jovens se desenvolveram com um modelo mental diferente. As sinapses aconteceram de forma diferente em relação às gerações analógicas, nascidas antes da internet. Podemos, assim, concluir que estamos vivenciando dia após dia a concretização na prática de um conceito já muito discutido: as aulas expositivas tradicionais vão desaparecer ou vão para a internet”, avalia o diretor.

 

Conheça mais a fundo os espaços makers

 

E nas escolas tradicionais, será que funciona?

Até mesmo as escolas mais tradicionais estão começando a experimentar as metodologias ativas de aprendizado nos seus currículos. Um bom exemplo é o Colégio Anglo 21, de São Paulo. Famosa por seu sistema de ensino focado nas aprovações nos vestibulares mais concorridos do Brasil, a instituição paulistana adotou o PBL (Project Based Learning) desde 2017, como uma disciplina do 1º e 2º ano do Ensino Médio.

A opção foi por não descaracterizar muito a metodologia de ensino pela qual escola é conhecida, mas, ao mesmo tempo, já começar um movimento de abertura para uma formação que também desenvolva as habilidades inerentes ao aluno do século 21.

“O Anglo, principalmente no Ensino Médio, tem uma longa história com o ensino mais tradicional. Fazendo uso de ótimas apostilas e com um excelente time de professores. Mas sentíamos falta de estimular em nossos alunos outras habilidades que as aulas e o método convencional comumente não alcançavam. Como o trabalho em equipe, a empatia, a criatividade e a resolução de problemas“, afirma Lucas Seco, coordenador pedagógico do Ensino Médio do Anglo 21.

A grade conta com uma aula dupla da disciplina de PBL por semana. Quando foi implantado, em 2017, a escola optou por apresentar aos alunos situações-problema específicas. Assim tendo mais segurança em algo que, para ela, era novidade.

Já no ano seguinte, mais experientes com PBL, os professores passaram a permitir que os alunos escolhessem a área (Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Artes) e o tipo de projeto que gostariam de desenvolver.

 

“De um modo geral, percebemos um engajamento maior. Inclusive de alguns alunos que normalmente teriam mais dificuldade nas aulas convencionais”, avalia.

 

Metodologia Ativa para o empoderamento social

A Maria Peregrina, escola confessional católica de São José do Rio Preto (SP), começou há 20 anos como Oratório para atender a alunos de alta vulnerabilidade da rede pública, no contraturno das aulas.

Na época, Mildren Wada Duque, fundadora e diretora da escola, em parceria com outros jovens que trabalhavam com artes, acolhiam as crianças carentes e suas famílias com a proposta de trabalhar o talento e a singularidade de cada um.

 

“A escola convencional não estava dando certo com aquelas crianças, então, tínhamos de montar uma escola que fugisse ao tradicional. Tivemos de ser ousados desde o início, senão aquele público não ficava”, conta Mildren.

Confira outras dicas para evitar a evasão escolar

 

Assim, o projeto pedagógico da Maria Peregrina já nasceu misturando a metodologia de projetos de Jonhn Dewey e a teoria de inteligências múltiplas de Howard Gardner.

“O projeto de estudos vem do aluno, do interesse deles, do que querem aprender. A partir daí nós montamos um itinerário, que chamamos de itinerário proposto. Se o conteúdo obrigatório da base curricular comum não cabe no projeto do aluno, ele vem como conteúdo extra”, explica.

No Maria Peregrina, do Ensino Fundamental ao Ensino Médio, as turmas são de no máximo 12 alunos. Cada turma tem um tutor, que é responsável pela vida escolar do estudante, como se fosse o coordenador do projeto ou um orientador de pesquisa. No Fundamental 2 ao Médio tem um educador de cada área para auxiliar o tutor.

O currículo seriado do Estado é atendido com a responsabilidade de que ele seja dado até o final do Ensino Médio. Então, pode ser que um aluno do 6º ano do Ensino Fundamental, por exemplo, aprenda antes um conteúdo que seria visto no 1º ano do Ensino Médio, e vice-versa.

Por definição de Mildren, o aluno “vai embora” na habilidade dele. “Alunos com altas habilidades em Matemática à vezes estão três anos à frente. Temos alunos que estão fazendo projetos em Cosmologia, por exemplo, que viram assuntos na área de Física no Fundamental 2 que pelo currículo só veriam no Ensino Médio”, conta.

A escola não precisa de sala de aula porque tudo é feito em roda. Até existem três salas de aulas convencionais para o Ensino Médio, mas elas não são fixas. A estrutura é adaptável. A Maria Peregrina conta com a ajuda de instituições parceiras que ajudam com docentes, emprestam laboratórios, quadras para esportes.

Embora seja considerada uma escola particular, a Maria Peregrina é uma ONG onde os alunos não pagam mensalidade. Sendo assim, a escola prioriza alunos de baixa renda. Cujas famílias queiram estar presentes para participar e que sejam totalmente comprometidas com a educação dos filhos.

 

Indicadores de performance no Brasil ainda são poucos

Com pouco tempo de experiência na implementação das metodologias ativas de aprendizado, as escolas ouvidas pelo Escolas Exponenciais ainda não dispõem de indicadores oficiais do impacto destes novos modelos no desempenho de provas como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e nos vestibulares. Porém, todas destacam que seus alunos estão performando satisfatoriamente em competições como Olimpíadas, concursos e desafios.

“Nossos indicadores são os alunos que estão entrando nas escolas mais concorridas. São os concursos que eles prestam e as Olimpíadas que participam. 99% entram em qualquer curso técnico público. Além disso, foram 13 medalhas nas Olimpíadas de Astronomia, de Linguagem, de Matemática. Nós recebemos prata e ouro na Olimpíada da Robótica, que é a mais difícil do Brasil. Temos uma metodologia diferenciada e esses são indicadores que nos provam que dá certo“, afirma Ericka Vitta, diretora do NEI.

“Os alunos do Ensino Fundamental de Ribeirão Preto se classificaram bem nos vestibulinhos de escolas de Ensino Médio. Temos alunos com menção honrosa em Olimpíadas de Matemática também. Um aluno do 7º ano de Ribeirão foi destaque no Pixel Show, maior evento de criatividade da América Latina. Além disso, temos artigos de alunos publicados no site Quem Inova – Catraca Livre em assuntos diversos. Os grandes feitos de nossas crianças nos honram bastante”, diz Priscila Torres, da Concept.

E você, adotou alguma metodologia ativa em sua escola? Conte-nos sobre sua experiência e qual a sua opinião sobre essa tendência, considerada por muitos a Quarta Revolução na Educação.

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