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A educação digital é uma realidade. E já não há mais como fugir da transformação digital nas escolas. Quem também compartilha desse pensamento é Gustavo Fuga, empreendedor social, economista pela FEA-USP e fundador da 4YOU2 Idiomas, empresa onde ele materializou o seu sonho de transformar a educação a partir da tecnologia. 

“Ficar travado no mesmo modelo educacional do passado não funciona, não está funcionando no inglês e não funciona em quase nenhuma área da educação […] tem como colocar tecnologia em 90% das coisas que a escola faz hoje manualmente, mas não em tudo”, explica.

Por isso, fala-se bastante que a pandemia foi um catalisador de mudanças, e uma delas foi a incorporação das tecnologias em sala de aula. E não foi só o processo de ensino-aprendizado que passou por transformações, a relação entre famílias, alunos e escolas também. 

De acordo com o Diagnóstico Nacional da Educação, um estudo realizado pelo Escolas Exponenciais com mais de 11 mil famílias e 4 mil professores de escolas particulares, 82% dos pais aprovam o ensino remoto feito durante a pandemia. 

Esse dado reforça que, apesar dos desafios impostos pela pandemia, grande parte das escolas conseguiram ser bem-sucedidas em suas estratégias. Dessa forma, é visível que as novas tecnologias – que não são tão novas – podem e devem ser aliadas da educação, principalmente pelo fato de que a retomada das aulas acontecerá na modalidade híbrida.

 

O que é o Ensino híbrido e como usá-lo na volta às aulas presenciais?

 

Inovação nos processos e rotinas

Enquanto muitas escolas se viram obrigadas a adaptar suas metodologias de ensino somente agora, a 4YOU2 utiliza desde 2013 a metodologia de blended learning, que em português se aproxima do conceito de ensino híbrido. De acordo com o CEO da instituição, essa antecipação permitiu corrigir muitos erros, que hoje se transformaram em acertos importantes para a sobrevivência do negócio.

É essa mentalidade inovadora, que Gustavo define como mentalidade de startup, fundamental para que aconteça uma transformação digital na escola. Mas isso não tem a ver necessariamente com o montante disponível em caixa para investir em tecnologia, e sim em fazer um bom uso dos recursos disponíveis.

Aqui no país temos as Escolas Low Cost (baixo custo), por exemplo, que oferecem um ensino metodológico vanguardista, bem similar ao das escolas privadas de alto padrão, mas com mensalidades baratas, entre R$500 e R$800. O segredo? Uma gestão inteligente.

Como explica Arthur Buzatto, CEO da Escola Vereda, uma instituição low cost de São Paulo, o uso eficiente e simultâneo do espaço físico da escola (salas, pátios, refeitório, etc.) é uma das estratégias para reduzir custos. Consequentemente, isso permite cobrar mensalidades mais econômicas e ganhar na economia de escala. 

Já o fundador da 4YOU2 adotou uma estratégia mais ousada, ele aboliu os livros e substitui-os por aplicativos, um para o aluno e outro para o professor. Além de reduzir o custo com impressões, essa ferramenta otimizou processos internos e abriu espaço para a coleta de feedback imediatos dos alunos.

“A gente tem vários aplicativos nossos. Enquanto ele (o aluno) está fazendo os exercícios, eu estou conhecendo um pouco mais sobre ele, e eu dou exercícios melhores para ele, exercícios que tem mais a ver com a realidade dele. As aulas são relacionadas ao que os alunos gostam mais, é um processo de retroalimentação”,comenta.

 

Aplicativo escolar: um grande aliado na comunicação entre escolas, pais e alunos durante o ensino remoto emergencial

 

Entretanto, ele aconselha a não aplicar a tecnologia em todos os processos, o que corresponde a cerca de 10%. Para exemplificar essa proporção, Gustavo relembra uma situação que causou um grande impacto financeiro nas escolas da rede em função da digitalização excessiva.

“A gente falou “boleto é uma coisa do passado, imprimir boleto? Por favor. A gente vai oferecer nessa escola um serviço de ponta.” A gente falou então, manda um e-mail automático no mês seguinte para o pai ou o próprio aluno ir lá e pagar [..] obviamente nossa inadimplência explodiu. A gente foi ver a taxa de abertura dos nossos e-mails, não os de cobrança, estou falando de avisos e tal, 25% dos alunos abriam um e-mail com notícias boas, imagina um e-mail de cobrança, menos ainda”. 

Ele ainda completa: “nós pesamos demais, porque a gente se descolou do nosso público. Inovação não é sobre automatizar tudo, e esse foi um aprendizado doído”.

 

A inovação começa pelas pessoas

Não há como falar de transformação digital sem mencionar o papel da liderança. Afinal, essa figura é fundamental para propagar uma mentalidade inovadora em todos os níveis hierárquicos da empresa. 

E quais as características esse líder inovador precisa ter e/ou desenvolver? Principalmente humildade, para ouvir e respeitar opiniões divergentes, e orientação por melhorias, a ponto de reconhecer os erros como aprendizado e tirar o melhor proveito de tudo.

“Nosso gargalo na educação para a gente ser mais digital e transformar a cara das escolas mais em startups não está em tecnologia ainda. Nosso gargalo está na cultura dos gestores, são as pessoas que estão aqui. Então, é mexendo nas nossas cabeças primeiro, depois o desafio da tecnologia virá […] mas se a liderança não está comprada, nenhum processo funciona”, declara Gustavo.

Outra característica fundamental dos líderes inovadores é a visão sistêmica. Hoje em dia, as startups e empresas que têm uma cultura digital bem sólida visualizam a empresa como um time. Assim, o líder precisa desenvolver e posicionar seus profissional de forma estratégica rumo à vitória.

Entretanto, diferente de uma partida de futebol que tem um fim, a escola e seus vários times (alunos, professores, coordenação, limpeza, etc) seguem em processo de melhoria contínua. Coleta de feedbacks, correção de falhas e avaliação constante dos resultados fazem parte desse processo.

 

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