Qual a responsabilidade da escola na construção de futuros anticapacitistas?
Desafios Contemporâneos

Qual a responsabilidade da escola na construção de futuros anticapacitistas?

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Infelizmente, pais de alunos com deficiência ainda têm que lidar, muitas vezes, com a falta de aceitação ao tentar simplesmente garantir uma educação para seus filhos. Não é incomum que, em uma sociedade capacitista, alunos com deficiências e suas famílias sejam rejeitados ao tentar ingressar em uma instituição; “não estamos preparados para recebê-los”, “não temos a estrutura adequada”, “não temos mais vagas” são algumas das frases mais usadas nessas situações.

Em um mundo onde cada vez fica mais claro o quanto a educação é essencial tanto para a vida individual quanto a vida em sociedade, esse é um sério problema. Lau Patrón – escritora, ativista e profissional da inclusão da pessoa com deficiência e suas famílias – sente essa realidade na pele: isso porque também é mãe de João Vicente, uma criança com deficiência que sofreu um AVC com quase dois anos de idade. Ela lembra que, ao tentar encontrar uma escola para seu filho, assim que a palavra “deficiência” era dita portas se fechavam e vagas misteriosamente desapareciam. 

A realidade capacitista das escolas e suas consequências

Lau, que também é fundadora da Ponte – uma empresa de educação para diversidade onde age como consultora, mentora, educadora e cria tecnologias de aprendizagem social – aponta que, de acordo com o censo de 2010, 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência – e desses, 61,13% não chegam a conseguir finalizar o ensino fundamental. “Vocês acham que isso fala sobre a capacidade das pessoas individualmente ou vocês acham que isso fala sobre a capacidade das escolas?”, reflete. 

Segundo a ativista, para que um “maternário de futuros” exista – com uma criação mais coletiva e inclusiva que possibilite melhores futuros para nossas crianças – é fundamental que tomemos medidas anti capacitistas. E a escola, por ser um dos primeiros ambientes sociais em que nos encontramos, se mostra um elemento essencial nesse plano – é lá onde, teoricamente, as crianças deveriam passar a conviver com mais diferenças, a desenvolver a empatia e expandir sua humanidade. “Infelizmente o universo das escolas particulares não se pensa nesse sentido”, diz Lau. “As conversas sobre diversidade e inclusão ainda estão banidas na maioria das escolas”.

Essa falta de diálogo pode ter consequências sérias a longo termo: sem exercitar essas habilidades sociais e mentais durante a infância, é bem mais difícil criar adultos que possam agregar positivamente à sociedade. Lau cita uma pesquisa que mostra que, quanto mais privilegiados somos, em geral, menor se torna nossa capacidade de sentir empatia genuína pelos outros; “isso porque quanto mais privilégio temos, mais começamos a acessar camadas de exclusividade, exclusividade de lugares, de experiências e do próprio ensino, sem darmos conta que a natureza daquilo que é exclusivo demais, é justamente ser excludente”, explica.

Essa exclusividade tóxica é o motivo pelo qual a maioria dos adultos de hoje em dia não tem lembranças de estudar ou conviver com colegas com deficiência durante seu período escolar: até pouco tempo atrás, a norma era que crianças com deficiência ficassem segregadas em escolas “especiais”. “Nós enquanto crianças, a gente não aprende a respeitar, amar, a considerar pessoas que não existem na nossa vida”, diz Lau. “Quem é que decide o que deve ser curado e o que vai ser celebrado na sociedade?” Desse modo, essa educação contribuiu para criar mais uma geração sem perspectiva adequada sobre inclusão ou tolerância suficiente às diferenças. 

Por isso mesmo, ao confrontar a realidade de ter um filho com deficiência, os pais na maioria do tempo não estão preparados. Assim aconteceu com Lau, mas a escritora foi atrás da educação que precisava para se adaptar ao desafio: “Mesmo não estando preparada, nada tira minha responsabilidade de me preparar enquanto mãe, cidadã, profissional e gente, porque eu acredito no afeto como filtro e como lente nas nossas tomadas de decisões”, fala. “Eu acredito em um afeto nada romantizado, um afeto que é sobre se importar, é sobre considerar a humanidade da pessoa na sua frente, é sobre se responsabilizar e não existe para mim afeto mais potente que a busca de conhecimento”.

O conceito antiquado – e nocivo – do “normal”

É importante salientar, explica Lau, que suas dores como mãe não vêm do fato de seu filho possuir uma deficiência, mas sim da sociedade excludente em que vivemos, da “negação contínua e sistemática da existência do João enquanto criança, menino, estudante, gente” – uma negação que infelizmente se tornou cotidiana e comum, e que fica visível até mesmo na ausência de pessoas com deficiência em diversos espaços, inclusive nas escolas. 

Afinal, o que é “normal”? De acordo com a etimologia, a palavra vem do latim normalis, que significa “feito com instrumento para traçar ângulos” – se trata de um instrumento para definir medidas, uma espécie de régua para carpinteiros. “Ou seja, a palavra normal não foi criada para dar conta da complexidade humana” conclui Lau. “Ela é uma métrica matemática sobre coisas, janelas, portas, lugares, para calcular espaços e não para calcular a gente”. Por isso, a profissional defende a ideia de que devemos questionar de onde vêm as nossas crenças: “Seres humanos normais não existem, seres humanos perfeitos não existem, não existe uma receita única de existência”.

Algo tão plural e infinito quanto a experiência humana não pode ser contido em medidas – e por isso a tentativa repetida e constante da sociedade de nos enquadrar em moldes é tão prejudicial e perigosa. Para que exista esse molde do corpo “normal” – que depois será utilizado para tentar padronizar o que não é padronizável – é necessariamente preciso que exista, também, o corpo “anormal” como sua contradição. E já que, como mencionado, esse conceito não existe, nós o criamos. 

“A valorização da existência desse corpo padrão acontece, necessariamente, no contraste” fala Lau. “Ela depende da negação violenta de outras existências o tempo inteiro”. Essa cultura, apesar de ter se adaptado às eras, tem existido e causado dano há muito tempo – Lau comenta que na Grécia Antiga, quando um bebê nascia, ele era examinado e, se alguma deficiência ou alguma diferença considerada “anormal” fosse detectada, ele era condenado à morte logo após chegar ao mundo. 

O corpo padronizado e mecanizado

O conceito da padronização dos corpos ainda se afirmou quando o filósofo e matemático francês Descartes introduziu sua doutrina do pensamento racional e define o corpo como uma “máquina composta de ossos e carne”; esse pensamento encoraja uma visão mecanicista do corpo humano, considerando que ele seja válido só se for capaz de realizar o esperado. “Isso fala muito sobre a nossa sociedade de hoje, da produtividade, a sociedade também do cansaço, que nos leva ao esgotamento para a gente performar isso que se definiu como um ideal a ser alcançado”, diz Lau. “Se para mim, uma pessoa sem deficiência, isso é exaustivo, imagine para uma pessoa com deficiência, que tem todas as suas outras formas de estar no mundo”.

Apesar da crescente obsessão com produtividade e trabalho, o corpo humano não é uma máquina – tratá-lo como tal não apenas ignora a individualidade como também contribui para uma cultura que muitas vezes o machuca.

A escola como um sintoma da sociedade

A escola, segundo Lau, é um sintoma da nossa cultura até que decida não ser: hoje em dia é possível perceber alguns indivíduos ou grupos que estão começando a expandir a escola para fora das fronteiras, mas essa ainda é a minoria. “Até que exista essa decisão de se tornar motor de transformação, porque a escola tem essa potência, ela cumpre um papel, infelizmente, de manutenção de abismos sociais, de quem pertence e quem não pertence”, conta. “A escola é um sintoma de uma sociedade que se conforta na homogeneidade, quanto mais parecidos a gente for no grupo, mais a gente se sente bem”. Essa conformidade permite que a escola, um elemento tão essencial na criação de gerações, se torne um instrumento de suporte à ideia do “normal”.

De acordo com Lau, o que acontece nesse contexto é que “diferenças são eliminadas à força, ou na impossibilidade disso, elas geram sofrimento em uma dinâmica de educação que vai podar e punir características plurais” – isso vale tanto para os casos de pessoas com deficiência quanto de outras minorias ou pessoas que possuem outras diferenças. “É sobre as delicadezas que formam a subjetividade de cada criança e como a gente violenta essa delicadeza, tentando fazer caber em uma forma que é pequena demais” diz. “A escola tem potência de construir outro mundo, mas hoje é o primeiro espaço onde se criam não lugares para muitas pessoas, uma espécie de limbo entre quem as pessoas são e quem a sociedade diz que elas deveriam ser, é o primeiro espaço onde alguém vai se sentir diminuído, rejeitado, rechaçado por ser diferente”.

Afinal, o que é capacitismo?

O conhecimento é um importante passo no processo de criar uma comunidade mais inclusiva, e por isso é essencial que tenhamos consciência do problema que procuramos resolver; hoje em dia, passamos a falar mais sobre capacitismo, ou seja, o preconceito com pessoas com deficiência e ideia de que esses indivíduos são inferiores. “Coloca as pessoas com deficiência no lugar de anormais, de fora desse padrão definido como perfeito” ensina Lau. “Nesse contexto uma característica natural, uma condição humana, muitas vezes de nascença inclusive, é vista coletivamente como essa característica que precisa ser superada, corrigida, visto como problema, um ser humano que precisa de conserto”. 

Esse preconceito possui, é claro, várias lentes; Lau cita certos exemplos como algumas delas:

• O estereótipo da pessoa com deficiência “coitadinha” ou “incapaz”, reduzindo-a a um papel sub humano, subestimando suas habilidades e  “generalizando pessoas por diagnósticos e atropelando as experiências individuais e as subjetividades”. 

• O estereótipo do “doente”, presumindo a necessidade da procura de uma cura, o que é problemático porque a deficiência nem sempre está relacionada à uma doença; por si só, é somente uma característica como qualquer outra. 

• A estereótipo do “herói” ou a narrativa de “superação”, que também é uma forma de desumanizar o indivíduo: Lau explica que essa romantização da exclusão ocorre porque a mesma sociedade que impõe obstáculos na vida de uma pessoa com deficiência e se recusa a se livrar deles é a sociedade que vai dar a ela uma medalha por passar com eles com muito esforço. A ativista afirma que esse pensamento cria uma “conformidade na ideia de que o mundo realmente não foi feito para pessoas com deficiência”, e desabafa: “Eu troco bem fácil as medalhas de herói de exemplo de superação que o João recebe todos os dias por uma vida digna, que não exija que ele vá até o limite do corpo dele sempre para poder simplesmente estar, por uma vida que ele não precisa gastar energia dele só dando conta de ser quem ele é nos espaços não inclusivos”.

• O estereótipo do “anjo”, que consiste em infantilizar a pessoa com deficiência mesmo que se trate de um indivíduo adulto, retirando dela sua independência e autonomia. “Eu gosto de lembrar que a figura do anjo, essa imagem do anjo, não é uma figura humana”, avisa Lau. “Então, quando a gente tenta encaixar pessoas nesse lugar, a gente está retirando direito delas de serem humanas”. 

Mudando o mundo a partir da escola

Em um país onde apenas 1% das carteiras de trabalho assinadas pertencem a pessoas com deficiência, precisamos pensar em quão próximos estamos da realidade do Brasil, diz Lau. E isso começa na escola, que tem  “importantíssimas funções sociais, de contribuir com o fortalecimento na sociedade de uma cultura que saiba respeitar e valorizar a sua diversidade”; o primeiro passo deve ser olhar para seus próprios preconceitos estruturais e refletir sobre si mesma, criando consciência do que precisa mudar. 

Obviamente essa mudança não ocorre da noite para o dia; na verdade, o processo é composto por várias “microrrevoluções”: ações do cotidiano que culminam na construção de um ambiente mais inclusivo. Um simples momento de brincadeira pode ser mais formativo do que pensamos, ajudando na construção da visão de mundo de uma criança ao mostrar quão diverso o mundo é. Segundo Lau, o fato de não sabermos até onde vai o eco de nossas escolhas individuais é, justamente, o poder dessas escolhas. 

Como criar um ambiente escolar inclusivo

Assim, existem várias ações que podemos tomar, todo dia, para combater o capacitismo – e, desse modo, com o tempo, realizar uma mudança de paradigma sobre o que é ser humano, nos livrando da “normalidade tóxica”. Ouvir os pontos de vista de membros da comunidade de pessoas com deficiência, por exemplo, é uma etapa importante; a escola precisa ter a humildade de admitir que não tem todas as respostas. “Ser anticapacitista não é pensar em um mundo para as pessoas com deficiência, em uma posição de vamos salvar essa população” explica Lau. “É pensar em um novo mundo junto com as pessoas com deficiência, é construir em coletivo novas respostas e nunca parar com as perguntas, é reafirmar o direito das pessoas de contarem as suas próprias histórias, é afeto, de afetar-se, de se permitir ser tocado pela existência do outro e se permitir também tocar o outro com a nossa existência verdadeiramente”. 

Dentro desse contexto, a escola deve ser um lugar seguro para todos para que consiga cumprir bem seu papel na sociedade: “não existe um mundo inovador possível sem repensar a educação, não existe educação inovadora que não passe pelo comprometimento radical com a inclusão”, diz Lau. E professores e educadores, como personagens chave nesse sistema, precisam passar a ter, em sua formação básica, a preparação necessária para realizar seu trabalho de forma inclusiva. As atividades pensadas especificamente para certas crianças, por exemplo, mesmo sendo parte de um currículo adaptado, precisam ser conectadas ao resto da turma.

Além disso, dentro desse currículo adaptado, é importante avaliar o aluno de acordo com seu próprio desenvolvimento, e não em comparação com a sala. Lau explica que a alta desistência da escola por crianças com deficiência ocorre, em parte, porque a falta de adaptação faz da escola um ambiente tóxico, onde esses alunos não conseguem performar – o que é desmotivante. “Temos gente desistindo porque não está conseguindo, desistindo porque está se sentindo muito violentado no processo”, conta.

Uma das principais coisas a se lembrar é que segregar é o contrário da resposta para o problema do capacitismo nas escolas. Não apenas aceitar, mas celebrar a diversidade é o que torna uma comunidade forte, e isso vale dentro do ambiente das instituições de ensino também. Além disso, a inclusão não é um favor, mas um direito – e é por esse direito, opina Lau, que devemos aposentar o conceito de “normalidade” – essa “régua pequena demais para medir aquilo que é humano”. 

 

Assista a palestra completa:

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