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Se antes a educação já enfrentava grandes desafios para a aprendizagem no Brasil – por exemplo, apenas 44% contavam com laboratório de ciências e 30% das escolas possuíam área verde, segundo o IBGE de 2019 – a pandemia agravou ainda mais essa situação. Afetando todos os setores da sociedade, a crise decorrente da Covid-19 nos obrigou a inovar para sobreviver – e nas escolas, cheias de alunos e professores cansados e assustados, não foi diferente. 

Efeitos da pandemia 

As perdas causadas pela pandemia, em vários sentidos, ainda são sentidas fortemente – inclusive na esfera pedagógica. Com a necessidade de fechar as escolas veio um importante atraso no ensino que virou motivo de dor de cabeça para pais e educadores. Mais que isso: mesmo com a volta das aulas após um certo tempo, as condições e mudanças bruscas de rotina deixaram nossas crianças mais vulneráveis, distraídas e com medo – o que também afeta a aprendizagem. 

“Nossos alunos estão diferentes, é um processo pandêmico”, diz Débora Garofalo, professora da rede pública de São Paulo há 17 anos. “A pandemia fez mal a essas crianças, a saúde mental dessas crianças não está normal”. Afinal, se para nós, adultos, a situação do mundo já é tão perturbadora, o impacto que ela tem nos cérebros ainda em formação dos jovens pode ser catastrófico. Os professores também foram obrigados a se adaptar de uma forma nada natural e exaustiva.

Novas soluções 

Apesar do longo caminho que temos pela frente, existe esperança: Débora explica que há soluções a explorar que podem ajudar a mitigar as perdas da aprendizagem. A educadora reforça que as duas principais delas, a coletividade (capacidade de aprender com o outro) e a inovação, andam juntas. 

Mestre em Educação formada em Letras e Pedagogia, Débora considera que a possibilidade de inovação depende não dos recursos em si, mas do modo em que os professores lidam com esses recursos. As metodologias ativas e o ensino híbrido, por exemplo, são grandes oportunidades a se considerar. Além, é claro, da tecnologia, que já se tornou uma parte tão intrínseca de nosso mundo que precisa estar presente na sala de aula.

Tecnologia para aproximar e não afastar

O modo como as crianças atualmente estão conectadas, mais do que qualquer geração anterior, é inegável.

“Como a gente pega essa conexão e leva para o processo dentro da sala de aula?”, questiona Débora. A resposta, segundo ela, é reinventar nossas aulas: “Precisamos trazer caminhos diferenciados de mostrar para esses meninos e meninas que é possível fazer a diferença”.

O CIEB (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) apontou, em um estudo, cinco níveis de apropriação das competências digitais: exposição, familiarização, adaptação, integração e transformação. 

De acordo com Débora – que ficou entre os 10 finalistas do Global Teacher Prize, uma espécie de “Nobel da Educação” – nós deveríamos estar no quinto passo, transformação, ou seja, utilizando a tecnologia de forma inovadora para além da escola. No entanto, nossos professores relataram que ainda se sentem interagindo com a tecnologia nas esferas de exposição e familiarização – iniciando o contato com esses recursos e os descobrindo. 

Essa percepção dos educadores deixa claro o quanto ainda precisamos avançar nesse universo. No documento do estudo anteriormente mencionado, a diretora-presidente do CIEB Lucia Dellagnelo escreve:

“Acreditamos que a tecnologia poderá transformar a educação se colocada à serviço do processo de ensino-aprendizagem, ou seja, se utilizada para ampliar as experiências de aprendizagem de alunos e professores. Para tanto, é preciso formar professores capazes de utilizar tecnologias em sua prática pedagógica, no exercício de sua cidadania e para seu desenvolvimento profissional. Isso significa valorizar cada vez mais a profissão docente e ressignificá-la para atender às demandas da contemporaneidade.”

Uma das diretrizes curriculares para a educação básica brasileira do BNCC (Base Nacional Comum Curricular), inclusive, diz respeito à utilização de tecnologias digitais:

“Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.”

Ensino híbrido e metodologias ativas

O ensino híbrido, por exemplo, que ganhou espaço durante a pandemia, tem um potencial enorme: “Porque eu posso trabalhar com a modalidade híbrida dentro da sala de aula ou eu posso fazer ela ser uma extensão da casa desses meninos através de plataformas adaptativas e recuperar o processo de ensino-aprendizagem”, conta Débora Garofalo. “O que não contaram para os nossos professores é que a gente pode adaptar essa regra conforme a nossa necessidade”.

Ou seja, trabalhar com um modelo híbrido não é apenas mesclar o ensino presencial e on-line, mas também apresentar possibilidades de produzir aulas que são, em si, diferenciadas

Substituir as aulas tradicionais por novas ideias pode ajudar a trabalhar a coletividade e a inovação de diversas formas; a técnica de rotação por estações é uma das opções. 

Técnica Rotação por Estações

Essa técnica consiste em dividir a sala de aula em “estações”, permitindo que o mesmo tema seja trabalhado pela turma de diferentes maneiras, contemplando todos os estilos de aprendizagem e, portanto, atendendo às diferentes necessidades de cada aluno. Divididos em grupos, os alunos passam por todas as estações e completam atividades até o final da aula – algumas sendo presenciais e outras, on-line.

Isso é uma maneira de personalizar a sala de aula, afirma Débora. Da mesma forma, a sala de aula invertida também desafia o modelo tradicional.

Técnica Sala de Aula Invertida

Nesse caso, o professor tira vantagem da tecnologia ao utilizá-la para disponibilizar os conteúdos para os alunos antes da aula – assim, eles podem internalizar as informações e depois, durante a aula, usar o tempo para discutir com os colegas e tirar dúvidas. 

Esse método é importante para a criação de alunos que sejam, também, curadores de informações: “Com o passar do tempo, o professor vai poder sugerir para esse estudante temas e automaticamente ele vai ser um curador de informação, ele vai saber onde está essa informação”, explica Débora.

As possibilidades de modelos híbridos são inúmeras, incluindo ainda rotação individual e laboratório educacional. Se utilizados corretamente, eles podem fazer uso da inevitável tecnologia, hoje disponível literalmente em nossas mãos, para criar uma educação mais completa em um mundo globalizado. 

O importante, avisa Débora, é adaptá-las de acordo com a realidade e as necessidades de cada professor. Fazer uso de técnicas como a rotação por estações é potencializar o currículo: “Com isso esse menino está sendo mais autônomo, ele está sendo mais crítico, ele está exercendo a criatividade, ao mesmo tempo que ele está mobilizando habilidades socioemocionais”, afirma.

Robótica com Sucata

Assim, as metodologias ativas – que permitem um ensino mais dinâmico, transformando o aluno em participante do seu processo de aprendizagem em vez de apenas espectador – são agora mais importantes do que nunca. Débora, que hoje também atua como Coordenadora da Secretaria Estadual de Educação do Estado de São Paulo, sabe de primeira mão os efeitos que essas práticas inovadoras têm: ela idealizou, em 2015, o trabalho Robótica com Sucata, que ficou conhecido internacionalmente e hoje é uma política pública em São Paulo. 

O projeto, que mudou positivamente a vida de várias crianças na rede pública de ensino, é um exemplo da “cultura maker – ou seja, a cultura do “faça você mesmo”, filosofia “mão na massa”, que incentiva o aluno a aprender enquanto cria e constrói. Apesar da cultura maker não ser uma abordagem de ensino, conforme explica Débora, ela pode ser trabalhada na educação e fazer uma enorme diferença ao entregar uma aprendizagem rica. “Ao trabalhar um projeto o estudante está mobilizando áreas de conhecimento”, diz a educadora. 

No caso do Robótica com Sucata, os passos eram vários: ir para as ruas para sensibilizar a comunidade e recolher o lixo; levar o lixo para a sala de aula, pesá-lo e separá-lo; vender o que não seria utilizado e arrecadar dinheiro para o projeto; tudo valia a pena para que as crianças pudessem, então, exercer sua criatividade e criar, com suas próprias mãos, projetos que antes nem achavam possíveis.

Débora levou a oportunidade de estudar robótica para crianças de uma área extremamente carente. Apesar de não ter muita experiência anterior com robótica, ela percebeu o quanto seu projeto poderia transformar as vidas daqueles alunos e fez uma proposta ousada – sua ideia ajudaria a comunidade de vários jeitos ao mesmo tempo, não apenas contribuindo para a educação como também ajudando a retirar o lixo – que causava poluição e doenças – das ruas.

“Naquele momento eu só tinha dois caminhos: me lamentar pelo que eu não tinha para trabalhar com os meus alunos, ou abraçar o lixo e transformar em objeto de conhecimento”.

Apesar de não ter sido fácil, Débora Garofalo transformou um problema em oportunidade – para isso, teve o trabalho de mostrar que por trás daquela ideia existia uma “educação integral pautada em valores integrais”. Ela ainda se emociona ao lembrar de seus alunos, que no começo do projeto acreditavam que “robótica não era para alunos de escola pública”. Esse pensamento doía na professora, e catalisou um movimento que conseguiu provar o contrário. 

Os dados comprovam o impacto do projeto: houve diminuição em 93% da evasão escolar da unidade escolar; redução em 95% do trabalho infantil; aumento do IDEB da escola de 4.2 para 5.2; retirada de uma tonelada de lixo das ruas de São Paulo, aumento de coletores de lixo e parcerias. O projeto de Débora é uma das provas que mostram como o foco em inovação e coletividade transforma a educação.

O que fazer agora?

Precisamos olhar para o estudante e colocá-lo no centro do processo de aprendizagem”, reflete a profissional. “Precisamos nos permitir errar dentro da sala de aula para aprender junto com esses meninos e meninas”. A educadora explica que os professores não foram preparados para isso, mas se encontram hoje em um mundo que demanda essa nova visão. 

Afinal, as crianças, no momento, estão distantes do seu processo de ensino; e se insistirmos nas aulas expositivas, com as técnicas tradicionais, continuaremos cometendo os mesmos erros. “A gente precisa começar a envolver esses meninos em uma aprendizagem que seja rica e significativa para eles”, opina Débora.

Altos recursos tecnológicos não garantem uma educação efetiva; mas educadores dedicados e criativos são essenciais para que ela seja possível. E os caminhos para o futuro podem ser menos complicados do que imaginamos: O simples é o que funciona”, lembra Débora.

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