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A Aprendizagem Invertida, também conhecida como Sala de Aula Invertida (em inglês, Flipped Classroom) é uma das grandes revoluções no processo de aprendizagem. O método, que já vinha conquistando o mundo há anos, ganhou ainda mais força com o ensino a distância por causa da pandemia e vem apresentando excelentes resultados em alunos de todas as idades. 

“Inicialmente o temo usado era Flipped Classroom, mas, ao evoluir e se expandir, esse movimento fez uma transição e hoje se fala em Aprendizagem Invertida. O nome Sala de Aula Invertida se tornou pequeno para traduzir o tipo de mudança que isso implica: o fim da sala de aula e o aparecimento da sala de atividade, de aprendizagem.”

Quem sabe tudo sobre o assunto e nos explica é o professor Wilson Azevedo, conselheiro da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância). Formado em Filosofia, Antropologia Social e Educação a Distância, Wilson é diretor da Aquifolium Educacional, empresa especializada em inovação educacional e educação online. Ele também é Embaixador para o Brasil da Flipped Learning Global Initiative, coalização de especialistas de cerca de 50 países comprometidos em fazer com que o método chegue a todos os estudantes do mundo.

Como funciona a sala de aula invertida?

O princípio da Aprendizagem Invertida é que o aluno tenha o primeiro contato com a matéria a ser estudada virtualmente, e chegue à sala de aula (física ou virtual síncrona) já tendo lido sobre o assunto. O tempo junto ao professor passa a ser usado para aprofundar o tema, tirar dúvidas e realizar atividades para consolidar o que foi estudado previamente. 

No ensino tradicional, todo o processo de consumo de conteúdo era realizado dentro da sala de aula. O modelo deixava o aluno em uma posição muito mais passiva, uma vez que o professor tinha o papel de detentor de conhecimento – e, o estudante, o de absorver as informações apresentadas em sala de aula. O saber era atribuído ao professor e, ao aluno, cabia memorizar aquela informação. Com o aluno sendo capacitado a estudar por conta própria, ele é instigado a construir seu próprio conhecimento.

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“A Aprendizagem Invertida é uma metodologia híbrida que junta o melhor da educação a distância – com toda sua flexibilidade, com o melhor do presencial, ou seja, a possibilidade de professor e aluno estarem juntos. A Aprendizagem Invertida liberta a sala de aula dos grilhões da aula pouco justificável no século XXI. Ao levar a aula para casa sob a forma de vídeo, podcast, apresentação multimídia, texto, imagens, etc., o professor deixa de ser aquela figura que está lá na frente dando aula. Ele passa a circular no ambiente, passa a estar ao lado do aluno. Isso aprofunda muito o vínculo entre eles”, explica Wilson Azevedo, que defende o uso do método para alunos de todas as idades, inclusive na educação infantil. Ele conta o caso de sucesso de uma professora americana que passou a gravar a “contação” de histórias em sala de aula para que alunos ouvissem as mesmas depois, em casa com os pais. “Ouvir a voz da professora dentro de casa, em uma contação de história, cria um forte vínculo casa-família-escola-aluno. Isso promove muita segurança nas crianças.” 

O fato é que centenas de estudos apontam para as vantagens da Aprendizagem Invertida. Pesquisas feitas na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, por exemplo, apontam um ganho de até 79% entre alunos que estudam no modelo Sala de Aula Invertida em relação aos alunos que estudam ainda no modelo de ensino tradicional. Um dos motivos, é a possibilidade de ensino muito interativo, envolvendo crianças e jovens nascidos na era digital.

Uma mudança muito mais ampla

O conceito da Sala de Aula Invertida começou a ser desenvolvido nos anos 90, por pesquisadores das universidades americanas de Harvard e Yale. Em 2000, o pesquisador J. Wesley Baker apresentou o conceito em uma conferência sobre ensino na Flórida. De lá para cá, muita coisa mudou.

“Na verdade, aconteceu uma inversão na nossa cabeça. Primeiramente, a gente levou a aula para casa e o exercício para a sala de aula. Mas isso abriu um leque de tantas possiblidades que ao final a gente se transformou em outro tipo de educador. A inversão não envolve somente a casa e a sala de aula, mas o tempo e a performance da aprendizagem.”

Wilson explica que, na educação tradicional, existe uma carga horária fixa para todos os alunos e resultados variáveis entre eles, por meio de notas. O professor diz que, com a nova metodologia, ao invés de fixar o tempo e variar a aprendizagem, o educador defende uma aprendizagem plena, de 100% do conteúdo ensinado, mas com um tempo variável de estudo. Ou seja, cada aluno tendo um tempo diferente para absorver o mesmo conteúdo. “Estudar até aprender e não estudar até acabar o tempo. Quando se faz essa inversão, você passa a ter algo extremamente poderoso na educação e é o que está fazendo a diferença hoje, onde a Aprendizagem Invertida para o Domínio é aplicada.” 

O desafio de acabar com a brecha digital

Diante de tantos benefícios apresentados pela Aprendizagem Invertida, surge uma grande preocupação diante da brecha digital no Brasil, provocada pela desigualdade social e diferente acesso de alunos a internet. Wilson defende que é possível superar essa barreira de forma criativa, sem prejuízo para a aprendizagem de alunos menos favorecidos financeiramente. Um dos exemplos que ele dá é gravar dvds em vez de depender de banda larga. Outro é fazer a inversão dentro da escola, sob a forma da chamada In-class Flip, ou seja, fazendo com que alunos tenham acesso a meios digitais dentro da escola.

“O problema do abismo digital existe e precisa ser encarado, ainda mais neste momento de pandemia em que ele grita. Direito à educação agora começa com direito a acesso a internet. O acesso à internet virou condição para se fazer educação. Não pode haver um brasileiro passando fome, um brasileiro sem acesso a internet. Direito à alimentação, direito à educação, direito a internet. Tudo isso tem que ser garantido, enquanto isso não acontecer nós não podemos descansar”, afirma Wilson.

Principais vantagens da sala de aula invertida

  1. Incentiva a autonomia do aluno para adquirir conhecimento sozinho. Com a ajuda da tecnologia, o estudante pode decidir quanto, como e onde vai aprender, tornando-o cada vez mais protagonista.
  2. Professor e aluno passam a aproveitar melhor o momento em que estão juntos. Eles otimizam o momento para aprofundar o tema, maximizando a interação cara a cara.
  3. Aumenta o engajamento do aluno a partir do uso de diferentes tipos de material, como videoaulas, games, apresentações feitas com slides, e-books, aplicativos… O aluno fica mais motivado a estudar com o conteúdo, sendo oferecido de acordo com a sua realidade de nativo digital, com o benefício de isso ser feito sob a supervisão de um professor. 
  4. Melhora a auto-estima, pois permite que cada aluno estude de acordo com o seu tempo, uma vez que cada pessoa tem um timing diferente em seu processo de aprendizagem. Estudando primeiro por conta própria, o estudante pode regular a quantidade de horas que vai dispor para assimilar aquele conteúdo antes da aula e se sentir mais cômodo na hora de estar com os colegas e com o professor. 
  5. Cria laços mais fortes entre professores e alunos.
  6. Permite que os pais acompanhem o conteúdo ensinado a seus filhos, sem ter contato somente com exercícios, o que muitas vezes os obriga a estudar separadamente para ajudar os filhos.
  7. Beneficia muito os alunos que têm mais dificuldade em aprender. O professor tem a chance de ajudar o aluno no momento em que surgem as dúvidas, sem ter que esperar pela hora do teste. 
  8. O professor fica mais realizado e consegue ver mais progresso em seus alunos do que quando expõe conteúdo para um grupo desatento. 
  9. Gestores conseguem melhores resultados gerais para a escola, com alunos que antes eram candidatos a reprovação obtendo melhores resultados.

5 dicas para implementar a Aprendizagem Invertida 

  1. Invista no treinamento de sua equipe. “O professor precisa ser orientador e não expositor de matéria”. O Flipped Learning Global Initiative tem ótimo material de treinamento, disponível em inglês, espanhol e chinês. 
  2. Prepare seu aluno para essa nova forma de ensino/aprendizagem, sem passividade. “O aluno precisa estar preparado para ser atuante, para assistir vídeos sem ser para fins de recreação, de entretenimento, mas como ferramenta educacional.” 
  3. Prepare também os pais, principalmente de alunos menores. “Eles precisam saber que o jogo mudou, que existem regras novas e entender o que esse jogo envolve.” Os pais mais conservadores podem ter dificuldades de entender o método e precisam ter claras as vantagens da Aprendizagem Invertida.
  4. Cada professor deve desenvolver a melhor equação para seus alunos. Não existe um modelo ideal. O tutor pode inverter todas as aulas ou misturar o novo modelo com o modelo tradicional. 
  5. Não demande que seu aluno fique muito tempo “ligado”. Diversas pesquisas indicam que os vídeos que duram até 8 minutos são ideais para manter os estudantes atentos.
  6. Pense em como valorizar ao máximo o momento do encontro presencial, dando muito destaque a atividades que desenvolvam a interação entre os alunos por meio de trabalhos em equipe que valorizem o espírito de colaboração.

 

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