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“A transformação digital que estava se iniciando na educação deu um salto tecnológico muito mais rápido do que daria em cenários convencionais. Agora é hora de pensar na volta ao presencial. Esse processo será um grande desafio e requer muita organização e planejamento, além de uma reflexão: a escola será a mesma de antes?”  

Quem diz isso é Andrea Godinho de Carvalho Lauro, coordenadora do Ensino Médio do Colégio Poliedro, com cerca de 7.500 alunos e unidades em São Paulo, Campinas e São José dos Campos. Ela é uma das educadoras brasileiras que vivem um momento de imenso desafio: planejar uma nova mudança na rotina de professores e alunos no retorno às aulas presenciais, previsto para o segundo semestre.

“A volta será um desafio. Se, na transição para o digital, o tempo foi curto, agora, já não mais. É um momento de muita organização e planejamento. Montamos um comitê, avaliamos algumas medidas adotadas em outros países e iremos adequar a escola ao recomendado pelo governo”, diz Andrea.

Segundo a coordenadora do Colégio Poliedro, a ideia é realizar a transição do 100% virtual para o presencial, a partir de um revezamento, com momentos on-line e outros presenciais, adotando o ensino híbrido, uma das maiores tendências da educação no século XXI e que é visto como um dos maiores legados da pandemia para a educação.

“Nos últimos meses, alunos e professores vivenciaram novas formas de aprender e de ensinar, novas ferramentas de avaliação. Foi uma experiência que permitirá às escolas se apropriarem do modelo híbrido, seja para uma retomada gradual e segura dos alunos ao formato presencial, ou como parte de sua estrutura curricular daqui para a frente”, diz Andrea.  

 

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Desafios para a volta às aulas presenciais

Para organizar a reabertura de suas portas pelas escolas, gestores e professores não têm que se preocupar somente com medidas sanitárias, embora estas sejam de extrema importância e estejam no topo da lista de afazeres.

É preciso preparar a escola para uma nova fase na educação, aproveitando todos os passos dados durante a quarentena em direção a ter alunos cada vez mais construtores de seu próprio conhecimento. 

Para Andrea Godinho, o protagonismo do aluno passou a ser essencial com o isolamento social, principalmente na fase de reorganização:

“Os alunos (mais velhos) estão precisando ter planejamento, comprometimento e resiliência, para manter o bom desempenho nos estudos remotamente e garantir seus objetivos de carreira. Estabelecer uma rotina, buscar o melhor lugar para realizar suas atividades, evitar distrações, acompanhar videoaulas, fazer exercícios e até mesmos aprender a dividir horários de diversão com os estudos são práticas que fazem com que o aluno adquira maior senso de responsabilidade e seja o grande propulsor de sua rotina escolar”, afirma a educadora. 

 

A reabertura das escolas e metodologias ativas

O uso de metodologias ativas se mostra essencial para incentivar os alunos a estudar de forma autônoma, com mentoria de seus professores.

“É interessante que os professores façam sugestões de links da internet sobre os assuntos que estão trabalhando. Eles podem sugerir vídeos, filmes, textos e até obras de arte”, diz Betina Von Staa, formada em Letras pela PUC/RJ, consultora em inovação em contextos educacionais e membro da ABED – Associação Brasileira de Educação a Distância.

Betina dá algumas dicas de como usar metodologias ativas no retorno às aulas presenciais, incentivando a migração do ensino para um modelo híbrido, mesclando o presencial e o on-line

“Todas as metodologias ativas são possíveis em formato híbrido, isto é, no formato que mescla o trabalho individual de alunos (ou em pequenos grupos), mediado pela tecnologia, com momentos em que o professor orienta e instrui os alunos presencialmente. É possível propor trabalhos baseados em problemas, baseados em equipes ou fazer com que os alunos tenham contato com a teoria por conta própria e realizem as atividades práticas junto com o professor e os colegas”, diz Betina Von Staa. “Ao incorporar estratégias da aprendizagem híbrida e metodologias ativas nas propostas aos alunos, a sensação pode ser de “Nossa! É até mais divertido e interessante aprender assim!”

As dicas da consultora incluem propostas pedagógicas como: Aprendizagem Baseada em Vídeo (Video Based Learning VBL), Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem-Based LearningPBL), Aprendizagem Baseada em Times (Team-Based LearningTBL), gamificação e sala de aula invertida (Flipped Classroom).

“Eu acredito que a vivência dos últimos meses vai trazer um benefício gigante para toda a escola. Para melhorar a qualidade da interação com os alunos e com o desafio de mantê-los engajados em ambiente 100% on-line, muitos professores passaram a adotar várias metodologias ativas durante as aulas.

A gamificação, por exemplo, utilizando a lógica dos jogos, com regras e recompensas criadas pelos professores, foi utilizada em tarefas e avaliações. Houve muito desenvolvimento da equipe de professores neste período e todas essas práticas serão incorporadas ao repertório de cada um deles”, comenta a coordenadora do Poliedro.

 

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Polionu, um evento virtual que reúne estudantes em um debate 

Um bom exemplo de como instituições de ensino podem estimular o protagonismo de seus alunos a partir de projetos aconteceu recentemente, organizado pelo Colégio Poliedro, em São José dos Campos.

Há 15 anos, o colégio organiza o Polionu, um “congresso” que simula as conferências das Nações Unidas. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento acadêmico e fomentar o senso de empatia dos estudantes, ao mostrar como problemas de outros países podem afetar, direta ou indiretamente, toda a sociedade.

Este ano, a simulação (reconhecida pela Unesco) aconteceu durante 3 dias de forma virtual e contou com a participação não só de alunos da própria escola, mas de cerca de 300 jovens de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Alagoas e Mato Grosso.

“Nós, estudantes, somos responsáveis por planejar todos os detalhes do evento, sempre com o suporte do colégio e dos professores. Planejamos tudo: a formação dos comitês, os temas a serem debatidos, as atividades culturais dos intervalos, um espaço para que os alunos mostrem seus talentos musicais, por exemplo”, diz Tiago Neri di Lorenzo, secretário-geral executivo do evento de 2020. “O projeto nos coloca como protagonistas e nos faz refletir sobre as grandes questões contemporâneas.”

 

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